quinta-feira, 30 de abril de 2015

Todas querem ser Gisele

Gisele Bündchen
Todas querem ser Gisele

Bündchen abriu as portas do mundo para as modelos brasileiras, agora os caçadores de novos rostos examinam minuciosamente o país para encontrar uma nova “top”

A modelo brasileira Gisele Bündchen. / CORDON
Corria o ano de 1995 quando Zeca Abreu, diretor da Way, uma das quatro agências mais importantes do Brasil, perguntou em Nova York a John Casablancas, fundador da Elite Models, por que as modelos brasileiras não faziam sucesso nas passarelas internacionais. Casablancas foi breve: “As brasileiras têm problemas: boyfriend, lazy and fat”.
“Havia um estigma com modelos brasileiras. Elas eram muito frágeis emocionalmente, demoravam muito até entenderem que sua carreira era um negócio e tinham muita facilidade para engordar”, afirma Abreu.
Cinco anos depois, Gisele Bündchen era coroada como uma das modelos mais importantes do mundo. Seguiram-se Alessandra Ambrósio – a quem Abreu ainda representa –, Adriana Lima, Fernanda Tavares, Ana Beatriz Barros, Isabeli Fontana... Uma geração que invadiu sem aviso o cenário internacional e que, dez anos depois, continua no topo do negócio. Gisele, Alessandra e Adriana são três das 10 tops mais bem pagas do mundo. Gisele ganha nada mais, e nada menos do que 45 milhões de dólares por ano, segundo a revista Forbes.
“Essa geração foi a que conseguiu acabar com essa tendência estabelecida, com essa forma de ser modelo. Mudaram esse estigma. O mercado também começava a abandonar a imagem da modelo hippie, com cara de drogada, e apostava em uma imagem mais saudável, que as brasileiras representavam perfeitamente”, diz Abreu.
O Brasil se tornou desde então uma máquina de exportar modelos: Taís Araújo, Raica Oliveira, Caroline Ribeiro... Mas, uma década depois, marcas brasileiras como a Colcci, que nesta temporada apostou no inexperiente ator loiro Paul Walker, de Velozes e Furiosos 2, para sair em editoriais de moda, sacaram o talão de cheques dourado para trazer Gisele de volta à sua passarela, após dois anos de ausência. Onde estão as novas promessas?
O sucesso de Gisele criou uma geração de meninas que querem ser modelos e cujo sonho é o que alimenta uma máquina que atrai centenas de mulheres em todo o país para São Paulo e Rio de Janeiro, pagando as contas de dezenas de agências. Mas sobreviver como modelo não tem nada a ver com fazer sucesso. “Desde então não produzimos uma só supermodelo comparável em termos de imagem ou dinheiro”, diz Jocler Turmina, responsável por “rostos novos” na agência Joy, uma das maiores do setor.

Os agentes procuram uma substituta que não se pareça com ela, mas não é fácil.
A estrela de Gisele Bündchen abriu as portas do mundo para as modelos brasileiras, mas estagnou o desenvolvimento das próximas gerações de tops. Especialistas dizem que as candidatas e os agentes ficaram muito presunçosos ao acharem que virar a número 1 é algo que se consegue em dois dias.

