domingo, 31 de maio de 2015

Um Orson Welles que sambava


Um Orson Welles que sambava

No Brasil, a companheira do cineasta-gênio de 'Cidadão Kane', Oja Kodar, contou histórias íntimas que andavam guardadas junto com os vários filmes inacabados dele

    Oja Kodar no Caixa Bellas Artes. / LILO CLARETO
    Tudo parece já ter sido dito sobre Orson Welles, o cineasta-gênio de Cidadão Kane, que deixou vários filmes inacabados, mas dê uma chance a Oja Kodar, sua companheira em seus últimos 25 anos de vida, e algumas novidades surgirão. Muito pouco foi contado sobre o cara que usava caftans em casa e, aos 70, dançava samba no meio da sala para provar à amada que ainda tinha energia. Além de comentar seus filmes com dedicação, esse é tipo de histórias que Oja, conta durante uma visita ao Brasil este mês para celebrar Orson, que em 2015 completaria 100 anos.
    Os dois se conheceram quando ela tinha 20 anos e ele, 46. A ocasião era O processo, que em 1962 ele filmava em Zagreb, capital da ex-Iugoslávia, atual Croácia, onde ela nasceu. Orson ainda era casado com a atriz italiana Paola Mori – de quem, na realidade, nunca se divorciou no papel –, mas não resistiu aos encantos da jovem com quem escreveu e filmou depois Verdades e mentiras (1974), além de outros projetos incompletos. Ficaram juntos, em uma relação estável que combinava vida pessoal e trabalho. Hoje, foram-se já 30 anos da morte de Orson por um ataque cardíaco, mas os olhos dela brilham ao resgatar o passado como se exibissem um filme.
    “Era absolutamente excitante trabalhar com ele. Algumas vezes, bem difícil também. No trabalho, ele podia ser bem… duro, é a palavra. Ele me dizia coisas que soavam ríspidas, mas depois eu ponderava e achava que ele tinha razão”, conta Oja. Não que ele fosse grosseiro, sobretudo com os atores, diz ela, mas era um perfeccionista – alguém que, como bom diretor de cinema, mas próprias palavras de Welles, “presidia sobre o inesperado”.

    LILO CLARETO

    “Ele era uma pessoa muito gentil. Certa vez, ele disse claramente: ‘Preciso fazer amor com os meus atores, porque são eles que levam meu trabalho à tela’. Com os técnicos, especialmente na montagem, era mais complicado. Lembro de uma vez, em Paris, ele alugou um estúdio e pediu que disponibilizarem seis mesas de edição. Ele ia de uma para outra, escolhendo takes das tiras de filme e embaralhando-os de lá pra cá enquanto imaginava a montagem na cabeça dele. Era quase impossível para as pessoas acompanhá-lo”, relata, acrescentando que sua própria irmã, que trabalhou com eles, foi levada pelo cunhado várias vezes às lágrimas.
    Para Oja, muito da fama consagrada de Orson Welles – as críticas negativas, sobretudo – não é verdade. Dizem por aí que ele era gastão e pouco comprometido com entregas, mas ela defende que seu problema era basicamente a falta de dinheiro. "Ele começava algo, daí precisava parar para levantar mais recursos e continuar”, alega. No caso de seu filme brasileiro, É Tudo Verdade, a atriz – que preferiu continuar como escultora em seu país quando o marido faleceu – aponta razões ainda mais complicadas, que ela resume como “azar”.
    “Ele amava o Brasil, mas sinto dizer que sua visita naquela época foi cercada de azar. O filme era uma encomenda sobre a América Latina. Então ele veio, filmou o material e mandou de volta para o estúdio. Mas aqueles bastardos de Hollywood analisaram a filmagem e disseram: “O que o Orson Welles está fazendo lá embaixo, filmando aqueles negros pobres?”. Porque é assim que essas pessoas se referiam aos brasileiros… Mas Orson não pensava dessa maneira. Ele nunca falou de outro país como do Brasil”.
    O gênio tinha problema com entregas, fato, mas também é verdade que não parava de trabalhar. Nos últimos anos de vida, sofria de artrite e passava as madrugadas teclando só com os dois dedos indicadores. Oja, ao vê-lo digitando com dificuldade quando despertava de manhã, queria se certificar de que tudo estava bem, ainda que conhecesse “cada detalhe dele, sem precisar que abrisse a boca”. “Eu perguntava se havia algo errado, e ele respondia: ‘Não, estou perfeitamente bem, quer ver?’. Então, ele levantava e, vestindo aqueles caftans chineses que usava sempre dentro de casa, dançava pra mim no meio da sala e dizia: ‘Viu? Eu ainda posso dançar samba’”.
    LILO CLARETO
    Ela – cujo nome real é Olga Palinkaš, mas que adotou o Oja apelidado pela irmã e o Kodar (que significa em croata ‘como um presente’) sugerido por Welles – garante que não são só seus olhos que brilham diante da grandeza do companheiro. As pessoas costumavam se sentir intimidadas com seu "olhar inteligente e penetrante" e, apesar de toda a admiração, temê-lo por causa disso. Mas não Oja, jamais. Diz sem restrições que nunca houve atuação melhor, nem nunca haverá, do que a de Welles em uma cena de seu filme preferido dele, Falstaff - O toque da meia-noite, e que se o cinema não o tivesse “roubado”, ele seria um escritor premiado com um Nobel de literatura. Não que seu objetivo seja mitificá-lo ainda mais. "Ele é a única pessoa que amei. As pessoas dizem que o tempo cura as feridas e, em certo sentido, é verdade. Posso falar dele e rir de algumas coisas hoje. Mas o golpe é tão forte, que dói exatamente como antes”. É o amor.




    sexta-feira, 29 de maio de 2015

    Arkadiusz Branicki / O zodíaco

    O ZODÍACO ATRAVÉS DO OLHAR SENSUAL E DELICADO DE ARKADIUSZ BRANICKI


    Publicado por Carla Ruiz


    O fotógrafo polonês Arkadiusz Branicki é adepto do minimalismo, suas fotos apresentam simplicidade e delicadeza, valorizando o corpo feminino. Nessa série, ele apresenta sua visão do zodíaco através das formas e beleza das modelos. Eu, como astróloga, comento cada foto.


