quinta-feira, 30 de junho de 2016

Vargas Llosa / Hemingway e as guerras


Ernest Hemingway
Fernando Vicente

Mario Vargas Llosa

H

emingway e as guerras 

Sua vida foi intensa, violenta, rondando sempre a morte. Alimentou seus contos, novelas e reportagens com essas experiências, de uma maneira tão direta que sua obra literária é, nem mais nem menos, uma autobiografia mal dissimulada


EL PAÍS, 18 OUT 2015

Eu sabia que Hemingway escrevia de pé, em um atril, como Victor Hugo, mas não que o fazia a lápis e em cadernos escolares pautados, com uma caligrafia tão tortuosa que até mesmo em uma tela que aumenta várias vezes seu tamanho fica difícil decifrar seus manuscritos.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Por que você precisa ler Svetlana Alexievich, a nova Nobel de literatura?



Por que você precisa ler Svetlana Alexievich, a nova Nobel de literatura?

Ricard San Vicente, tradutor, e Jaume Bonfill, editor, explicam por que autora deve ser lida


W. M. S.
Madri 8 OUT 2015 - 18:11 COT

A jornalista e escritora bielorrussa Svetlana Alexievich recebeu nesta quinta-feira o Prêmio Nobel de Literatura. Uma autora pouco conhecida,com poucos títulos traduzidos ao português, mas que é decifrada por seu tradutor e editor na Espanha
Ricard San Vicente (Tradutor):

Quem é Svetlana Alexievich?

É uma boa combinação entre jornalismo e literatura. Uma escritora da Bielorrússia crítica em relação ao seu país e à antiga União Soviética, e também em relação a situações importantes que afetam sua nação e outros países, como o Afeganistão.

Por que lhe deram o Nobel?

É um reconhecimento de seu trabalho documental. Onde acaba o trabalho jornalístico e começa o literário.

Por que vale a pena ler sua obra?

Se alguém tem interesse na ex-União Soviética, é preciso ler seus livros. Esse é o tema central de sua obra, seu material, sem a intervenção dos analistas. Em seus livros destacam-se os depoimentos de mulheres soviéticas que sobreviveram à Segunda Guerra Mundial, a catástrofe de Chernobil, em 1986, o colapso da antiga URSS e a ferida moral dessa sociedade através de diferentes fatos históricos. Além disso, a problemática do Afeganistão. Vozes reunidas de uma forma especial que chegarão ao coração dos leitores.

Quais livros recomenda?

A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, sobre os depoimentos de mulheres soviéticas que sobreviveram à Segunda Guerra, Vozes de Chernobil e oTempo de Segunda Mão. E O Fim do Homem Soviético, sobre o drama socialista.

Jaume Bonfill (editor de Vozes de Chernobil)

O Nobel premiou uma jornalista revolucionária. Svetlana Alexievich vai além da crônica habitual, de livros de não ficção. Traz depoimentos onde as pessoas dão sua versão sobre os diferentes dramas da antiga URSS. Faz uma nova abordagem, não é exagerada nem sensacionalista. É a voz humana sem restrições.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Svetlana Alexievich / “Quando o povo falou, todos ficamos com medo”

Svetlana Alexievich

Svetlana Alexievich

“Quando o povo falou, todos ficamos com medo”

A jornalista e escritora Svetlana Alexievich recebe o EL PAÍS, em sua casa em Minsk “Quando o povo falou, todos ficamos com medo”, diz a escritora bielorrussa


PILAR BONET
Minsk 10 OUT 2015 - 17:02 COT

“Que catástrofe!”, exclama Svetlana Alexievich, ao abrir a porta de seu apartamento com vista para um lago em Minsk. Desta vez a prêmio Nobel de Literatura 2015 não se refere às catástrofes retratadas em sua obra, como a Segunda Guerra Mundial ou a experiência bélica soviética no Afeganistão, passando pelo acidente de Chernobil ou o desmoronamento da URSS. Ao meio-dia desta sexta-feira estamos diante de uma “catástrofe em tom menor”, entendendo por tal o barulho em que vive a escritora desde que lhe concederam o prêmio, na quinta-feira à uma da tarde.
“Espero que exista um depois da catástrofe”, digo tentando conduzi-la a sua obra. “Sim, mas esta etapa será muito longa e ninguém sabe como vai acabar”, afirma enquanto entramos na pequena cozinha decorada com quadros e cerâmicas, que não parece ter mudado desde que a visitei em 2001, às vésperas das eleições presidenciais na Bielorrússia. Hoje, quatorze anos depois, novas eleições, a mesma cozinha e o mesmo presidente.

