quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Eddie Redmayne / “Meu trabalho foi encontrar a mulher que há em mim”

Eddie Redmayne 

“Meu trabalho foi encontrar a mulher 

que há em mim”

Com ‘A garota dinamarquesa’, o nome de Eddie Redmayne está cotado para outro Oscar

No filme, o ator dá vida a Lili Elbe, a primeira transexual que foi operada

  • Eddie Redmayne vive primeira trans conhecida em ‘A garota dinamarquesa’
Eddie Redmayne
Eddie Redmayne, no festival de cinema de Toronto. /WIREIMAGE
Se Eddie Redmayne fala a primeira coisa que lhe passa pela cabeça a seu interlocutor é porque, dentro de alguns meses, ele pode estar com seu segundo Oscar nas mãos. O primeiro, o que ganhou como melhor ator com seu retrato de Stephen Hawking em A teoria de tudo, brilha reluzente em seu apartamento de Londres. “Está em uma mesinha junto ao Globo de Ouro, e sempre que chego em casa me surpreendo porque a experiência de vê-lo ali continua me parecendo irreal”, confessa.
E agora vai ganhar o segundo. É o que dizem no Festival de Veneza, em Toronto, em Hollywood... Sua candidatura é certa para todos menos para este britânico de 33 anos, pálido e sardento, em um estado perene de alegria, assombro e humildade. “Acabei de conhecer Johnny Depp em pessoa e ainda estou em estado de choque. Em A garota dinamarquesa trabalhei com Amber [Heath], esposa dele. Não a tinha conhecido até agora. Formam um belo casal”, diz. “E Stanley Tucci? O que me diz? É meu ser humano favorito! Ele e sua esposa Felicity. São demais. Adoráveis, adoráveis”, acrescenta falando de Spotlight.
Redmayne é um ser humano dos pés à cabeça e, no entanto, foi alçado em menos de dois anos ao Olimpo dos deuses de Hollywood.

Pergunta. De onde vem tanta humildade?
Resposta. Suponho que parte venha de meus pais, do que me ensinaram. Da segurança de que tudo que sobe precisa descer. Todos já vimos. Especialmente em nosso trabalho, tudo é tão efêmero. E tive sorte. Sorte que todos os que receberam o roteiro de A teoria de tudoantes disseram não.
P. E a beleza? Em A garota dinamarquesa todos admiram sua transformação em mulher para dar vida a Lili Elbe, o primeiro transexual que foi operado.
R. Tom [Hooper, diretor do filme] sempre fala de minha feminilidade e é interessante porque sou idêntico à minha mãe. Mas meu trabalho neste filme foi encontrar a mulher que há em mim.
Este ator nascido em berço de ouro – educado em Eaton ao lado do herdeiro do trono britânico, o príncipe William, antes de concluir seus estudos em Cambridge – está encantado de provocar um novo debate com a estreia de A garota dinamarquesa, algo que abre os olhos para uma possível fluidez sexual na qual “não há gêneros, apenas seres humanos”.


Eddie Redmayne exibe o Oscar de melhor ator, ao lado de sua esposa, Hannah Bagshawe. /VALERIE MACON (AFP)
P. O sr. está a ponto de completar seu primeiro aniversário de casamento com Hannah Bagshawe, outra mulher em sua vida...
R. Parece mentira como o tempo passa. Me dei conta quando Hannah me lembrou que só restam alguns meses para que ela se sente onde quiser na mesa, em vez de continuar a tradição que diz que durante o primeiro ano de casados a esposa deve se sentar à direita do marido (risos). E que ano! Que Oscar o quê! O melhor foi meu casamento.
P. Mas teve tempo de aproveitar com tanta filmagem?
R. Nos conhecemos desde pequenos e Hannah já me viu em todo tipo de confusão. Mesmo assim ainda me ama. Além disso, somos noivos há muito tempo. Com os preparativos do casamento, nossa vida acabou se transformando em uma maravilhosa montanha russa até o Oscar. Mas tivemos tempo para viajar de lua de mel para as Maldivas. Um paraíso absoluto, sem celulares, desconectados de tudo. Nunca tinha passado férias com areia branca e água turquesa. E, sem dúvida, proteção solar fator 500, até na sombra. Tão britânico!
P. Tudo soa cotidiano demais para uma estrela, especialmente uma que está entre as mais bem vestidas de Hollywood.
R. Foi o que disse um tabloide quando colocou o título Eddie Mundaine [jogo de palavras que significa Eddie, o mundano] em uma série de fotos de mim na tinturaria ou tomando um café vestido de maneira informal tiradas por um paparazzi. Mas essa é a realidade da minha vida quando não estou falando de algo que me apaixona ou no tapete vermelho.