    Arkadiusz Branicki aquario abertura.jpg
    Arkadiusz Branicki costuma trabalhar em cima de formas simples e expressivas, valorizando o corpo feminino. Fotógrafo autodidata criou uma bela composição de imagens representando o zodíaco. Para criar as composições, investe em acessórios e formas que remetam ao arquétipo de cada signo.
    Há uma linha muito tênue entre o sensual delicado e o obsceno. Ao revelar o corpo, quando o fazemos em sua naturalidade, despido de preconceitos e apenas o revelando da maneira que é, não causa estranhamento e muito menos repulsa. Temos a figura corpo-arte, corpo-natural, corpo por si só.
    Sou astróloga e amante de fotografia, logo que me deparei com esse trabalho, pude perceber que não há somente a valorização do retrato nu e técnica de fotografia, é possível observar muito do arquétipo de cada signo através das lentes de Branicki, como mostro a seguir, lembrando que apenas estou passando uma pincelada sobre cada signo, com características gerais, ligadas à atitude, corpo e beleza. Não devem ser tomadas como critério de avaliação pessoal para quem é de um ou de outro signo.
    Áries Arkadiusz Branicki aries.jpg
    O signo de Áries pertence ao elemento fogo, primeiro signo do zodíaco, representa corpo com forte energia física, sensualidade mais agressiva, do tipo que chama a atenção mesmo sem querer, esse signo tem como regente o planeta Marte, ligado à força mais masculina, que tem atitude e impulso para agir quando necessário. Marte é representado pelo carneiro, que aqui na imagem se destaca com o cabelo da modelo. A posição dela na foto remete a uma ação que está para ocorrer, o impulso inicial para revelar algo.
    Touro Arkadiusz Branicki touro.jpg
    O signo de Touro pertence ao elemento terra e tem como regente, Vênus, a quem carinhosamente chamo de moça bonita do zodíaco. A Vênus taurina, aqui representada pela modelo com os chifres do touro, mostra o corpo, sem revelá-lo por completo, deixando algum mistério no ar. Esse signo está relacionado à sensualidade, e ao mundo material, físico, também está ligado ao conforto e a sensorialidade, valorizando todos os sentidos. Diferentemente de Áries, Touro é bem mais lento e aprecia aproveitar devagar cada momento que vive.
    Gêmeos Arkadiusz Branicki gemeos.jpg
    Arkadiusz Branicki gemeos1.jpg
    O signo de Gêmeos pertence ao elemento ar e tem como regente o planeta Mercúrio, aquele que na mitologia é o moço dos pés alados. Gêmeos, como o próprio nome já diz é um signo dual, extremamente ligado ao aspecto mental e racional. Nas imagens é representado através de modelos que retratam diferentes perfis, mesmo sendo muito parecidas na essência, o que denota a relação desse signo com o humor instável, o gosto por diversos assuntos ao mesmo tempo e a facilidade que tem de transitar entre universos diferentes.
    Câncer Arkadiusz Branicki cancer.jpg
    O signo de Câncer pertence ao elemento água e tem como regente a Lua, responsável pela mudança das marés e dos humores femininos. A Lua está diretamente ligada aos aspectos emocionais de cada indivíduo. Na imagem é representada pela modelo na posição do caranguejo, de costas, também não revelando seu rosto e sua expressão emocional, criando um clima mais misterioso, apenas fazendo com que imaginemos o que ela quer dizer. Acredito que poderia ter sido explorada uma foto que revelasse o seio da modelo, parte do corpo relacionada ao signo.
    Leão Arkadiusz Branicki leão.jpg
    O signo de Leão pertence ao elemento fogo e também tem relação com impulso de ação, com atitude impactante. Como o próprio bicho mostra, o rei da selva, aquele da Juba, é quem comanda e todas as atenções são voltadas para ele. O regente de Leão é o Sol, nosso astro-rei. O signo de Leão está ligado à aspectos relacionados ao ego, à beleza e também à generosidade e nobreza. A modelo de frente, tomando impulso e revelando parte do peito mostra sensualidade com a autoridade referente ao signo.
    Virgem Arkadiusz Branicki virgo.jpg
    O signo de Virgem pertence ao elemento terra e está ligado a características mais analíticas, seu regente é mercúrio, o moço dos pés alados, porém, diferentemente de gêmeos, aqui mercúrio assume uma postura muito mais crítica e voltada para a análise. Virgem é representado por uma mulher, e está relacionado à timidez e não exposição. Branicki traz os aspectos do signo de maneira perfeita nessa imagem. Um corpo que não se revela, não por vergonha de sua nudez, mas por precisar de confiança para se despir.
    Libra Arkadiusz Branicki libra.jpg
    O signo de Libra pertence ao elemento ar e assim como Touro é regido por Vênus, a moça bonita. Aqui ela assume a postura da balança, pesando tudo antes de agir, buscando a diplomacia nas relações e dando grande valor ao outro, características do signo de Libra, que também está relacionado à beleza e harmonia ao se apresentar. Essa imagem também está expressando perfeitamente o arquétipo do signo, através da expressão facial da modelo e do corpo, exposto de maneira equilibrada e sutilmente sensual.
    Escorpião Arkadiusz Branicki escorpião.jpg
    O signo de escorpião pertence ao elemento água e é regido pelo planeta vermelho, Marte, assim como Áries. A diferença é que a energia desse signo é interiorizada, e ele age em silêncio, de forma muito mais voltada para a estratégia, sua atitude lembra muito o símbolo do bicho, que aparece em locais escuros e apenas reage quando ameaçado. A imagem da modelo revela muito bem a sensualidade velada do escorpião através de um corpo que revela e ao mesmo tempo esconde, e a posição perfeitamente encenada pela modelo nos leva diretamente à imagem do bicho.
    Sagitário Arkadiusz Branicki sagitario1.jpg
    Arkadiusz Branicki sagitario.jpg
    O signo de Sagitário pertence ao elemento fogo e é regido por Júpiter,o Grande benéfico. Signo que está diretamente ligado a justiça, leis, estudos superiores e conhecimentos religiosos. O centauro, metade homem e metade cavalo é a representação desse signo, que possui em boa dosagem instinto animal e racionalidade humana. Tem atitude e enxerga à frente, lançando suas flechas nos alvos que deseja ter. Nas imagens, percebo que ambas as modelos estão reflexivas, focando no alvo. Senti falta de mais atitude nessa representação.
    Capricórnio Arkadiusz Branicki caprica1.jpg
    O signo de Capricórnio pertence ao elemento Terra e é regido por Saturno, tendo Marte como planeta exaltado, com força. Está ligado a aspectos práticos da vida e à agressividade de ir atrás de seus objetivos. É um signo mais focado na ambição e no trabalho e status social. A agressividade e impulso de Marte unidos à seriedade de Saturno. A modelo expressa bem os aspectos desse signo na foto.
    Aquário Arkadiusz Branicki aquario.jpg
    O signo de Aquário pertence ao elemento ar e tem como regente Saturno. Signo que está ligado a individualidade, a aspectos sociais e representa um foco muito maior no que há de bem estar social do que voltado para um único ser. A água que flui caindo da ânfora que a modelo segura, se espalha, sem limitar-se a um único espaço. Foto muito bem representada e bonita. Uma das minhas favoritas sem dúvida. Revela o corpo de maneira suave e com uma sensualidade natural, sem forçar e sem pose, displicente.
    Peixes Arkadiusz Branicki peixes.jpg
    O signo de Peixes pertence ao elemento água e tem como regente Júpiter. A simbologia do signo está perfeita na foto, os dois peixes nadando em direções opostas, sem mostrar pra onde vão, estão revelados através das modelos, deitadas, nuas, sem mostrar todo o corpo. O signo de Peixes está ligado ao mundo onírico, a arte, música, escrita poética. Também ao delírio e ao escapismo. Cada peixe nadando para um lado, cada corpo voltado para si e unidos na mesma imagem.