domingo, 26 de junho de 2016

Martin Amis / “Já não vejo as vítimas do Holocausto como distantes”

Martin Amis

“Já não vejo as vítimas do Holocausto como distantes”

Escritor publica em espanhol seu novo romance, ‘A Zona de Interesse’

Livro provocou áspera polêmica por abordar a Shoah com sarcasmo


AMANDA MARS
Nueva York 20 SET 2015 - 17:11 COT}





Martin Amis (Oxford, Reino Unido, 1949) abre a porta de sua casa no Brooklyn em 11 de setembro, um aniversário maldito nos Estados Unidos, mas o rosto de decepção do escritor tem a ver, desta vez, com o tênis: “Serena perdeu” são as primeiras palavras que arrasta no hall. Amis publica no fim deste mês em espanhol “A Zona de Interesse” [publicado no Brasil pela Companhia das Letras], um romance em que volta a tratar do Holocausto e cujo tom satírico levantou um rebuliço de críticas quando foi lançado, um ano atrás. É possível fazer sátira do horror? Vários exemplares do último livro em que ousou fazê-lo, em línguas diferentes, estão espalhados pela casa, mas sobre a mesa da cozinha repousa “Cartas a Vera”, de Vladimir Nabokov, que está relendo. Amis se mostra pouco inclinado a frequentar os autores vivos.

Pergunta. Por que não lê a nova literatura?
Resposta. É senso comum. Ler escritores jovens ou mais jovens do que eu não é uma maneira eficiente de usar o tempo de leitura. Eu só leio meus amigos: Zadie Smith, Will Self... Mas não porque sejam jovens. O modo de julgar o valor de um romance, uma pintura ou um poema é quanto perdura. O único juiz de uma obra é o tempo. Se um livro perdura um século, provavelmente é bom; se dura 10 anos, não muito. Então, costumo ler obras de autores mortos porque suas obras sobreviveram, enquanto que ler o romance de um autor de 25 anos é uma aposta... E não muito sensata.

sábado, 25 de junho de 2016

Jonathan Franzen / Uma cruzada contra o Vale do Silício

Jonathan Franzen
Poster de T.A.

Jonathan Franzen

Uma cruzada contra o Vale do Silício

Em ‘Purity’, escritor alerta para as ilusões vendidas pelas grandes corporações da Internet



IKER SEISDEDOS
6 OUT 2015 - 17:00 COT

Jonathan Franzen, romancista a quem se costuma atribuir a responsabilidade de carregar o rótulo de principal escritor norte-americano da atualidade e outras bajulações venenosas, costumava dividir seus dias entre o espaçoso apartamento no Upper East Side de Manhattan e Santa Cruz, uma cidade do Pacífico localizada entre as baías de San Francisco e Monterrey, onde o surfe é uma religião e as pessoas cultivam com afinco as suas excentricidades. Chegou a esse rico recanto pelas mãos de sua namorada de mais de uma década, Kathryn Chetkovich, escritora como ele; a “menina californiana” que aparece discretamente em A Zona do Desconforto, memórias fragmentárias do autor de Liberdade. A mãe de Kathryn está “bem mais idosa”, por isso, há três anos, o casal se instalou quase que permanentemente em uma casa da família em uma rua residencial. Um local absurdamente calmo com vista para um bosque dominado por eucaliptos. Aqui, os moradores deixam as portas de suas casas abertas e o escritor, um homem cheio de manias, vive razoavelmente isolado do mundo.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Vargas Llosa / “Chego aos 80 em um estado maravilhoso”



Mario Vargas Llosa

“Chego aos 80 em um estado maravilhoso”