domingo, 27 de setembro de 2015

Danilo Venticinque / A tristeza de perder um escritor


João Ubaldo Ribeiro

A tristeza de perder 

um escritor

Os últimos dias têm sido difíceis para amantes da literatura

DANILO VENTICINQUE
24/07/2014 - 11h29 - Atualizado 24/07/2014 11h29


Perder um ídolo é como perder um amigo. Todo fã já sentiu essa dor, não importa do que e de quem sejamos fãs. Mas tenho a impressão de que os fãs de literatura sofrem mais. Talvez seja da natureza da atividade, que não nos dá tempo para nos prepararmos para a perda. Torcedores apaixonados começam a experimentar o luto quando seus ídolos no esporte se aposentam. Quem ama música está acostumado às turnês de despedida, uma forma humana e lucrativa de preparar fãs e ídolos para o fim. Não há nada parecido na literatura. São raríssimos os autores que fazem como Philip Roth e anunciam sua aposentadoria quando ainda têm plenas condições de produzir. Pelo contrário. Para nossa sorte, a maioria segue trabalhando e encantando leitores enquanto saúde permite, numa velhice cheia de eventos e projetos literários. Nossos heróis sempre morrem no auge.
Daí vem a nossa dificuldade para lidar com dias difíceis como esses. De uma hora para outra não temos mais João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e, agora, Ariano Suassuna. Nunca perdemos tanto em tão pouco tempo, e nunca estivemos preparados.
A literatura virou um assunto triste. Na internet, cada um busca a melhor maneira de homenagear seu escritor favorito. Frases, fotos e casos tentam resumir o irresumível e captar em poucas linhas a essência de quem deixou milhares de páginas para seus leitores.
Além de demonstrar o carinho dos leitores, essas homenagens ajudam a levar um pouquinho da obra desses escritores para quem nunca teve a sorte de conhecê-los em vida. É a única notícia boa nesses dias difíceis para a literatura brasileira. Nunca se falou tanto em João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna. Mesmo quem só leu meia dúzia de páginas vira fã, e divulga o trabalho do ídolo para quem não o conhecia nem de nome.
Há fãs antigos que se revoltam contra os recém-convertidos. Reclamam que basta um escritor morrer para que todos se tornem seus admiradores. Que os novos fãs são movidos não pelo amor à obra do autor, mas pela vontade de participar da comoção coletiva. Sentem que são um pouquinho "donos" do autor por tê-lo conhecido antes, e que, por isso, a dor deles é maior do que a da maioria.
Talvez estejam certos. Cada um lida com o luto à sua maneira. Mas talvez a melhor forma de homenagear o escritor seja acolher os novos fãs em vez de reprová-los. "Eu sei que vou morrer, mas meus personagens ficarão todos com vocês", disse Suassuna em sua última aula. Quanto mais pessoas conhecerem seus textos, mais vivo estará o autor. Para honrar a memória de um escritor, nada melhor do que consumi-lo e espalhá-lo. Ler sua obra e cuidar para que ela seja lida.
Além de demonstrar tristeza por perder um ídolo, é hora de lembrar por que eles merecem tantas homenagens. Reler nossos textos favoritos, descobrir livros que ainda não conhecíamos e compartilhar nossas descobertas com outros leitores. Por que não aproveitar o momento para finalmente criar coragem para enfrentarA pedra do reino, ou reencontrar o Sargento Getúlio? Quando um grande escritor morre, a leitura é a melhor homenagem possível. Talvez a única homenagem à sua altura.