Brasil, fábrica de top models

Adriana Lima: 32 anos. A Forbes a classificou como a quarta modelo com mais rendimentos em 2012: 7,3 milhões de dólares. E para a Models.com ela é a mais sexy do mundo, logo acima de Gisele. Abriu cinco vezes o desfile da Victoria’s Secret. A última delas foi dois meses depois de dar à luz sua segunda filha com o jogador de basquete Marko Jaric.
Raquel Zimmerman: 30 anos. De 2007 a 2010 ela ficou no topo da lista de modelos internacionais da Models.com. David Lynch colocou-a como protagonista de seu comercial da Gucci, e Lady Gaga a incluiu no clipe de “Born This Way”.
Isabeli Fontana: 30 anos. Com ela, a Victoria’s Secret violou as próprias regras (não usar modelos menores de 21 anos), ao colocá-la na capa de seu catálogo com apenas 16 anos. É uma das favoritas do calendário Pirelli.
Alessandra Ambrósio: 32 anos. A sexta modelo mais bem paga, de acordo com Forbes (6,6 milhões de dólares). Representou o Brasil no encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres.
Para Turmina, enquanto os olheiros e aspirantes a modelos não se desfizerem do fantasma de Gisele será difícil criar uma nova top modelbrasileira. Ele se refere ao físico ariano do Sul do Brasil, representado pelas brasileiras mais internacionais, mas também à confiança que tem permeado a consciência coletiva dos agentes e modelos: “O olheiro acredita que vai para um shopping e ficará milionário encontrando a nova Gisele. E a menina acredita que ser bonita basta, quando na verdade o mercado está mais competitivo do que nunca”.
Abreu concorda: “As meninas acham que já nascem sendo Giseles. E eu sou testemunha de todo o esforço e dedicação que todas essas mulheres tiveram que investir antes de se tornarem estrelas. Elas sacrificaram muito e nunca perderam o foco, algo que não se vê agora. A mais recente modelo brasileira que se destacou foi a Carol Trentini, e eu estou falando do ano 2000, quando a descobrimos”. A própria Gisele, dizem, passou um ano e meio atirada no chão da Elite, em Nova York, esperando lhe oferecerem trabalho.
Faz duas semanas em Irati, um município do Estado de Paraná que poucos conhecem, Turmina confirmou o que a outros caça-talentos como ele começa a saturá-los. Nesta localidade a 600 quilômetros de São Paulo, os vereadores vestem chapéu de xerife, organizam-se rodeios anuais de cavalos e é uma dessas localidades que não têm médicos suficientes para atender seus 56.000 habitantes. Turmina foi ali, onde corre sangue ucraniano e polonês, em busca dos novos rostos que algum dia possam representar ao Brasil no que chama o “mercado A” (Milão, Paris, Nova York e Londres). Mas o que se encontrou foi uma centena de miniaturas de Gisele.

O Brasil é uma máquina de exportar modelos: Taís Araújo, Raica Oliveira, Caroline Ribeiro
“Eram meninas de 11 a 21 anos, e 90% eram clones. Tinham cabelo longo e ondulado, colocavam os braços na cintura como ela e imitavam seu jeito de caminhar, de posar... Eu disse claramente a elas: ‘Vocês estão apagadas, esqueçam a Gisele, eu quero ver vocês’”, conta Turmina na sua agência, em um dos bairros mais ricos de São Paulo. “Salvei uma que não tinha nada a ver com a Gisele.”


Jovens brasileiras aspirantes a modelo. / CORDON
“É inevitável. O mercado está sempre buscando a nova Gisele, as meninas querem ser como ela, e até eu mesmo tenho a esperança de encontrar de novo a nova Gisele”, brinca Dilson Stein, de Horizontina, cidade natal da top mais importante do mundo. Foi Stein quem descobriu Gisele, com apenas 13 anos, quando ela apareceu na sua pequena agência para fazer um curso de modelo. “Gisele não queria desfilar, só queria corrigir a postura, porque era alta demais para a sua idade.”
A maneira como Gisele, que vem de um município de 18.000 habitantes, surgiu, ainda encurvada, em uma agência de modelos de São Paulo reforça a teoria de alguns olheiros: “A menina incrível não vai bater à sua porta. Você tem que ir atrás”. A rede de agentes em um país quase tão grande quanto a Europa é incrível. Olheiros como Turmina, que recebem 200 opções semanais, vão para as portas de escolas e para os shoppings, e viajam pelo país em busca dos rostos da nova geração de tops. Eles deixam o telefone com o cabeleireiro da cidade, com o dono do restaurante ou com o colunista social local, pois nem sempre voltam satisfeitos. Mas uma coisa está clara para eles, diz Turmina: “Eu não procuro uma nova Gisele, procuro uma nova top, alguém que volte a me dar arrepios”.
Não é fácil.




quarta-feira, 29 de abril de 2015

O fim da era Bündchen

Gisele Bündchen

O fim da era Bündchen?

Gisele Bündchen, a ‘übermodel’, despede-se das passarelas depois de 20 anos de carreira