    CARLA RUIZ

    Em uma pedra, corpo jogado, me guio pelas estrelas. .





    quarta-feira, 27 de maio de 2015

    Fernando Pessoa / Poema em linha reta

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    Hoje, vivemos na sociedade do instantâneo, que louva apenas os nossos méritos. Basta abrirmos o facebook, o twitter, o instagram, ou qualquer outra rede social, que nos deparamos com fotos impecáveis, belos sorrisos, ângulos perfeitos, maquiagem feita e os cabelos produzidos. Somos assim? Acordamos assim? Tem jeito de embelezar a vivência humana no photoshop?
    E isso não é exclusividade da internet. As revistas de salão, que cavucam a privacidade das personalidades públicas, colocam nas suas páginas imagens de pessoas perfeitas vivendo vidas perfeitas em castelos na Irlanda. Que coisa linda! Esfregando na nossa cara, dos pobres cidadãos comuns, o quanto estamos aquém dessa realidade paralela e irrepreensível. Vomitando sem cessar nos nossos ouvidos que aquilo é o ideal, e que devemos nos esforçar freneticamente para tentar alcançar os padrões dos famosos, os tão maravilhosos donos do quimérico modelo de perfeição.
    Porém, muito nos enganamos ao achar que isso é só problema da contemporaneidade - ah, a nossa prepotência! Alguns indivíduos, espalhados no tempo, tiveram a sensibilidade de perceber o que hoje é escancarado aos nossos olhos. O registro que escolhi foi escrito por um homem nascido em 1888. Notem que é uma tendência histórica da nossa espécie esconder tudo que “queima nosso filme”, deixando à mostra apenas nossos êxitos.


    Fernando Pessoa, português, múltiplo, escreveu o poema em questão por meio das mãos de Álvaro de Campos, um de seus heterônimos. Estamos falando do célebre “Poema em Linha Reta” (recitado nos vídeos e completo ao fim do artigo), onde o eu-lírico chuta o balde em todas as pessoas que não se admitem fracas, falhas: humanas. Afinal de contas, o que há de errado nele, que se reconhece “vil, literalmente vil, / Vil no sentido mesquinho e infame da vileza”? O que há de errado nos tantos “semideuses”?


    É esse o nosso problema. Querer esconder nosso lado mendigo e mostrar apenas o príncipe (obrigada, Mark Twain). Deixar na obscuridade o Mr. Hyde e levar aos olhos públicos o Dr. Jeckyll (obrigada, Robert Louis Stevenson). E o que acontece quando deixamos transparecer os nossos defeitos? A nossa lama? Somos linchados. Somos taxados loucos, sem noção, fora da realidade.




    Bruna Kalil Othero

    OBVIOUS


    terça-feira, 26 de maio de 2015

    O outro lado de Sebastião Salgado

    Sebastião Salgado

    O OUTRO LADO 

    DE SEBASTIÃO SALGADO



    Com PhD em Economia e experiência fotográfica de causar inveja a qualquer mochileiro, Sebastião Salgado mostra-se mais imerso na sociedade do que nunca. Já perdeu a fé na humanidade e, ao restabelecê-la, defende que cada um tem a própria responsabilidade social. O pensamento do renomado fotógrafo vai ao encontro da filosofia de que o homem pode (e deve) conviver harmonicamente com a natureza, legitimando sua escolha em preservar e compartilhar o meio ambiente com todos os seres.