sábado, 26 de setembro de 2015

Contos do russo Tolstói ganham edição no Brasil

Tolstói


Contos do russo Tolstói ganham edição no Brasil

"Contos completos", de Tolstói, tem três volumes. A obra ilustra a genialidade do escritor, considerado pelos críticos de sua época melhor do que Dostoiévski

RUAN DE SOUSA GABRIEL
25/09/2015 - 14h04 - Atualizado 25/09/2015 14h06
QUEM É MELHOR? Fiódor Dostoiévski (à esq.) e Liev Tolstói (à dir.), cujos Contos Completos são editados no Brasil. Tolstói fazia coro com os críticos que reprovavam o estilo soturnode Dostoiévski (Foto: Fotos: Hulton Archive/Getty Images)
"Tolstói é o maior prosador russo". O autor do elogio é Vladimir Nabokov (1899-1977), outro grande prosador russo. Nabokov lecionou literatura russa em universidades americanas, onde apresentava a obra de Liev Nikoláievich Tolstói, o conde místico da vila de Iásnaia Poliana. Nabokov, um nobre que fugira dos revolucionários bolcheviques, encontrou a imagem da pátria perdida nos escritos do conde. Tolstói convida o leitor a passear por salões aristocráticos e a contemplar a natureza ao lado dos camponeses russos, os mujiques. Nesse passeio conduzido com mão de mestre, o convidado nem percebe em qual momento começou a pensar em temas como a vastidão e a fragilidade da vida. Agora, as páginas desse mundo estão abertas ao leitor brasileiro. O lançamento Contos completos (Cosac Naify, 2080 páginas, R$ 139) reúne, em três volumes, a produção do autor desde a década de 1850 ao início do século XX.
Contos completos, de Liev Tolstói (Foto: divulgação)
A linguagem exuberante e as detalhadas descrições de Tolstói davam a Nabokov um prazer que ele não encontrava na obra de outro escritor russo, hoje muito popular: Fiódor Dostoiévski (1821-1881). Nabokov comparou os recursos estéticos de Dostoiévski a “porretadas”, enquanto os de Tolstói eram como “o toque suave dos dedos de um artista”. Tolstói e Dostoiévski nunca se encontraram. O conde fazia coro com os críticos que consideravam Dostoiévski um autor de romances mal-acabados e dono de um estilo rude.
Nas obras de Tolstói, em romances como Anna Kariênina e Guerra e paz, destacam-se personalidades monumentais, vigorosas, que afrontam o destino. Nas de Dostoiévski, como Crime e castigo e Os irmãos Karamázov, desfilam prostitutas, místicos e assassinos atormentados pela culpa. O próprio autor teve problemas com o jogo e a bebida. Na juventude, envolveu-se com socialistas e passou anos na cadeia. O século XX o redimiu. Foi apontado como o profeta que alertara sobre os riscos da influência das filosofias materialistas na alma russa. “Ele previu as tragédias do século XX, como o surgimento do terrorismo, tema de Os demônios”, diz Elena Vássina, professora do Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo. Dostoiévski, diferente de Tolstói, escrevia contra o relógio, pois precisava do dinheiro dos editores para saldar dívidas. Pouco descrevia personagens e paisagens. Nabokov explicava aos alunos que os personagens de Dostoiévski, ao longo do livro, não se desenvolvem. “Nós os recebemos completos no começo da história”, disse Nabokov. Tolstói, um conde com tempo nas mãos, desenvolve os personagens ao longo de muitas páginas. Ele aprimorou a técnica que os críticos formalistas russos chamaram de “estranhamento”: fazer o leitor se sentir como se contemplasse algo pela primeira vez.
Nas histórias curtas, as oposições entre os dois gigantes continuam. Dostoiévski usava os personagens de suas narrativas menores para apresentar temas que seriam mais bem desenvolvidos em seus romances. Tolstói usava contos e romances com fins diferentes. “O conto foi o instrumento que Tolstói sempre teve à mão para questionar e fazer experimentos estéticos”, afirma Rubens Figueiredo, o tradutor.
O conto remetia às antigas narrativas orais dos camponeses, que viviam segundo os valores que Tolstói admirava. Ao transformá-los em personagens de seus contos, questionava a suposta superioridade dos padrões sociais que a Rússia importava da Europa. “Há três oposições que aparecem em toda a obra de Tolstói: servidão e liberdade, guerra e paz, natureza e civilização”, afirma Sonia Branco, professora de literatura russa da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Ele mergulha na alma do homem do campo para mergulhar na alma humana”.  Dostoiévski também mergulhava, mas por meio dos conflitos do homem urbano, às voltas com as ideias debatidas na Rússia da época.
Sorte nossa poder visitar esses recônditos da alma humana por dois caminhos tão diferentes e tão ricos. Tolstói concluiu, afinal, que esses mergulhos o isolavam da humanidade. “Nosso ofício é horrível. Escrever corrompe a alma”, afirmou. Já idoso, decidiu afastar-se da literatura. Sorte nossa que, volta e meia, ele caía em tentação, imergia na solidão criativa e escrevia obras-primas.





quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Vargas Llosa / Nietzsche em Sils-Maria

Friedrich Nietzsche

Nietzsche em Sils-Maria

O filósofo acreditava que apenas o ser humano independente fazia o progresso







FERNANDO VICENTE
Quando Nietzsche veio pela primeira vez a Sils-Maria, no verão de 1879, era uma ruína humana. Sua visão se deteriorava rapidamente, as enxaquecas o atormentavam e as doenças o haviam obrigado a renunciar à sua cátedra na Universidade da Basileia, depois de lecionar ali por dez anos. Esta era na época uma remota região alpina no alto de Engadina, onde os forasteiros mal conseguiam chegar. Foi amor à primeira vista: ficou deslumbrado pelo ar cristalino, o mistério e o vigor das montanhas, as cascatas rumorosas, a serenidade de lagos e lagoas, os esquilos e até os enormes gatos monteses.
Começou a se sentir melhor, escreveu cartas exultantes de entusiasmo pelo lugar e, desde então, voltaria por sete anos consecutivos a Sils-Maria nos verões, por temporadas de três ou quatro meses. Sempre tinha sido um bom caminhante, mas, aqui, andar, subir encostas íngremes, meditar em montes nevados varridos pelos ventos, onde às vezes aterrissavam as águias, rabiscar os aforismos em seus livretos, um de seus meios favoritos de expressão, se tornou uma forma de viver. Em Sils-Maria escreveria ou conceberia seus livros mais importantes, A Gaia CiênciaAssim Falou ZaratustraAlém do Bem e do Mal,Crepúsculo dos Ídolos e O Anticristo.
Alojava-se na casa —que era também uma loja – do prefeito do povoado e pagava um franco por dia pelo modesto quartinho onde dormia. A casa de Nietzsche é agora um museu e sede da fundação que leva o nome do filósofo. Vale a pena visitá-la, sobretudo se o cicerone no dia for seu amável diretor, Peter André Bloch, que sabe tudo sobre a obra e a vida de Nietzsche e que organiza os seminários e colóquios que atraem a este belo povoado professores, ensaístas e filósofos de todo o mundo. A casa foi totalmente restaurada e oferece uma soberba coleção de fotografias, manuscritos —entre eles poemas e composições musicais de Nietzsche—, primeiras edições e testemunhos de visitantes ilustres, como Thomas Mann, Adorno, Paul Celan, Hermann Hesse, Robert Musil e até o inesperado Pablo Neruda, que escreveu aqui um poema. Boris Pasternak não pôde vir, mas enviou de seu confinamento soviético um longo texto fundamentando sua admiração pelo filósofo.
O único cômodo que não foi restaurado é o dormitório de Nietzsche. Surpreende pelo ascetismo. Uma caminha estreita, uma mesa rústica, um jarro e uma bacia de água. Testemunhos da época dizem que então estava cheia de livros. Mas a verdade é que Nietzsche passava muito mais tempo ao ar livre do que dentro de casa, e pensava e escrevia andando ou descansando entre as longuíssimas caminhadas que fazia diariamente. Duravam cerca de seis horas por dia e às vezes oito e até dez. Agora são mostradas aos turistas algumas rotas que, garantem os guias, eram suas preferidas, mas é pura fábula. Em primeiro lugar, a paisagem agora é diferente, civilizada pela afluência em massa de esquiadores durante o inverno, a abertura de estradas e os chalés esparramados ao redor das pistas de esqui. Nos tempos de Nietzsche esta era ainda uma terra selvagem, sem estradas, abrupta. Depois de uma difícil caminhada em meio aos pinheirais e na neve, quase à sombra, abria-se de repente uma paisagem de Éden, como a que inspiraria as bravatas e filípicas de Zaratustra.