Nobel de Literatura terminou seu romance “Cinco Esquinas” e se diz entusiasmado


Juan Cruz
23 Out 2016

sse é Mario Vargas Llosa de corpo inteiro, o escritor de ficções e o homem. Em março vai fazer 80 anos; sua vida pessoal passou por uma transformação radical, que inclui uma nova relação sentimental que deu mais o que falar do que ele imaginou, e agora sua editora, Alfaguara, anunciou que no aniversário do Prêmio Nobel de Literatura peruano será publicado em todo o mundo de língua espanhola seu mais recente livro, o romance Cinco Esquinas. Nesse trabalho, como emConversa no Catedral ou A Cidade e os Cachorros, Vargas Llosa retorna à sua terra natal, o Peru, o fundamento de sua narrativa e o grande pesar e grande alegria do seu coração e da sua memória. Esta entrevista aborda os principais temas de sua escrita, para que serviu e serve escrever para ele, e aspectos atuais da sua vida pessoal. Foi concedida a EL PAÍS, o jornal para o qual colabora há anos, no último domingo no apartamento onde vive em Nova York, onde leciona na Universidade de Princeton. Antes e depois da conversa, que é reproduzido aqui sem edição e sem cortes, o personagem e a pessoa se unem em um exercício extraordinário de memória, de pequenos detalhes, de histórias que descreve, oralmente, com a mesma precisão conhecida em sua obra completa: com extrema eficácia narrativa e descritiva. Por isso, a primeira pergunta é sobre sua memória.
Pergunta.  De onde vem a capacidade de recordar tantas coisas?

Resposta. Não é assim, lembro das coisas que têm a ver com meu trabalho, as pessoais ou familiares, e esqueço muito mais do que lembro, acontece com todo mundo. Sim, percebi que lembro muitas imagens, episódios que se transformam depois em matéria-prima para meu trabalho.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Amos Oz / “Critico Israel e não sou antissemita”

Amos  Oz

Amos Oz

“Critico Israel e não sou antissemita”

O polêmico escritor e eterno aspirante ao Nobel retoma a história de Israel em ‘Judas’.

“Escrevi esse romance porque me chamaram muitas vezes de traidor”


Trocou seu sobrenome paterno, Klausner, depois de deixar sua família de imigrantes judeus lituanos e ucranianos para trás e ingressar em um kibutz, aos 15 anos. Essa determinação de transformação da realidade o acompanhou por toda a vida e o levou a enfrentar desde o pacifismo à corrente majoritária de opinião em Israel, favorável à ocupação da Palestina. Amos Oz (Jerusalém, 1939) recebe Babelia de chinelos na sala do sótão em um distrito burguês do norte de Tel Aviv. Parece cansado e alega problemas indeterminados de saúde para explicar sua ausência na Espanha para a próxima apresentação de seu último romance, Judas (Sirueal).





PERGUNTA. Ainda existe a Jerusalém em que nasceu? Não encontramos o beco onde acontece seu romance Judas
RESPOSTA. Desapareceu. Tudo mudou: 50 ou 60 anos em Jerusalém são como 200 anos no resto de Israel. Perdeu sua beleza de paraíso perdido. Judas não é um documentário, nem uma espécie de memórias. Neste romance, escuta-se o eco de dois dos principais acontecimentos da história de Jerusalém: o sacrifício de Isaac, refletido na morte de um homem jovem [na guerra de independência de Israel, 1948-1949], e a crucificação de Jesus.
P. É uma ficção sobre a história dessa terra e seus conflitos?
R. No coração desse romance, está a história de três pessoas muito diferentes. Um velho que rechaça com força todas as religiões e todas as ideologias do mundo, cada uma delas começa com sonhos de redenção, embora todas acabem com inquisições, jihads, cruzadas, gulags, câmaras de tortura, e aceita o mundo como ele é. Vê-se confrontado por um jovem idealista, Shmuel, que acredita ser possível mudar o mundo. Que tem pôsteres de Fidel Castro e de Che Guevara na parede do seu quarto. E se encontra com uma mulher muito atraente, Atalia Abravanel, que está brava com o mundo que ficou nas mãos dos homens durante milhares de anos, um mundo que foi convertido em um matadouro. No fim, os três quase [enfatiza] amam uns aos outros. Essa mudança é uma espécie de milagre laico.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Borges / A Luis de Camões


Jorge Luis Borges
A Luis de Camoens

Sin lástima y sin ira el tiempo mella
Las heroicas espadas. Pobre y triste
A tu patria nostálgica volviste,
Oh capitán, para morir en ella

Y con ella. En el mágico desierto
La flor de Portugal se había perdido
Y el áspero español, antes vencido,
Amenazaba su costado abierto.

Quiero saber si aquende la ribera
Última comprendiste humildemente
Que todo lo perdido, el Occidente

Y el Oriente, el acero y la bandera,
Perduraría (ajeno a toda humana
Mutación) en tu Eneida lusitana.