Tudo parece sugerir que se trata de uma dessas despedidas que se repetem muitas vezes antes do adeus final e verdadeiro, mas o fato é que Gisele Bündchen – a modelo mais poderosa do mundo, aübermodel, como costumam chamá-la – fez sua última aparição em uma passarela nesta quarta-feira durante a semana de moda mais importante do Brasil e da América Latina, a São Paulo Fashion Week. A ocasião escolhida foi o desfile da marca brasileira Colcci, que a top representa também em anúncios de revista desde 2005, e, obviamente, na terra que a viu nascer e transformar-se na estrela nacional mais reconhecida mundialmente depois de Pelé.
O evento era às oito e meia da noite em um parque de São Paulo, molhada nesta quarta-feira pela chuva que torna caótico o trânsito já caótico da cidade. Mas nada ameaça a aura de uma passarela por onde caminha Gisele.
Apareceu com um atraso de 45 minutos, típico de uma semana de moda, e sobretudo de um casamento – o derradeiro. Na primeira fila, compartilhando espaço com editores de moda e fashionistas em geral, familiares, amigos e fãs da modelo mudavam um pouco a paisagem característica de um evento assim. Nada que ofuscasse Bündchen, que, como sempre, entrou na passarela com os passos firmes e sensuais que a caracterizam desde sua estreia no mundo da moda em 1994, aos 14 anos.
A menina, inegavelmente, cresceu: de uma estreia duramente criticada (diziam que tinha o nariz muito grande e que ostentava seios muito fartos para o que se via nas passarelas naquela época), conseguiu seu gran finale 20 anos depois, aos 34, com o corpo e o caminhar mais invejados do planeta fashion – e do planeta em geral. Representações perfeitas, dizem, de um estilo de vida solar e saudável – longe do que propunha a moda nos anos 1990, tempos deheroin chic – e que a levaram a ocupar por oito vezes consecutivas o posto de modelo mais bem paga do mundo. Sua fortuna, calcula a revista Forbes, é de 247 milhões de dólares (47 deles ganhos em 2014).


Top dá adeus às passarelas. / ANDRE PENNER (AP)
Na passarela da Colcci, as propostas para o Verão 2016 lhe caíram como uma luva. Gisele abriu e fechou o desfile, que durou 20 minutos e contou com modelos novas e de postura muito menos segura, que talvez sonhem em seguir – nas passarelas e fora delas – os passos da colega übervitoriosa. Afinal, Bündchen é casada com o jogador de futebol americano Tom Brady, do New England Patriots, é mãe de dois filhos (que não estavam na plateia) e tem 20 empresas em seu nome, entre elas uma marca de lingerie (Gisele Bündchen Intimates) para a qual também desenha.
Por que despedir-se das passarelas? “Meu corpo me pediu para parar”, disse à Folha de S.Paulo, em uma das poucas entrevistas concedidas para falar de seu adeus. Se pediu, foi em segredo, porque ninguém mais parece ter notado. No Instagram, a top deixou sua mensagem em uma camiseta que vestiu para a despedida: “The best is yet to come” (o melhor está por vir). Top models brasileiras de sua geração desfilaram com camisetas iguais. Não alcançaram toda a fama e a riqueza de Gisele, mas prestaram a ela uma homenagem exibindo suas fotos no peito para o encerramento do desfile da Colcci. Lágrimas correram pelo rosto dos presentes e até daübermodel, que estava feliz de agora poder selecionar – ainda mais – os projetos aos quais se dedica. Conversando com a Folha, confessou que não descarta “apresentações especiais”.


O pai do modelo aplaude a sua filha, acompanhado deTom Brady, marido da modelo. /ANDRE PENNER (AP)
Seus planos futuros incluem uma possível participação em uma telenovela brasileira cujo título provisório é Poderosa, além de continuar emprestando o rosto a um mix de anúncios conceituais e comerciais de empresas variadas, como Chanel, H&M, Procter&Gamble e Carolina Herrera. Enquanto isso, profissionais da moda brasileira falam sobre “o fim de uma era” e “uma entidade iluminada que desce a este planeta para trazer um pouco de beleza”. Em seu site, Gloria Kalil, a maior consultora de moda do país, comparou-a com Pelé, que ameaçou deixar o futebol em 1974, mas continuou jogando por mais três anos – ao longo dos quais cada partida era sua última. “Fica, Gisele”, escreve. “Você pula mais alto”, assim como Pelé quando disputava uma bola.



segunda-feira, 27 de abril de 2015

Vargas Llosa / Se a palavra é substituída pela imagem, a imaginação corre perigo

Mario Vargas Llosa


“Se a palavra é substituída pela imagem, a imaginação corre perigo”

Em diálogo com o diretor de EL PAÍS, Vargas Llosa adverte sobre os riscos da cultura digital

