terça-feira, 26 de abril de 2016

Cleveland paga 21,3 milhões de reais de indenização pela morte a tiros de um garoto negro


Samaria Rice, a mãe de Tamir, em dezembro de 2014. Atrás dela, a foto de seu filho. REUTERS

Cleveland paga 21,3 milhões de reais de indenização pela morte a tiros de um garoto negro

Tamir Rice, que estava com uma pistola de brinquedo, morreu em 2014 baleado por um policial branco



A polícia de Cleveland mata um garoto que estava com uma pistola de brinquedo. Atlas
A cidade norte-americana de Cleveland pagará seis milhões de dólares (21,3 milhões de reais) para indenizar a família de Tamir Rice, o garoto afro-americano de 12 anos que morreu em 2014 baleado por um policial. A morte de Rice, que brincava com uma pistola de plástico, comoveu um país já imerso no doloroso debate sobre a violência policial nos Estados Unidos.


Com esse acordo, que ainda precisa ser ratificado pela justiça, Cleveland acerta a retirada do processo contra o agente Timothy Loehmann, autor dos disparos que mataram Rice, e contra seu colega de patrulha. A indenização significa também que a família do garoto não poderá processar a cidade e a polícia de Cleveland não será submetida a um julgamento por violação dos direitos civis do garoto em um tribunal federal.
A morte de Rice em 2014 se juntou a de Michael Brown em Ferguson e a de Eric Garner em Nova York. Apesar de não ter recebido os mesmos protestos, causou profunda comoção pela divulgação de um vídeo gravado por uma câmera de vigilância na qual se vê como os dois agentes dispararam contra o menor assim que chegaram ao parque onde ele brincava. Posteriormente se soube que uma ligação ao serviço de emergência já havia alertado antes sobre a presença de uma pessoa armada, mas que a pistola poderia ser falsa.
As autoridades da cidade de Cleveland sustentaram o tempo todo que os agentes não cometeram nenhum erro. Em dezembro, um grande júri decidiu que eles não deveriam ser acusados, assim como o promotor do condado, Tim McGinty, que afirmou que Rice morreu por “um perfeito vendaval de erros humanos”.


A família Rice denunciou em várias ocasiões tanto a extensão do processo legal como a falta de acusações contra os agentes envolvidos na morte do garoto. “Apesar de ser uma sentença histórica em termos financeiros, nenhum valor pode compensar adequadamente a perda de uma vida”, afirmou na segunda-feira a advogada da família, Subodh Chandra. Segundo o acordo, os herdeiros do menino receberão 5,5 milhões de dólares (19,5 milhões de reais), enquanto sua mãe, Samaria, e sua irmã receberão também mais 250.000 dólares (886.900 reais) cada uma.

sábado, 23 de abril de 2016

Sandra Vásquez de la Horra / El canto del desierto


Sandra Vasquez de la Horra, Tunel, 2015
 Sandra Vásquez de la Horra
EL CANTO DEL DESIERTO

Sandra Vasquez de la Horra, Diva Enmascarada, 2015

Sandra Vasquez de la Horra, El Viaje de Sirius, 2015. Graphite on paper, wax 56x34x20 cm

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Vargas Llosa / Preso mas livre

Fernando Vicente

Preso mas livre

É um milagre que este livro possa ter sido escrito. Seu autor, Leopoldo López, é o preso político mais conhecido internacionalmente, um símbolo dos abusos e injustiças


Mario Vargas Llosa
20 mar 2016


Que este livro de Leopoldo López, Preso pero Libre – Notas desde la Cárcel del Líder Venezolano (Península, 2016), que tem um excelente prólogo de Felipe González, tenha podido ser escrito é uma espécie de milagre. Encarcerado na prisão militar de Ramo Verde desde fevereiro de 2014 e condenado a treze anos e nove meses de prisão em uma caricatura de julgamento que foi motivo de riso no mundo inteiro, seu autor é o preso político mais conhecido internacionalmente, um símbolo dos abusos e injustiças que as ditaduras cometem contra aqueles que as ousam desafiar.
López foi acusado pela ditadura chavista de “incitação ao crime” pelas mortes que as grandes mobilizações estudantis causaram há dois anos em diversas cidades da Venezuela. Estive em Caracas naqueles dias e vi com meus próprios olhos a natureza pacífica desses protestos e a brutalidade com que Nicolás Maduro os fez serem reprimidos pela polícia política e pelos bandos de rufiões armados que utiliza para intimidar, golpear e, às vezes, assassinar seus opositores.
Leopoldo López se entregou voluntariamente à Justiça, sabendo que esta deixou de existir em seu infeliz país desde que o comandante Chávez e companhia acabaram com a democracia e instauraram em seu lugar “o socialismo do século XXI”, que transformou a Venezuela no país de mais alta inflação e criminalidade no mundo. Ou, como diz Felipe González, em um “Estado falido”.
A vida que desde então leva na prisão e que está bem documentada nesse livro é de abusos e injúrias sistemáticas, trancado solitário em um calabouço que tem dez grades com cadeado e quatro câmeras de televisão que vigiam seus movimentos nas 24 horas do dia e diversos aparelhos de gravação que querem registrar também tudo o que diz ou murmura. A isso se somam constantes inspeções, de dia ou de noite, para despojá-lo de papéis e livros, ou roubar-lhe as vestimentas pessoais. Um dos diretores da prisão de Ramo Verde, o coronel Miranda, um sádico, fazia, além disso, que seus asseclas esvaziassem de repente sobre ele sacos cheios de excremento. E é sabido que entre outras humilhações inenarráveis que deviam suportar os raros familiares que podem visitá-lo uma vez por semana –entre eles sua mãe e sua esposa– figurava a de terem que desnudar-se diante dos carcereiros.