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    Como a maioria dos cinéfilos em épocas de Oscar, fico ansioso pelas indicações e, claro, pela cerimônia, alguns meses depois. Dessa vez, entretanto, tive uma surpresa ótima: havia um documentário na lista de indicados que mostrava a trajetória de um brasileiro - e esse brasileiro é o incrível fotógrafo Sebastião Salgado. O filme "The Salt of the Earth" ou "O Sal da Terra", além de singelo e sensível como o seu personagem principal, é tão monocromático quanto as obras de Sebastião e a sua intensidade.
    O filme, que é dirigido pelo alemão Wim Wenders, mostra a sensibilidade do fotógrafo na maneira que ele vê e trata a natureza. Há diversas passagens em que vemos a delicadeza com que Sebastião trata os índios e até mesmo as baleias como seus amigos. Ele claramente incorpora a filosofia budista de respeito a todos os seres - e é daí que vem sua natureza consciente e responsável pelo bem estar entre todas as espécies.
    FOTO1AB.jpg A imagem se deixa retratar - o fotógrafo não tira fotos sem permissão
    Sebastião Salgado não é apenas um bom fotógrafo modinha. Embora alguns críticos afirmem que ele "estetize a miséria", a fantástica exposição "Gênesis", que tive a oportunidade de visitar no Museu Oscar Niemeyer em minha última viagem à Curitiba, mostra que, se algum dia ele teve essa intenção, ela não existe mais. Sebastião deixou de ser apenas um memorável expositor para virar um ativista que procura, sobretudo, o equilíbrio entre o homem civilizado e a natureza selvagem; e, em oposição à maioria dos intelectuais, diz que o problema em preservar o meio ambiente não é do Estado ou dos Governos, mas de toda a sociedade pois "todos somos seres políticos e temos responsabilidade social".
    Seu discurso claramente não é da boca pra fora. Nascido em Minas Gerais, em uma casa cercada de mata virgem, abandonou o país por se envolver com grupos de esquerda durante a Ditadura Militar. Em Paris, ganhou sua primeira Leica da mulher, Lédia. Tendo seu real talento descoberto, largou a vida de doutorado em economia para fotografar o mundo e suas mazelas. Após se sentir desolado em Ruanda, onde, ao trabalhar na série "Migrações", via diariamente milhares de pessoas morrendo de forma brutal, volta ao Brasil na esperança de restabelecer sua integridade e suas filosofias. Ao chegar ao seu antigo paraíso de Mata Atlântica no interior de Minas, se surpreendeu com a devastação daquele lugar que um dia fora um refúgio. Fundou ali, com o apoio fundamental de sua esposa, o Instituto Terra, que hoje já semeou mais de dois milhões de árvores nas redondezas de sua antiga casa, transformando a propriedade em um Parque Nacional.
    lelia-e-sebastiao-salgado.jpg Sebastião e Lédia são um exemplo de casal socialmente engajado na causa ambiental. Ele fotografa e ela cura de suas exposições. Não há dúvida do poder dos dois em transformar a sociedade contemporânea
    Nesse essência de ser responsável pelo seu meio, foi em busca do modus operandi primordial à existência: pela primeira vez em sua carreira, tirou o foco do ser humano contemporâneo e ampliou o olhar sobre as comunidades primitivas, os animais e as paisagens. Procurando a perpetuação das origens do planeta (e dos seres que nele habitam), busca não só conscientizar o espectador, mas também guardar para as outras gerações aquilo que seus antepassados podem destruir se não desistirem da cobiça, da ganância e do egoísmo. Nessa perspectiva, a natureza selvagem, tema principal de "Gênesis", mostra-se progredida e evoluída na sua própria forma pacífica, altruísta e, ainda sim, desenvolvida de existir. Suas fotos, sempre em preto-e-branco, têm um foco maior no que está implícito e na informação retratada, não nos detalhes. Essa ferramenta tão usada por Salgado ainda nos permite sentir uma crítica à sociedade superficial e detalhista, que faz alarde sobre caprichos em detrimento do real sentido da existência.
    sebastiao-salgado-fotografia-elefante.jpeg
    Para além de "Gênesis", Sebastião mostra-se ciente do seu papel como cidadão e sabe das atuais deficiências do País no âmbito da defesa ambiental: "hoje temos um Brasil moderno, mas que foi construído sobre as florestas e os rios - a solução para o problema é preservar nossas nascentes. É absolutamente necessário que todas as instituições, sejam públicas ou privadas, façam sua parte." Nesse sentido, já está trabalhando em outro projeto multifacetado: Olhos d'Água , que pretende revitalizar as nascentes da bacia do Rio Doce, quase do tamanho de Portugal.
    Essa é jornada de Salgado até seu renascimento. Suas fotografias acompanham seu momento Drummondiano de "Eu cidadão do mundo"; suas imagens habitam o silêncio, ainda que tragam sons de lugares que conhecemos apenas pelas telas - retratos de um mundo vasto e intocado; seu apelo nos convoca a lutar pela essência de viver e, acima de tudo, conviver. Essa luta, que deve ser nosso mais intrínseco valor, é aquela que brande a espada contra a pseudo-superioridade do homem-indivíduo sobre qualquer coisa que não seja ele mesmo. De leões a pinguins; de índios a cosmopolitas, não podemos continuar manchando nossa índole com o egocentrismo que polui nosso solo, suja nossa água, imunda nosso ar e mata nossa cultura.
    E devemos ir além. Devemos tentar reverter os danos e acreditar que cada semente lançada à terra vai vingar, assim como todo homem é passível de transformação. Então, a sociedade torna-se reflexo do poder dos seus indivíduos em transformar o meio que já existe. Assim como o sal, devemos encher nossa comunidade de sabor e conservar o o que há de extraordinário.
    "Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se tornar insosso, com que a salgaremos?" (Mateus 5,13)