    “Se o mundo continuar o processo no qual a palavra escrita está sendo substituída pela imagem e pelo audiovisual, corremos o risco de que desapareça a liberdade, a capacidade de refletir e imaginar, além de outras instituições como a democracia”, advertiu no sábado Mario Vargas Llosa em diálogo com Antonio Caño, diretor do EL PAÍS, durante o I Fórum Internacional do Espanhol 2.0, realizado na Ifema.
    Perante 300 pessoas, muitos deles jovens, Caño perguntou ao prêmio Nobel peruano se concordava com o prognóstico do desaparecimento do jornal tradicional e dos livros impressos. O escritor disse que é uma possibilidade, mas não acredita nisso. Se acontecer, insistiu, o resultado seria trágico sobretudo para a cultura da liberdade: “Seria o pesadelo de Orwell, de uma sociedade transformada em robôs, onde tudo é organizado por poderes invisíveis”. Embora não acredite que isso possa acontecer porque está convencido de que sempre haverá gente suficiente para ler livros e jornais em papel. Seu temor é que a cultura da tela seja cada vez mais puro entretenimento e “isso aboliria o espírito crítico”.
    Faz esta advertência ao considerar que a palavra lida, a linguagem comunicada de maneira impressa, tem um efeito no cérebro que completa e complementa o que é lido. Por outro lado, o autor de Conversa na Catedral, afirmou que “as imagens não produzem o mesmo mecanismo de transformação da maneira que as palavras, ao serem lidas, criam imagens. Na leitura há um esforço criativo e intelectual que quase é eliminado com o visual”.
    O autor de A Guerra do Fim do Mundo defende a criação de mecanismos para que isto não aconteça: “Porque pode acontecer um retrocesso para a barbárie; um mundo sem liberdade, manipulado a partir dos poderes, tendo a tecnologia a seu favor”. O escritor deixou claro que é partidário da tecnologia, à qual agradece muitas coisas, e vê outras muito positivas, como o acesso à cultura.

    Vargas Llosa: “Já tenho o título: ‘Cinco esquinas’”