Apesar de tudo isso, como demonstração da audácia criativa do espírito humano capaz de sobreviver a todas as provas, López pôde escrever e tirar da prisão esse testemunho comovente. Em seu livro não há uma ponta de rancor nem de ódio contra seus verdugos e aqueles que estão destruindo a Venezuela, cegados pelo fanatismo coletivista e estatista. Pelo contrário, um otimismo sereno percorre suas páginas, a convicção de que mesmo com o empobrecimento atroz a que conduziram o país as políticas pré-históricas de nacionalizações, expropriações e agigantamento enlouquecido do aparelho estatal, assim como a asfixiante paralisação de uma administração controlada por comissários políticos, há na Venezuela suficientes recursos naturais e humanos para levantar a cabeça e prosperar, tão logo a democracia substitua a ditadura e a liberdade violada esteja de volta.
Leopoldo López é um idealista e um pacifista convicto. Seus modelos são Gandhi, Mandela, Martin Luther King Jr., Vaclav Havel, Madre Teresa de Calcutá e, como crente convicto que é, Cristo. Em seu livro faz um grande elogio a Rómulo Betancourt, o líder da Ação Democrática que enfrentou primeiro o Generalíssimo Trujillo (que tentou fazer com que o matassem) e todos os tiranetes militares da América Latina, e depois Fidel Castro, sem complexo algum, em nome de uma democracia liberal que trouxe a seu país quarenta anos de legalidade e paz.




Leopoldo López sabe que o povo venezuelano não se deixou subornar pela demagogia do poder chavista

Eu recordo o ódio que tínhamos por Betancourt os jovens de minha geração quando acreditávamos que a verdadeira liberdade estava em Marx, Mao e na ponta do fuzil. Que insensatos e cegos fomos. Quem via com clareza, naqueles anos difíceis, era Rómulo Betancourt, e é muito justo que Leopoldo López preste a homenagem que merece aquele lúcido democrata que saiu da Presidência da Venezuela mais pobre do que entrou (pena que não tenha sido o caso de todos os mandatários nessas quatro décadas de liberdade).
Não se deve confundir o patriotismo com a patriotada, que está feita de palavreado um tanto ridículo e de gestos e arrogância como os de um palhaço, e que não costumam vir acompanhados da convicção nem da conduta. López é um patriota de verdade: ama seu país e, entre as grades, lembra com nostalgia sua geografia, as montanhas que gostava de escalar sozinho para meditar e respirar ar puro, os pássaros e as árvores de suas florestas, e as pequenas vilas amáveis que percorreu em suas viagens políticas. Sabe do extraordinário trabalho que empreende Lilian Tintori, sua mulher, uma dona de casa e mãe de família a quem Chávez e Maduro transformaram em uma ardorosa líder política, como tantas mães, esposas e irmãs dos 87 presos políticos que há na Venezuela e que lutam com grandeza para que lhes devolvam a liberdade.
Leopoldo López sabe que o povo venezuelano não se deixou subornar pela demagogia do poder chavista e que, a cada dia que passa, a corrupção dos homens que governam, vinculados às máfias do narcotráfico e às gangues de delinquentes aos quais vendem armas, e as prateleiras vazias das lojas, o racionamento, os cortes de luz, os assaltos, sequestros e crimes, vão empurrando para as filas da oposição, essa que nas últimas eleições, apesar das fraudes, ganhou 70% das cadeiras da Assembleia Nacional.




Leopoldo López é um idealista e um pacifista convicto. Seus modelos são Gandhi, Mandela, Martin Luther King Jr.