    OBVIOUS






    segunda-feira, 25 de maio de 2015

    Chico Buarque por Carolina Borges


    Francisco Buarque de Hollanda, 

    o nosso Chico

    Por Carolina Borges

    Chico Buarque já é nome consagrado na música, desde os anos 60 compõe verdadeiras obras primas, seja pela crítica política ou pela genialidade musical. No entanto, sua carreira como escritor, apesar de também ter sido iniciada nos anos 60, nem sempre é tão valorizada; suas primeiras crônicas foram publicadas já em 1961 pelo jornal colegial que ele mesmo batizou de Verbâmidas. Apesar de sonhar em ter seus textos publicados pelos grandes jornais, sua primeira aparição em um periódico foi através de uma manchete do Última Hora, de São Paulo: “Pivetes furtaram um carro: presos”, Chico e um amigo apareceram com os olhos cobertos por uma tarja preta, eles haviam “puxado” um carro para dar umas voltas durante a noite paulista, brincadeira comum para a época, que acabou na cadeia e com a condenação dos amigos que só poderiam sair a noite desacompanhados depois dos 18 anos. Entretanto, em 1966 publica em O Estado de S.Paulo o conto Ulisses, incorporado depois no primeiro livro chamado A Banda que trazia os manuscritos das primeiras canções.
    Com o amadurecimento veio também uma literatura mais “séria” e engajada – em 1967, acompanhando as canções políticas que fazia na época, Chico escreve a peça Roda-Vivaque estrearia nos palcos em 1968, com a direção de José Celso Martinez Corrêa, além de ter Marieta Severo, Heleno Pests e Antônio Pedro no elenco. A peça se tornou um marco na luta contra a ditadura, e na segunda temporada, já com Marília Pêra e Rodrigo Santiago nos papeis principais, um grupo do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiu o teatro Galpão, em São Paulo, em julho daquele ano, espancou artistas e depredou o cenário. No dia seguinte, Chico estava na platéia para apoiar o grupo e começava um movimento organizado em defesa de Roda-Viva e contra a censura nos palcos brasileiros. Continuando sua inserção pelo mundo do teatro em 1973 ele escreve, com Ruy Guerra, a peça Calabar, ou o elogio da traição, cuja ação se passa no Brasil colonial, na qual é relativizada a posição de Domingos Fernandes Calabar que preferiu o invasor holandês ao colonizador português. Também proibida pela censura, a peça só foi liberada muito anos depois.
    Já em 1974, Chico lança a novela agrária Fazenda Modelo, mas é em 1975 que Chico Buarque escreve, com Paulo Pontes, a famosa e impactante Gota d’água; uma tragédia carioca, baseada na adaptação que Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, havia feito para a televisão da releitura de Medéia, de Eurípedes. A peça se tornou um dos maiores sucessos de crítica e público. Por essa peça o autor ganhou o Prêmio Molière como melhor autor teatral, mas em protesto contra a censura, que proibira peças de vários autores, ele não compareceu à cerimônia de entrega dos prêmios.
    Apesar de ainda estar engajado na luta contra a censura e a ditadura, Chico, em 1977, traduz e adapta Os Saltimbancos, além de escrever o texto e compor as canções da peçaÓpera do malandro, dirigida por Luis Antônio Martinez Corrêa, que estreou em 1978. No ano seguinte, o autor lançou o primeiro livro infantil de sua autoria, Chapeuzinho Amarelo, ilustrado por Donatella Berlendis. Além disso, a peça Calabar, finalmente, é liberada pela censura e estréia em São Paulo em 1980.
    Além disso, participa, juntamente com Sérgio Bardotti, Antônio Pedro e Teresa Trautman, do roteiro de uma produção milionária: o filme Saltimbancos trapalhões, estrelado pelos Trapalhões em 1981. Neste mesmo ano, após 17 anos na gaveta, o livro A bordo do Rui Barbosa, poema escrito entre 1963 e 1964, é publicado com ilustrações do amigo Valandro Keating. Ainda nos anos 80 realiza com o cineasta Miguel Faria Jr., a adaptação e roteiro do filme Para viver um grande amor.
    Apesar de escrever belíssimas peças, Chico demora a assumir um lado totalmenteliterário, afinal a música sempre foi personagem importante em suas obras dramáticas. Só nos anos 90 vemos surgir um novo Chico, o romancista. O autor, apesar de nunca abandonar o ritmo, passa a alternar música e literatura e lança, em 1991, Estorvo.Publicado pela Companhia das Letras, com o qual ganha o Prêmio Jabuti de Literatura, os direitos de publicação de Estorvo são rapidamente vendidos para sete países: França, Itália, Inglaterra, Alemanha, Espanha, Estados Unidos e Portugal. Neste último, a venda atingiu 7.500 exemplares em apenas três dias, surpreendendo a Editora Dom Quixote.
    EstorvoBenjaminBudapesteLeite Derramado
    Depois do romance de estreia parece que Chico tomou gosto pelo gênero e escreveu na sequência Benjamim, que, lançado em 1995, recebeu críticas desfavoráveis de parte dacrítica literária, apesar do sucesso de vendas e dos elogios de grandes nomes da literatura. Passados alguns anos, já em 2003 a Cia. das Letras publica Budapeste, seu terceiro romance que ganha o Prêmio Jabuti de melhor livro do ano, ficando na lista de mais vendidos por diversos meses, além de ter sido traduzido para mais de seis idiomas.
    Recentemente, em 2009, Chico lançou seu quarto romance: Leite derramado, e novamente o romance de Chico foi escolhido o livro do ano pelo Prêmio Jabuti, o que gerou muita discussão no meio literário, já que houve questionamentos quanto ao merecimento do prêmio, pois a escolha do Livro do Ano se dá por decisão de empresários do setor literário, ao contrário das outras categorias, que são escolhidas por especialistas. Isso, segundo a Editora Record, faria com que pessoas com mais penetração na mídia (como Chico) teriam mais chances de vencer. Polêmicas a parte,Chico Buarque não pode ser ignorado ou diminuído como autor literário, pois assim como na sua produção musical, a literatura produzida por ele traduz em palavras os sentimentos, delicadezas e belezas que só um gênio pode perceber.




    sábado, 23 de maio de 2015

    Karl Ove Knaugåard / Sou simples, minha literatura não

    O escritor norueguês Karl Ove Knaugåard, em abril em Ystad. / CLAUDIO ÁLVAREZ


    “Sou simples, minha literatura não”

    O norueguês rompeu as amarras da ficção com um projeto de escrita autobiográfica



    Nas páginas dos seis romances autobiográficos com os quais o norueguês Karl Ove Knausgård rompeu as amarras da ficção e assumiu as primeiras posições no star system literário, o escritor reflete sobre sua timidez e seus silêncios. “Introvertido, introvertido, não queria ser um introvertido”, repete com obsessão o menino protagonista de A Ilha da Infância (Companhia das Letras), o terceiro volume da série Minha Luta, que foi lançado no Brasil este mês.
    Se no primeiro tomo da série, A Morte do Pai, ele se deteve no decadente final de seu progenitor e cimentou as bases de seu ousado projeto; e no segundo, Um Outro Amor, calcou as frustrações que rodeavam sua vida junto à esposa e os três filhos pequenos e refletiu sobre sua pulsão pela escrita; agora, em A Ilha da Infância, ele mergulha em cheio nas sensações de sua infância numa ilha norueguesa, como um Proust escandinavo versão século XXI. O garoto Karl Ove pensa que ele, mais chorão que risonho, passa muito tempo fechado no quarto, lendo, e decide que quer ser extrovertido.