    JUAN CRUZ
    Mario Vargas Llosa, que alguns de seus amigos chamavam de Varguitas e ganhava a vida no colégio militar Leoncio Prado escrevendo histórias picantes para ganhar uns trocados, continua sendo aquele adolescente cujo amor pela literatura o faz viver cada episódio de sua vida com as letras em um acontecimento digno de alvoroço. Acaba de voltar de Lima, onde viveu nos últimos meses depois de sua arriscada aventura como ator de teatro, e antes de ir à Ifema falar com o diretor de EL PAÍS, encontrou-se em sua casa com sua editora, Pilar Reyes, da Alfaguara. Enquanto a abraçava, falou com aquele alvoroço adolescente de Varguitas:
    - Já tenho o título! Vai se chamar Cinco Esquinas!
    É o autor de títulos que chegaram a se tornar frases comuns, como A Cidade e os CãesA Guerra do Fim do Mundo e A Festa do Bode, todos eles escolhidos assim que começou a escrever, pois ter o título desde o princípio serve como guia para a escrita, confessou depois a Caño. Já este último, Cinco Esquinas, ofereceu resistência, um dos mais difíceis, até que a solução veio na noite anterior, ao chegar a Madri, sua segunda residência na Terra depois de Lima. Um título, disse, organiza tudo, coloca em circulação sua mão para continuar com as incontáveis correções que faz nos sucessivos rascunhos de seus manuscritos. Sempre, como aconteceu com O Paraíso na Outra Esquina, esses títulos resistem a aparecer; “e sobretudo nesta ocasião: vou começar com o segundo rascunho e já tenho um título”. Como uma criança, o escritor de 79 anos oferecia a sua editora esse furo como um presente que mais tarde compartilharia com a audiência do Fórum do Espanhol.
    Cinco Esquinas se passa em Lima, no bairro de mesmo nome, que já foi elegante embora agora esteja em decadência. Lima volta a ser o cenário, como nos principais romances de sua primeira etapa. E essa Lima lhe deu outra vez a realidade que o autor de A Verdade das Mentiras está transformando no romance cujo título acaba de escolher em Madri e que no sábado revelou como quem envia a um editor o envelope de seu primeiro manuscrito.
    Em relação ao entusiasmo vivido hoje pelas séries de televisão que alguns homologam a função que desempenha a literatura, o criador de A Festa do Bode acha que são produtos bons e são divertidos, mas “totalmente efêmeros”. Por isso considera importante defender o livro, “a leitura não só entretém, mas produz um efeito mais profundo, cria cidadãos mais responsáveis e críticos, e contribui para um mundo melhor”.
    Realidades, utopias e distopias à qual chegaram Vargas Llosa e Caño meia hora depois de uma conversa nascida sob o título de A linguagem e o jornalismo. E linguagem é a palavra que une esses dois ofícios. Os dois estão feitos do mesmo material, mas sua missão e destino são diferentes. Mostram as duas caras da natureza da linguagem: paixão, imaginação e nenhum limite na literatura e na razão, realidade e leis claras no jornalismo. É verdade que as duas dividem fronteiras, às vezes movediças. “O jornalismo tem uma linguagem mais impessoal a serviço de um objetivo que é comunicar, sem renunciar à criatividade. A literatura tem uma linguagem mais visível, mais criativa”, opinou Vargas Llosa minutos antes de dialogar com Antonio Caño. Para o diretor do EL PAÍS, trata-se de duas artes que “nem sempre são bons sócios. E funciona se a literatura consegue imprimir no jornalista a capacidade de transmitir ideias e contar melhor os fatos”.
    Vargas Llosa tinha quinze anos quando começou no jornalismo. Foi no verão entre o penúltimo e último ano do colégio. Pensou que poderia ser sua profissão complementar à vocação de escritor. Pediu a seu pai e este o ajudou a conseguir um trabalho no jornal La Crónica de Lima. Desde então, o jornalismo foi seu companheiro. Mais ainda, falou, “essas lembranças serviam depois como matéria-prima para alguns de meus romances. Sem o jornalismo não existiria boa parte dos meus livros”.
    Diz um autor que passou por quase todos os gêneros e seções jornalísticas. Escreveu sobre literatura, e sobre o Congo ou o Iraque. Sempre soube a “interessante e maravilhosa” relação entre jornalismo e literatura. Recordou os casos em que o jornalismo foi feito por grandes escritores. “O jornalismo deve comunicar e deve levar ao leitor ao que quer transmitir, sua linguagem não deve ser uma barreira entre quem escreve e lê; deve ter grande precisão, buscar a invisibilidade da linguagem de tal maneira que a matéria pareça autossuficiente. Há jornalistas que escrevem mal ou bem e outros muito bem, e alguns são esplêndidos escritores e jornalistas.” Clareza, objetividade e não se contaminar com a linguagem da área que se cobre são as recomendações de Caño.
    A confluência do analógico e digital preocupa Vargas Llosa no sentido de que está se perdendo a hierarquização da informação e aumenta a vulgarização da linguagem. “Há uma razão para estarmos satisfeitos com a tecnologia”, disse Caño, “é o de ser um mundo onde todos contam, se comunicam de maneira permanente. O jornalismo é hoje uma grande conversa onde os jornalistas são mais um.”
    E da Linguagem e o jornalismo, o fórum tem como convidados neste domingo às 11:30 a filóloga e acadêmica Inés Fernández Ordóñez, o escritor Juan José Millás e o jornalista Álex Grijelmo para falar de A ética e a palavra.

    EL PAÍS




    PESSOA

    sexta-feira, 24 de abril de 2015

    A era da explosão ‘seriéfila’


    A era da explosão ‘seriéfila’