Muitas vezes Nietzsche se perdeu nessas alturas desoladas e, em outras, dormiu e teve sonhos grandiosos ou terríveis que evocou em seus poemas e em sua música. Sempre levava a essas caminhadas um pequeno pacote de frutas e biscoitos, e os caderninhos listrados que sua irmã Elizabeth lhe enviava (podem ser folheados no museu), racista fanática que, para justificar a caluniosa descrição segundo a qual Nietzsche foi um precursor do nazismo, falsificou seus manuscritos e fabricou uma edição espúria de A Vontade de Poder. Em uma das prateleiras da Fundação se exibe a célebre foto de Hitler visitando, acompanhado por Elizabeth, o Memorial de Nietzsche em Weimar.
Muitas das diatribes de Nietzsche contra a religião e, sobretudo, o cristianismo, a ideia de que proclamar a vida terrena é só uma passagem no sentido do além, onde se vive a vida verdadeira, e o maior obstáculo para que os seres humanos fossem soberanos, livres e felizes e se mantivessem condenados a uma escravidão moral que os privava de criatividade, espírito crítico, conhecimentos científicos e iniciativas artísticas, foram gestadas aqui, em Sils-Maria. Mas, curiosamente, ao contrário de uma das imagens mais persistentes de Nietzsche, a de um homem antissocial, sombrio e ensimesmado, resmungão e colérico, pelo menos nos sete verões que aqui passou deixou entre os vizinhos uma imagem radicalmente diferente: a de um homem risonho e simpático, que brincava com as crianças, divertia-se com as piadas dos moradores e evitava a boataria e as discussões da vizinhança.
É verdade que nunca foi um fascista nem um racista; um setor do museu documenta em detalhes sua boa relação com muitos intelectuais e comerciantes judeus e as vezes que escreveu criticando o antissemitismo. Mas também é verdade que nunca foi um democrata nem um liberal. Detestava as multidões e, em especial, as massas da sociedade industrial, nas quais via seres alienados por essa “psicologia de vassalos” engendrada pelo coletivismo, que anulava o espírito rebelde e matava a individualidade. Sempre foi um individualista recalcitrante; acreditava que só o ser humano não gregário, independente, segregado da tribo, que a enfrenta, era capaz de fazer progredir a ciência, a sociedade e a vida em geral. Sua terrível sentença, que era também um prognóstico sobre a cultura que prevaleceria no futuro imediato —“Deus está morto”— não era um grito de desespero, mas de otimismo e esperança, a convicção de que, no mundo futuro, libertados das correntes da religião e da mitologia alienante do além, os seres humanos trabalhariam para tirar o paraíso das névoas ultraterrenas e o trariam para cá, para a história vivida, a realidade cotidiana. Então desapareceriam os estúpidos rancores que tinham recheado a história humana de guerras, cataclismas, abusos, sofrimentos, selvagerias, e surgiria uma fraternidade universal na qual a vida, por fim, valeria a pena ser vivida por todos.
Era uma utopia não menos irreal do que a das religiões que Nietzsche abominava e que faria correr também muitíssimo sangue e dor. Ao fim e ao cabo, seria a democracia, que o filósofo de Sils-Maria tanto desprezou, pois a identificava com o conformismo e a mediocridade, a que mais contribuiria para aproximar os seres humanos desse ideal nietzschiano de uma sociedade de homens e mulheres livres, dotados de espírito crítico, capazes de conviver com todas as suas diferenças, convicções ou crenças, sem se odiar nem se matar.
Sils-Maria, julho de 2015