    Tentei escrever de forma totalmente aberta: não estou mostrando nada, simplesmente é o que é, um estado mental"
    Leituras, reflexões e choros à parte, parece que aquele menino conseguiu o que queria e Knausgård se mostra francamente afável numa ensolarada manhã de abril na estação de Ystad, a mais próxima da sua casa. Pede desculpa, porque deve comprar tabaco e propõe caminhar até um café, no centro desse povoado de veraneio na costa sul da Suécia. Com mais de um metro e noventa de altura, vestido com jeans e jaqueta de estilo militar abotoada, sua presença é imponente. Seu cabelo loiro é agora cinza palha, mas a intensidade de seu olhar não perdeu um ápice de potência, embora esteja relaxado. Fala com uma veemência pausada.
    Knausgård atravessa um bom momento. Continua com o plano de sua pequena editora, que criou há quatro anos com seu irmão, escreve para revistas e está debruçado sobre um novo projeto com seu editor norueguês. O editor o ajudou a elaborar Minha Luta quando, após receber o primeiro tomo, sugeriu que o dividissem em dois e que seguisse adiante com outros quatro, nos quais o escritor decidiu revisitar a infância, a adolescência e os anos da universidade, antes de retomar o presente. Foi quem fez dele um escritor e não duvidou em riscar as partes em que se justificava pelo que escrevia.
    O debate ético e a virulenta polêmica que seus livros desataram na Noruega, quando foram publicados entre 2009 e 2011, têm dado lugar, à medida que as traduções aparecem, a uma fascinação e uma obsessão quase sem precedentes. As fileiras de seus devotos leitores e defensores incluem de Zadie Smith a Jeffrey Eugenides; a crítica se rendeu; e seu novo status com a publicação nos EUA do quarto livro é quase literalmente o de uma estrela do rock: este mês, tocará em Nova York com o seu grupo da adolescência, além de viajar com três de seus quatro filhos na turnê de lançamento do livro.
    Pergunta. Em A ilha da Infância, o senhor se pergunta se não deveríamos ter diferentes nomes próprios para as diversas fases da vida. Qual seria o seu nome agora? Sente uma distância em relação à pessoa que escreveu Minha Luta?
    Resposta. O que aconteceu com meu nome é muito estranho: transformou-se quase numa marca. Está ligado a essa cara que aparece na capa dos livros, e não é algo com o qual eu possa me identificar. Mas se vamos além disso, ao texto, sinto que de fato estou nessa voz. É a mesma que aparece no que escrevo agora, embora tente me desfazer dela. Meu eu interior não mudou tanto desde a publicação do livro, mas a imagem externa... Não posso nem me olhar no espelho, porque vejo essa máscara.
    P. Como tenta se desfazer dessa voz?
    R. Todo dia escrevo um texto sobre um objeto ou uma palavra. A ideia é que dure um ano e haja 365 textos. Neles eu trato das coisas do mundo, da materialidade. É uma maneira de me esquecer de mim mesmo e tentar – e encontrar – outro lugar a partir do qual possa escrever.

    Adoro a ideia de que você não tem controle sobre seu livro, porque está escrito a partir de dentro. Há esses pontos negros nos quais não posso me ver"
    P. No terceiro livro, o senhor parte de uma aceitação do esquecimento. É uma advertência?
    R. Meu ponto de partida era: não me lembro de nada, mas tenho essas fotos, e isso é tudo. Vamos ver o que acontece. As lembranças, ou esse mundo, chegam enquanto escrevo. O livro é uma busca da infância. Embora eu soubesse que algumas histórias apareceriam porque, mesmo sendo bobas, elas me marcaram e eu me lembrava delas muito bem.
    P. No primeiro livro, o senhor afirma que “a literatura é o que as palavras despertam no leitor”. Procurava desta vez provocar uma regressão à infância?
    R. Não pensei nisso porque não tinha um leitor em mente, mas essa tem sido minha experiência com as pessoas que o leram. Deve haver um mecanismo que é ativado; e acho que tem muito a ver com o ponto de vista do menino, muito diferente do meu eu adulto. Quando comecei a estudar seriamente literatura na universidade, havia muita teoria, estudo da linguagem, das palavras, dos símbolos e sinais, e nada sobre a psicologia ou sobre a parte mais importante dos livros. Eu, como todos os de minha geração, mergulhei de cara nessas teorias interessantes, absorventes e brilhantes, mas que não correspondiam com minha verdadeira experiência de leitura. Entende? Com esses livros, foi como se de repente retornasse algo que tinha ficado reprimido. Foi uma maneira de transformar a literatura em algo muito simples e acessível, porque trata-se da vida, não das palavras ou do que evocam. Não é uma norma geral, mas é o que significa para mim. Transpor a fase dos estudos foi muito importante para chegar a esse ponto.
    P. Quando escreveu o terceiro livro, já havia estourado a polêmica sobre os dois anteriores.
    R. Sim, tive que me isolar, fechar-me a absolutamente tudo o que estava fora. Deixei de ler os jornais, não assistia à TV, nem escutava o rádio. Adverti meus amigos de que não deviam me contar nada do que estava acontecendo. Sabia que algo ocorria, mas, se tivesse conhecido os detalhes, eles teriam me consumido. Fiquei totalmente escondido e escrevi. E funcionou. Ainda assim, acho que é um livro muito mais terno que os dois primeiros, por tudo isso.
    P. Como pôde se isolar completamente se o material de seu romance era sua vida, e ali estavam sua mulher e seus filhos?
    R. Não pude fechar as portas a eles, mas tinha que me isolar do que ocorria na Noruega. A vida familiar era a mais normal possível. A polêmica afetou a todos nós, especialmente a minha mulher porque ela estava ciente do que ocorria. Era muita pressão. Também me surpreende o fato de que pude fechar tudo e escrever. Assusta um pouco pensar que é possível, mas é.