    Número de novas ficções televisivas produzidas nos EUA aumenta a cada ano


      Los Soprano
      Imagem promocional de 'Os Sopranos'.
      Em 1999 começava na HBO a série que mudou tudo: Os Sopranos. Naquele ano, os canais a cabo norte-americanos estrearam 23 novas séries. Somente 15 anos depois, em 2014, 180 ficções televisivas estrearam nos canais a cabo dos Estados Unidos. Essa cifra aumenta com as produções dos canais abertos e as geradas pelos novos participantes que estão entrando nessa jogada (Netflix, Amazon, Hulu...). A indústria da produção de séries vive seu momento áureo na conhecida como terceira idade dourada da televisão. Essa explosão seriéfila levou muitos a perguntarem-se se estamos vivendo dentro de uma bolha que acabará estourando com uma brecada na produção e até mesmo se tal quantidade de ficção televisiva pode ser consumida pelos espectadores.
      A indústria americana de séries está vivendo sua própria revolução. Seu principal desafio está em adaptar-se às novas formas de fazer negócio e redefinir os conceitos de sucesso e fracasso”, explica Miguel Salvat, diretor do Canal+. O fato de existirem cada vez mais canais e plataformas que se lancem à produção própria de ficção televisiva é um dos motivos desta erupção de séries. “Todos os anos chegam muitas produções novas e depois a seleção natural vai decidindo quais sobrevivem. Uma mescla de qualidade e audiência decide o futuro das séries. O senso comum termina recolocando tudo”, argumenta Belén Frías, diretora de comunicação da Fox International Channels Europa.
      O boom das séries coincidiu com a mudança no modelo de consumo por parte dos espectadores. Querem escolher o que veem, como veem e quando veem. “Quando este crescimento exponencial de títulos e o consumo por escolha de séries ocorrem ao mesmo tempo, os produtores devem reformular a maneira como ganhar dinheiro com o conteúdo”, acrescenta Salvat, que vê no consumo sob demanda “algo novo que só tende a crescer”.
      O aumento da oferta quantitativa de séries provocou uma fragmentação maior da audiência. Existem séries para todos: para os fãs de super-heróis, das comédias românticas, das histórias policiais, dos zumbis, das novelas... “O fato de existirem tantas séries significa que existe demanda para elas. Temos um mercado de nichos, muito fragmentados, que permite a existência de produtos com pouca audiência em quantidade, mas muito certeiros em qualidade para esse público”, explica Alberto N. García, professor de Comunicação Audiovisual na Universidade de Navarra. “A concorrência é boa, estimula a inovação constante e incita a melhorar. Estou convencido de que é uma das causas, junto com outras industriais, tecnológicas e estéticas, do boom que a ficção televisiva viveu nos últimos 15 anos”, acrescenta. Belén Frías insiste nessa mesma linha, “existe muito produto televisivo, mas também diversos tipos de telespectador”.
      Com o vendaval de títulos que chegam dos Estados Unidos a cada temporada, os espectadores se veem obrigados a escolher. “Há uma década, se retirássemos a programação habitual e as comédias tradicionais ainda era possível consumir toda a televisão de qualidade. Agora a lista deixou de ser manejável”, diz Alberto N. García. Marina Such, autora do blog sobre séries O Diário de Mr. MacGuffin, tem a mesma opinião: “Um crítico norte-americano dizia que esta bolha seriéfila equipararia o interesse pelas séries ao mercado de livros. É impossível ler todos os livros bons que são editados, e será cada vez mais complicado que todos vejam as mesmas séries, mas isso também pode beneficiar a conversa sobre elas”.

      Com mais séries, maiores as possibilidades de encontrar joias entre elas. Mesmo que os tempos de Os SopranosThe Wire e A Sete Palmos sejam águas passadas, as séries de hoje são herdeiras diretas daquelas que abriram caminho a esta idade dourada da televisão. “Creio que exista a percepção errônea de que já não são feitas tantas séries excelentes. Temo que seja uma percepção errônea porque existem séries cuja grandeza não é descoberta pela elite cultural até que estejam no fim. Quanta gente viu The Wire com devoção em 2006, quando já haviam sido exibidas três temporadas estupendas? Talvez agora essas grandes séries que serão história dentro de uma década estejam em sua segunda ou terceira temporada, crescendo em complexidade e ambição, como The Americans ou Rectify, diz Alberto N. García.

      A multiplicação da oferta implica em uma audiência mais fragmentada
      “Na minha opinião, a qualidade média é superior hoje do que há 25 anos. A proporção se mantém quando falamos de obras destacadas. E, de vez e quando, aparece algo extraordinário”, argumenta a especialista em séries Isabel Vázquez, que também destaca como consequência negativa do boom seriéfilo a repetição de esquemas e fórmulas narrativas: “a transgressão se transformou em norma”.
      O público de séries se tornou cada vez mais exigente. Já não vale qualquer coisa. “Têm mais liberdade de escolha, mas também são mais fanáticos e melhor informados sobres seus títulos favoritos”, diz Miguel Salvat. E cada vez mais o vício nas séries aumenta. “O público consome muito mais cultura audiovisual de qualidade do que há alguns anos. Como qualquer vício, entretanto, tem seus riscos: transformar a experiência de assistir em uma competição, esquecer de fazer algumas coisas ou até brigar com o companheiro ou companheira por ver um capítulo sem esperar que o outro chegue em casa”, comenta Diana López, co-roteirista do documentário A Bolha Catódica, que o Canal+ exibirá em algumas semanas.
      Bolha ou não, o boom seriéfilo não parece ainda ter chegado em seu auge. Enquanto as séries norte-americanas são vistas em todo o mundo, outros países também decidiram apostar em séries mais complexas que, por sua vez, também alimentam o mercado americano com adaptações e remakes. Aí estão The BridgeBorgen,Les Revenants e muitos outros títulos britânicos. Não vai ser fácil parar o que Tony Soprano começou.