EL PAÍS




PESSOA


terça-feira, 22 de setembro de 2015

Christopher Hitchens / O contestador no espelho

Chirstopher Hitchens
Christopher Hitchens
O contestador no espelho


A relação entre pais e filhos na Inglaterra da década de 50 era muito formal. Eric Ernest Hitchens e seu filho, Christopher, não fugiam à regra. Avesso a conversas, Eric era um homem comum, que trabalhou por décadas na Marinha britânica, apegado à estabilidade e nada contestador. Totalmente diferente do filho. Christopher Hitchens é um dos mais sagazes colunistas do jornalismo americano. Contribui para as revistas Vanity Fair e Slate (esta, online), e seus textos são republicados quinzenalmente por ÉPOCA. Em 1978, ele lidou com a morte do pai, acometido por um ataque cardíaco pouco tempo depois de saber que sofria de câncer no esôfago. Em junho, Hitchens descobriu ter a mesma doença do pai. Para fazer as sessões de quimioterapia, teve de cancelar o tour que faria para promover sua autobiografia, Hitch-22, a memoir (Hitch-22, memórias, Twelve Books, 435 páginas, sem previsão de lançamento no Brasil). Uma relativa ironia, porque Hitchens dá mais destaque no livro às contribuições para sua formação intelectual, sem se apegar muito a questões pessoais. 


O gosto pela contestação permeia o livro, a começar pelo título. Trata-se de uma referência à obra Catch-22, escrita em 1961 por Joseph Heller, em que o autor faz uma sátira à burocracia militar americana na Segunda Guerra Mundial. Nos Estados Unidos, “catch-22” tornou-se uma expressão para designar situações de difícil solução. Algo adequado para o modo de vida cético que Hitchens passou a ter com as frustrações ideológicas. Aos 15 anos, ele começou a demonstrar interesse por causas sociais – o que culminou na sua adesão à Internacional Socialista. Ele se via como um cara à frente do seu tempo, “uma daquelas pessoas da década de 60 com cara de década de 80”. “Eu vendia exemplares do 'Trabalhador Socialista', fazia grafite pró-vietcongs, discutia com os sociais-democratas, comunistas ou antitrotskistas”. Ao mesmo tempo, porém, sua racionalidade não o cegava. Ele sempre foi um crítico dos exageros do comunismo. A primeira grande decepção se deu em uma visita a Cuba, onde viu e viveu um regime totalitário que, segundo ele, controlava até seus horários para sair do hotel. 