Jorge Luis Borges
A Luis de Camões

Sem lástima e sem ira o tempo vela
As heróicas espadas. Pobre e triste
Em tua pátria nostálgica te viste,
Oh capitão, para enterrar-te nela

E com ela. No mágico deserto
A flor de Portugal tinha perdido
E o áspero espanhol, antes vencido,
Ameaçava o seu costado aberto.

Quero saber se aquém dessa ribeira
Última compreendeste humildemente
Que tudo o que se foi, o Ocidente

E o Oriente, a espada e a bandeira,
Perduraria (alheio a toda a humana
Mudança) na tua Eneida Lusitana.


BORGES, Jorge Luis. Quase Borges: 20 poemas e uma entrevista. Traduções de Augusto de Campos. São Paulo: Terracota, 2013.




terça-feira, 21 de junho de 2016

Prêmio Kafka / Árvores na neve / Discurso de Amos Oz


Amos Oz

Árvores na neve

Na opinião de Amos Oz, Franz Kafka foi o maior profeta do século XX, capaz de prever a desumanização e as tiranias, a crueldade do poder e a impotência do ser humano

Existe um conto de Kafka intitulado As Árvores. Nele, o autor diz que somos semelhantes a árvores na neve, que parecem flutuar, como se não tivessem raízes. É pura aparência, escreve Kafka, porque todo mundo sabe que as árvores têm raízes bem enterradas. E diz em seguida: mas isso também é pura aparência.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Kafka / Oportunidade para um pequeno desespero



Franz Kafka
OPORTUNIDADE
PARA UM PEQUENO DESESPERO


O livro "Oportunidade para um Pequeno DESESPERO" é uma seleção de contos de Franz Kafka escolhidos por Nikolaus Heidelbach que faz também as ilustrações do Livro. O resultado é um livro com imagens maravilhosas que a gente sente vontade de ter não só para ler como para guardar.




domingo, 19 de junho de 2016

O bicho de Kafka completa um século

Ilustração de Triunfo Arciniegas.
O bicho de Kafka completa um século

A celebração do centenário da edição de ‘A Metamorfose’

Novas versões estão chegando às livrarias


JOSÉ ANDRÉS ROJO
Madri 11 ABR 2015 - 11:15 COT







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Ilustração de Antonio Santos para 'A metamorfose'.

Em 22 de novembro de 1912 Max Brod, o amigo íntimo que desobedeceu a ordem de Franz Kafka de queimar todos os seus escritos quando tivesse morrido, escreveu a Felice Bauer, a então noiva do escritor. Tentou explicar-lhe que o autor passava por um mau momento e que seus pais não estavam conscientes de que para um ser excepcional como ele “são necessárias condições igualmente excepcionais com o objetivo de que sua delicada espiritualidade não murche”.
Esse ser excepcional, frágil, tremendamente nervoso, e básica e fundamentalmente obcecado pela escrita, redigiu entre 7 de novembro e 7 de dezembro de 1912 uma das obras-primas da literatura de todos os tempos. Foi publicada alguns anos depois, em 1915, de modo que está sendo celebrado um século de vida daquela singular história que se inicia quando o caixeiro-viajante Gregor Samsa, “depois de despertar de um sono intranquilo”, descobriu que se havia transformado em “um inseto monstruoso”. A editora Nórdica aproveitou a ocasião para lançar uma nova tradução, de Isabel Hernández, em um volume ilustrado por Antonio Santos, com prólogo de Juan José Millás, e à qual optou por dar como título A Metamorfose. A editora Navona se inclinou por traduzir o título como A Transformação, e da tradução do alemão para o espanhol se ocupou Xandru Fernández.
Ilustração de Franz Kafka

kafka (1883-1924) tinha conhecido Felice em agosto de 1912 e em setembro lhe escreveu a primeira carta. Em 1 de novembro já deixava perfeitamente claro para ela qual era sua maior obsessão: “Minha vida, no fundo, consiste e consistiu sempre em tentativas de escrever, em sua maioria fracassadas. Mas o não escrever me fazia ficar pelo chão, para ser varrido”. Na época, estava trabalhando em um romance, que Brod publicaria com o título de América. Mas estava emperrado. Como fazia um relato completo a Felice de tudo o que lhe acontecia, no dia 17 desse mesmo mês contou que lhe havia ocorrido um conto que o estava assediando “do mais fundo” de si mesmo.