Mas, apesar disso, sabe também que a libertação da Venezuela não será fácil, pois aquela aliança de malandros incrustados no poder não o soltará facilmente, entre outras coisas porque teme que o povo venezuelano lhe peça contas por ter transformado o país potencialmente mais rico da América Latina no mais pobre em apenas um punhado de anos.
Uma fera ferida é mais perigosa que uma saudável e costuma vender caro sua vida. O Governo de Nicolás Maduro está cada dia mais fraco e sabe que tem os dias, ou os meses, mas certamente já não os anos, contados. E não é impossível que decida, se vir chegada a sua hora, vingar-se por antecipação dos que têm pela frente a árdua tarefa de ressuscitar o país que deixou em ruínas. Se assim for, as vítimas mais a seu alcance são esses 87 presos políticos que, como Leopoldo López, estão à sua mercê nas masmorras chavistas. Por isso é indispensável que a mobilização que converteu Leopoldo López em uma figura internacional não cesse e, em vez disso, se amplie, a fim de proteger todas as demais vítimas da ditadura venezuelana, a começar por Antonio Ledezma, o prefeito de Caracas, com a saúde muito delicada, e os civis militares, estudantes, operários e profissionais que estão presos por terem enfrentado o regime. Agora que estão perto da liberdade, sua vida corre mais perigo que nunca. É dever de todos aqueles que queremos que a Venezuela volte a ser livre manter a pressão para conservá-los vivos e salvos.
EL PAÍS




PESSOA

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Human Rights Watch alerta sobre execuções extrajudiciais e detenções arbitrárias na Venezuela


Policiais prendem um manifestante em San Cristóbal em março. 

Human Rights Watch alerta sobre execuções extrajudiciais e detenções arbitrárias na Venezuela

Organização denuncia a Operação de Libertação e Proteção do Povo (OLP)


SILVIA AYUSO
Washington 4 ABR 2016 - 20:07 COT


A “Operação de Libertação e Proteção do Povo” (OLP), anunciada há um ano pelo Governo de Nicolás Maduro como uma iniciativa para combater o crime no país, se tornou uma fonte de repetidos “abusos graves” dos direitos humanos entre a população mais marginalizada da Venezuela, que vão de detenções arbitrárias e despejos forçados até possíveis execuções extrajudiciais. É o que afirma a organização Human Rights Watch (HRW) e a venezuelana PROVEA em um relatório, “Poder sem Limites”, apresentado na segunda-feira em Washington e que também será entregue à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

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“Em vários ataques pelo país, as próprias forças de segurança teriam cometido abusos violentos, incluindo assassinatos, nada menos do que contra as mesmas comunidades que precisam de proteção”, lamentou o diretor para as Américas da HRW, José Miguel Vivanco.
A OLP representa uma “absoluta institucionalização do abuso do poder”, denunciou, por sua parte, Inti Rodríguez, coordenador de investigação da PROVEA. “Com esta operação, o Governo decidiu combater o crime de uma forma não democrática e assumindo diretamente a violação dos direitos humanos”, afirmou.
De acordo com dados oficiais da Procuradoria venezuelana, no marco da OLP morreram até dezembro 245 pessoas em operações das forças de segurança. A HRW e a PROVEA apontam em seu relatório que há fortes evidências que sugerem que pelo menos 20 desses casos poderiam ser execuções extrajudiciais cometidas durante batidas policiais.
“O alto número de pessoas mortas pelas forças de segurança, em si, gera dúvidas sobre se o uso de força letal pelas forças de segurança era justificado, e em que medida”, diz o relatório.
A isto se acrescenta, disse Vivanco em uma conferência de imprensa, a “desproporcionalidade” das baixas policiais, apenas três contra 245 supostos criminosos mortos em supostos “enfrentamentos” com as forças da lei.
“Isso nos permite concluir que não é possível acreditar na versão oficial de que 245 pessoas morreram em confrontos, dada a disparidade e a falta de investigações e informação por parte do governo da Venezuela”, disse.
Os “abusos” não terminam aí, advertem HRW e PROVEA. No relatório também alertam sobre o elevado número de detenções “indiscriminadas e arbitrárias”, especialmente se comparadas com o total de detenções (14.000 entre julho de 2015 e janeiro 2016) e o número final de pessoas que foram acusadas, menos de cem. A isso deve ser unido o despejo forçado e arbitrário de milhares de pessoas e a demolição “punitiva” de centenas de casas no marco das batidas da OLP, onde também foram denunciadas “surras” e roubo de bens pelos agentes de segurança.
Finalmente, o relatório inclui o caso de deportações arbitrárias no estado de Táchira, que faz fronteira com a Colômbia, desde o início da OLP. De acordo com o estudo, mais de 1.700 colombianos foram deportados desde então, embora pelo menos 400 deles tinham estatuto de refugiado ou estavam pedindo.
Significativo para essas ONGs é o fato de que essas operações tenham sido dirigidas contra as populações marginalizadas. Além de “criminalizar a pobreza”, as batidas da OLP “deixam em evidência até que ponto os venezuelanos de todo o espectro político, incluindo pessoas nas comunidades onde o Governo desfruta de um amplo apoio, estão indefesos contra os abusos governamentais” disse Rafael Uzcátegui, diretor executivo da PROVEA.
Tanto esta organização como a HRW consideram fundamental que os casos sejam realmente investigados e “sejam julgados os funcionários responsáveis por violações dos direitos humanos”. Mas para isso, sublinham, é essencial que “medidas urgentes para restabelecer a independência judicial” sejam adotadas.