Nos anos 80, Hitchens se muda para os EUA. Primeiramente, Washington. Depois, Nova York, que o fascina. “Como uma sociedade podia ser conservadora, liberal e revolucionária ao mesmo tempo?”. No fim daquela década, ele assiste à falência dos regimes comunistas, o que o torna ainda mais ácido sobre modelos políticos autoritários. Talvez a mudança de opinião mais radical tenha sido sobre o Iraque. Em sua juventude, na década de 70, Hitchens achava que Saddam Hussein se tornaria um socialista e traria progresso aos iraquianos. Trinta anos depois, para surpresa de muitos colegas, ele estava apoiando a guerra do Iraque, conduzida pelo ex-presidente George W. Bush com o argumento nunca provado de que Saddam tinha armas de destruição em massa. Durante visita ao país, em 2003, Hitchens diz ter ouvido de iraquianos que “sem o senhor Bush muitos deles já estariam mortos”. Mas seu aval à guerra causou uma perda humana, contada com detalhes em Hitch-22



Mark Daily, um jovem californiano de 23 anos, casou-se pouco tempo antes de ser enviado ao Iraque, onde ele morreu na explosão de uma granada, em janeiro de 2007. Até aí, nada demais. O que colocou Daily na vida de Hitchens, sem ele nem saber, foram seus próprios textos. Daily era contrário à guerra. Por meio de uma reportagem do jornal Los Angeles Times, Hitchens descobriu que a maneira como ele defendia e justificava a guerra no Iraque foi determinante para fazer Daily se alistar. O jovem contou à família que pretendia ser uma espécie de correspondente para Hitchens diretamente do front, mas o soldado, uma vez na guerra, não conseguiu contato com o autor. “Tanto lixo chega diariamente à minha caixa de emails, mas esse importante contato não me alcançou”, diz Hitchens. Quando teve conhecimento do caso, ele procurou a família de Daily, que o apresentou à história. Ele não se sentiu culpado, mas se deu conta da influência de suas opiniões. 



Alguns capítulos de Hitch-22 são dedicados a amigos de Hitchens que o influenciaram de alguma maneira. Um deles é James Fenton, poeta inglês, que dividiu casa com Hitchens em Oxford. Fenton foi o responsável por introduzir Hitchens nos vícios do cigarro e do álcool – sobre os quais ele evita falar durante o livro, embora assuma exageros. Fenton também ajudou Hitchens no começo de sua carreira como jornalista em Londres. Outro amigo antigo contemplado é o ensaísta britânico Martin Amis, de quem admira o sucesso com as mulheres. Foi Amis quem apresentou Hitchens a Margaret Thatcher, a Dama de Ferro. Ele a considerou “surpreendentemente sexy”. Em resposta, foi chamado de “garoto safado”. Com Salman Rushdie, autor dos Versos Satânicos – polêmico livro que provocou uma reação irada de líderes muçulmanos –, Hitchens compartilha opiniões contra o colonialismo. 



Nos poucos momentos em que fala da vida pessoal, Hitchens é sucinto. Narra rapidamente um relacionamento homossexual que teve com um garoto de sua idade, no colégio. Eles trocavam poemas e ficavam juntos, mas foram descobertos e obrigados a se afastar. Hitchens diz que a proibição o “matava”. Sobre a religião, também poucas palavras. Hitchens é ateu convicto (ele é autor do livro Deus Não é Grande) e nunca teve a religião como um assunto marcante dentro de casa. Sua mãe, Yvonne, a quem Hitchens agradece pelo interesse intelectual despertado nele, era judia, mas manteve isso em segredo até a morte, temendo as dificuldades que Hitchens e seu irmão, Peter, poderiam encontrar por serem de uma família. Ambos só souberam mais de dez anos depois de Yvonne morrer, por meio de uma tia. Hitchens classifica a religião como uma forma de imposição, pelo mais forte, de medo e amor. Logo, rezar pela saúde de alguém que não acredita em oração seria um grande paradoxo. O jornalista americano Jeffrey Goldberg, amigo de Hitchens, tocou justamente nesse assunto em um artigo no site da revista The Atlantic, com uma pergunta irônica. “Devemos orar por ele?”. Na semana passada, Goldberg entrevistou Hitchens, já bastante abatido pelo tratamento do câncer. Perguntou se ele se importava com as orações. “Não”. Mesmo que isso não mude nada, emendou Hitchens.


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