    A missão da literatura não deveria ser mais ficção, e sim a realidade, o sentimento e o sentido de realidade"
    P. Até que ponto seus filhos o ajudaram a se aproximar das sensações da própria infância?
    R. Com os filhos você sente que há um número infinito de dias; é como um oceano de tempo no qual vão crescendo. Para eles, é ainda mais incompreensível, e um dia de verão pode ser como dois meses para mim e, em seguida, se ocorre algo dramático, isso muda. Talvez seja isso o que tenha acontecido comigo: lembro desses momentos tensos, mas também havia esse oceano de horas fora daquilo que não lembro. Essa foi a perspectiva que captei deles e que me deu uma visão mais realista de como cresci. Mas, quando comecei o livro, decidi que não ia pegar nada de fora, escreveria apenas o que tinha em minha cabeça. Abordo a maneira pela qual a memória funciona – se é possível confiar nela ou como você pode detectar se é falsa –, porque isso é tudo o que você tem.
    Knausgård atende uma chamada e aproveita para fumar um cigarro no pátio do local. Ao voltar, pede outro café e fala dos erros que não quis corrigir no livro, para não trair sua memória. Havia perdido totalmente o contato com seus amigos de infância, mas antes que o livro fosse publicado, conseguiu contatá-los e enviar o manuscrito. Estavam no mesmo local. Ficaram entusiasmados: “Senti que estava dando algo a eles, nossa infância, enquanto que nos outros livros as outras pessoas sentem que tirei algo delas”. Também visitou a ilha e se encontrou com seu vizinho e melhor amigo de infância. Seu pai havia trabalhado com o de Knausgård, e comentou como era muito bom professor e os traumas que esse terrível pai carregava.
    P. Em A Ilha da Infância, a professora o repreende por sua indiscrição ao contar as intimidades da família de um colega. Foi uma lição difícil de aprender?
    R. Lembro claramente como, quando criança, não respeitava os limites que devem ser respeitados. Não pensava nas outras pessoas, simplesmente estava nessa situação e queria brilhar. Percebi que é o mesmo o que faço agora, é o mesmo mecanismo, e por isso o escrevi. Acho que a professora estava certa. A diferença é que, desta vez, sabia o que estava fazendo.


    Karl Ove Knausgård. / CLAUDIO ÁLVAREZ.
    P. Não se gabar é um valor que lhe inculcaram desde criança, embora deseje enfatizar. Mostrar a vulnerabilidade, a vergonha e o medo é uma maneira de compensar que escreve sobre si mesmo?
    R. Mostrar-se e esconder-se é algo que sempre tem relação com os demais: você se coloca em um lugar e então avalia através desses olhos. O que tentei foi me livrar disso e escrever de forma totalmente aberta: não estou mostrando nada, simplesmente isso é o que é, um estado mental. É a única maneira na qual posso escrever, sem a presença do outro, porque não podia contar muitas coisas que estão no livro, a vulnerabilidade ou outras coisas das quais é impossível falar. Buscava uma liberdade literária, onde fosse possível simplesmente ser e escrever sobre tudo. Dá na mesma se é bom ou ruim, não há cálculo. Mas, claro, obviamente há um elemento de construção, um equilíbrio.
    P. O menino protagonista entra em uma tubulação e fica sem saída. Uma sensação parecida à qual o senhor teve quando começou a escrever e se fechou em si mesmo?
    R. Nunca havia pensado nisso, mas é provável que, inconscientemente, esteja lá por esse motivo. Escrevi aquilo porque aconteceu. Adoro a ideia de que você não tem controle sobre seu livro, porque está escrito a partir de dentro. Há esses pontos negros nos quais não posso me ver. Quando você escreve, aparecem umas linhas no nível subconsciente, mas não sou consciente. Essa é a maravilha da escrita, você sente quase como se ela estivesse fazendo tudo sozinha.
    P. Realmente leu todos os livros para seu amigo Geir por telefone?
    R. Sim, enquanto escrevia falávamos sobre o que acontecia no texto de verdade. Foi uma conversa constante, estava dedicado ao meu livro. Deixou de lado alguns aspectos de sua vida para me atender, porque ligava para ele várias vezes ao dia. E também falava com ele sobre as reações da minha família, quando Linda, minha mulher, ficou furiosa com o livro.
    P. Em A Ilha da Infância, o protagonista aprende a distinguir então entre as reações do grupo e as individuais. Aconteceu o mesmo diante dos violentos ataques ao Minha Luta?

    Tenho essa sensação de que o que nos rodeia é “ficcionalizado”, as notícias, tudo"
    R. Era impossível discutir com os que estavam em conflito com meu livro. Não acompanhei as reações, mas sabia que havia muita indignação moral pelo nível de privacidade exposto. Não dei entrevistas, mas a ofensiva chegou a um nível impossível, havia tanta crítica e as pessoas nos jornais ficaram loucas; as coisas que havia omitido foram reveladas. No final, fui a um programa de rádio, falei e o silêncio chegou, porque haviam me transformado em um monstro e decidido que eu não tinha nenhuma sensibilidade. Mas os rumores sobre o livro foram muito diferentes das reações individuais, porque se você tivesse lido, saberia que não era um projeto malvado que fiz para ganhar dinheiro. No final, as pessoas leram o livro e deixaram de se indignar. Socialmente foi uma transgressão; agora, esse muro caiu, se mexeu um pouco. Mas tudo isso é muito difícil porque é pessoal, e não importa o que eu diga, estou me defendendo.
    P. Ao se entusiasmar com a leitura, o menino diz que aprende que é preciso ter valor e nunca permitir ser derrotado, nem se dar por vencido, embora esteja sozinho, e que no final há uma recompensa. Esse foi o motor de Minha Luta?
    R. Não havia feito essa conexão até agora, mas o que sentia quando criança é que essa era a maneira que alguém deveria ser. E nunca consegui, porque sempre fui um covarde, senti que não defendia nada, que fazia concessões diante de meus ideais. Meu livro aborda muito esse sentimento de fracasso, de não ser quem você sabe que deve ser, porque sempre há alguma interferência. As leituras infantis me marcaram e meu sentido de moral vem daí. Outras crianças não leram esses livros e, no entanto, viviam mais de acordo com esses ideais. Eu tinha essa aproximação teórica.
    P. Havia livros que sempre retomava. Agora também tem leituras recorrentes?
    R. Há livros que retomo sempre porque são um poço sem fundo, por exemplo, Ulisses, de Joyce, ou Proust. Madame Bovary é provavelmente meu romance favorito.
    P. Em seus livros, porém, há discursos apaixonados contra o romance clássico. Cansado da ficção, propõe-se a combater a ficção com ficção.
    R. Bovary certamente produziu um grande choque quando foi publicado porque sentimos que a descrição do mundo e os detalhes que oferece são muito reais. A realidade que contém se opõe à visão romântica, à ficção de Emma. Flaubert deu uma nova guinada rumo ao realismo. Agora é preciso fazer isso de novo, é preciso rearranjar as coisas para conseguir alcançar essa sensação do mundo real. É o tema dos meus livros também.