O autor escreveu sua história em 21 dias, no final de 1912, e a publicou em 1915

O surpreendente dessa singular história é a naturalidade com que Gregor encara sua transformação. As coisas mudaram, parece que não o entendem quando se dirige a seus pais e à sua irmã, vai chegar tarde no trabalho, não sabe muito bem ainda como vai sair da cama para se pôr em marcha, tem uma incômoda dor nas costas e quando as toca com uma das patas sente calafrios. Mas, enfim, Gregor está consciente de que terá de fazer algo, e se empenha nisso.
“Também para o herói do meu conto as coisas hoje foram excessivamente ruins”, contou Kafka a Felice em uma carta de 23 de novembro daquele ano. Acabava de a avisar que o conto lhe daria “um medo horripilante”. No dia 24, insiste: “Meu amor, mas que extremamente repulsiva é a história que acabo de colocar de lado para recuperar-me pensando em ti. Já avancei até um pouco mais da metade, e no conjunto não estou insatisfeito com ela, mas quanto a ser asquerosa, ela é de um modo ilimitado, e coisas como essas, veja só, provém do mesmo coração que você habita e tolera como morada”.



Um assunto asqueroso que produz um medo horripilante. Kafka certamente tinha razão quando falava assim de seu texto, mas o paradoxal no assunto, como ocorre com quase tudo em sua obra, é que o relato está também atravessado por um sutil humor e que haverá alguns a quem, mais do que o medo, o que o caixeiro-viajante transformado em inseto inspira é uma tremenda ternura, simpatia, cumplicidade até. De que fala, na realidade esse conto?
O responsável pela edição das obras completas de Kafka em espanhol, Jordi Llovet, escreveu que há algo essencial em sua arte narrativa: “O sentido literal de um relato não é mais que uma armadura que sugere, senão força, uma atividade interpretativa; e essa atividade não é só labiríntica, mas interminável”. Tem razão, ao mesmo tempo que se vai lendo sua narrativa, vão surgindo hipóteses muito diferentes sobre o sentido do que ele conta. Há, portanto, muitas interpretações possíveis. E todas, além do mais, perfeitamente discutíveis. Nabokov se enfadava com quem dizia que o bicho era “muito apropriado para caracterizar o sentimento de inutilidade diante do pai”: “Interessam-me os insetos, não a insensatez; assim, rejeito esse tipo de absurdo”.


O processo de criação ficou consignado nas cartas à sua noiva

Kafka realmente velava constantemente por todos os detalhes. Quando o relato ia ser publicado, em 1915, e soube que teria alguma ilustração, escreveu de imediato aos editores: “Acontece que me ocorreu, considerando que Starke será realmente o ilustrador, que talvez ele deseje querer desenhar o próprio inseto. Isso não, por favor! O inseto em si não deve ser desenhado. Nem mesmo deve ser mostrado de longe...” Convém dizer que nas ilustrações de Antonio Santos do novo livro da Nórdica o bicho não aparece em nenhuma parte.



‘A TRANSFORMAÇÃO’ OU ‘A METAMORFOSE’?

Kafka, em 1905.  GETTY IMAGES

Franz Kafka intitulou sua narrativa como Die Verwandlung,cuja tradução literal é A Transformação. Era um sujeito extremamente meticuloso, até obsessivo, com o uso das palavras, se interessava pela precisão e que dissessem exatamente o que dizem. Assim, não utilizou o termo Metamorphose, que também existe em alemão e que limita o significado mais geral de “transformação” para um mais específico, relacionado à mudança que se produz quando os seres humanos se convertem em animais, plantas, fontes, etcétera.
“Eu traduzi o livro de contos cujo primeiro título é 'A Transformação' e nunca soube por que todos decidiram chamá-lo de 'A Metamorfose'", explicou Jorge Luis Borges em uma entrevista publicada em El PAÍS em 3 de julho de 1983. “É um disparate, eu não sei quem teve a ideia de traduzir assim essa palavra do mais simples alemão. Quando trabalhei com a obra, o editor insistiu em deixá-la como está porque já era famosa e se vinculava a Kafka.”
No terceiro volume das obras completas de Kafka publicado pela Galaxia Gutenberg, há uma explicação nas notas de que o título procede certamente de uma tradução precoce (anônima) que foi feita da narrativa em 1925 na Revista do Ocidente. Foi aí que se deu o título A Metamorfose. Continua ainda tendo êxito.


EL PAÍS