    Estes livros simplesmente queria que fossem em sério, que fossem algo verdadeiro, uma questão de vida ou morte
    P. Com a sua abordagem, tenta derrubar um muro através do artifício?
    R. Sim. Poderia ter publicado num jornal, mas está narrado como um romance. Isso é muito importante. Tenho essa sensação de que o que nos rodeia é “ficcionalizado”, as notícias, tudo. A missão da literatura não deveria ser mais ficção, e sim a realidade, o sentimento e o sentido de realidade. Quando terminei minha série, li Fome de realidade, de David Shields. É muito bom. Acho que hoje sentimos uma falta de realidade. No último livro de Minha luta, falo do massacre na ilha de Utøya, que foi uma “ficcionalização” do mundo. O assassino não era consciente do mundo real. No julgamento, contou seu ataque passo a passo. Havia alguns jovens perto da parede nos quais atiraria. “Eles não se moviam. Por que não? Num filme, sempre se movem e tentam escapar”, dizia. A realidade se infiltrou, mas continuou. Não lhe importavam, e ainda não se importa com a vida dessas pessoas, pensava que eram obstáculos. Não digo isso como uma advertência em relação aos videogames, isso é estúpido, milhões de pessoas jogam e não matam ninguém. Mas acredito que algo está acontecendo, há uma mudança radical no mundo.
    P. Estamos presos na ficção?
    R. Não sou pessimista. Em algum lugar deve haver algo que não seja possível traduzir, que é o que é, sem concessões possíveis. E o único lugar que me ocorre é a literatura. Sou muito idealista nesse aspecto. Sou simples, mas minha literatura não é. Também é interessante o assunto da escrita literária, porque obviamente você precisa dela para fazer um texto mais atraente. Mas qual é o mínimo possível? Por isso estou fascinado com Ulisses, é uma caixa de ferramentas. Li o diário de um escritor sueco que escreve 50 páginas sobre jardinagem e é hipnótico. Isso é uma qualidade literária que não tem a ver com a narrativa ou com contar uma história. É simplesmente o senso de estar perto de outra mente ou outro ser, talvez perto do mundo.
    P. O que deixou fora do seu livro?
    R. Deliberadamente, a única coisa que não incluí foram descrições sexuais, por motivos óbvios. Quando mandei o manuscrito, algumas pessoas me pediram que tirasse determinadas histórias, de modo que ficaram de fora coisas que obviamente causavam danos. Mas realmente segui um caminho e deixei de lado tudo o que não estava nessa trilha. Por exemplo, o futebol: quase não falo dele, e é uma grande parte da minha vida.
    P. Em seus livros, o senhor diz que não gosta das entrevistas. Isso mudou?
    R. Estou mais acostumado e nunca as leio. Para mim, este é apenas um encontro e falamos de mim – algo que nunca teria feito fora desse contexto. Se tivessem acabado de nos apresentar e você não me perguntasse nada, não teria podido pronunciar uma palavra.
    P. As pessoas assumem agora que o conhecem além da conta?
    R. Meu amigo Geir diz que sou muito, muito pior que no livro. E muito, muito melhor. Acha que eu me importo menos com as pessoas do que parece, que sou mais autista. Melhor assim, porque sou mais amável. Acredito que, basicamente, ele tem razão. Quando comecei a escrever, sentia que era uma pessoa boa e, de alguma maneira, agora já não. Tive que admitir muitas coisas sobre mim mesmo. Tenho uma visão mais realista de tudo, e comecei a duvidar mais das pessoas. Mas continuo sendo muito ingênuo e acredito que transmito isso nos livros, não?

    Quando comecei sentia que não tinha nada que perder. Depois, o mundo atacou e refugiei-me em minha
    família
    P. Neles existe humor, mas não ironia. É proposital?
    R. Foi deliberado. Na Noruega, minha geração é chamada “geração da ironia”. E quando isso chegou, em 1992, foi muito liberador. Mas simplesmente queria que esses livros fossem algo verdadeiro, sério, uma questão de vida ou morte.
    P. Quais são os perigos dessa maneira de escrever que propõe em sua série?
    R. Para mim é um método, uma fórmula que já está em seu leito de morte. Não posso escrever outro romance com essa abordagem, porque então seria algo mecânico, que já está morto.
    P. Qual foi o livro mais complicado para escrever?
    R. O segundo, porque quando escrevia eu tratava do que tinha mais perto, e o sexto. Neste último, queria voltar a levar o projeto ao ponto de partida, sem concessões. Foi muito difícil. Não consegui. Quando comecei a série, sentia que não tinha nada a perder, tinha essa frustração de estar numa família e desejar estar fora. Depois, o mundo atacou e me refugiei em minha família – que é o que tenho e que foi muito, muito importante. No final já não podia me voltar contra isso. Tinha muito a perder.
    P. O senhor definiu Minha Luta como um suicídio literário. Como se sente agora?
    R. O objetivo era partir de uma tábula rasa quando terminasse e aqui estou. Tenho que encontrar algo novo ou deixar de escrever.
    P. No livro o senhor fala com Geir sobre se é espectador ou protagonista de sua vida. Essa pergunta ainda lhe persegue?
    R. Tinha a sensação de que não vivia realmente mais do que na literatura e que me escondia da realidade, do que me doía. Queria que esse livro fosse o que me levasse da literatura para a vida. Era muito ingênuo, mas me ajudou a encontrar assuntos. Agora aceitei que sou assim, vivo através da literatura, e assim é como enfrento tudo. Tenho quatro filhos, estou rodeado de vida. Veremos quando cresçam e saibam que nossa história está lá fora.
    P. Já leu algum de seus livros para eles?
    R. Não, lhes contei coisas, mas são um pouco pequenos. A mais velha tem 11.
    P. Se algum deles quiser ser escritor, o senhor desaconselharia?
    R. Escrevem muito, porque parece que isso é o que as pessoas fazem. Mas espero que não façam isso no futuro. Quando você tem filhos pequenos, quer que sejam felizes, é a única coisa. Não acredito que os escritores sejam.

    Karl Ove Knausgård. / CLAUDIO ÁLVAREZ