segunda-feira, 30 de março de 2015

Robin Wright / Estou cansada de segurar a língua


PROTAGONISTA DE 'HOUSE OF CARDS' 

Robin Wright: 

“Estou cansada de segurar a língua”



Após romper com o passado, atriz é uma mulher segura que triunfa no amor e na carreira


    Robin Wright
    Robin Wright, em uma entrevista coletiva em janeiro. / MUNAWAR HOSAIN (CORDON PRESS)r
    “Trabalho nesta indústria há 30 anos e estou cansada de segurar a língua”. Assim Robin Wright começa a entrevista com o EL PAÍS. Veste Ralph Lauren dos pés à cabeça, marca em que se diz viciada desde que lhe mandaram “uma sacola cheia de roupas” com as que evita andar o dia todo de jeans e tênis. A nova dama de ferro da televisão norte-americana deixa claro desde o primeiro minuto que vem pisando em forte. Fala do trabalho, da carreira, do sucesso profissional na televisão – em 2014 ganhou um Globo de Ouro pelo papel de Claire Underwood em House of Cards –, onde começou antes de dedicar-se ao cinema, e de suas primeiras tentativas como diretora em uma indústria dominada por homens. Está certa de que chegou seu momento de brilhar com luz própria. “Tive filhos muito cedo e nesta indústria tudo são aparências. Você precisa saber quem você é”, afirma agora com total segurança.

    A atriz premiada com o Globo de Ouro de melhor atriz de televisão no ano passado, junto a seu companheiro, Ben Foster / CORDON PRESS
    Também fala de amor, de sexo, de encontrar-se às portas dos 50 e sentir-se mais desejada que nunca. Por seu companheiro, o ator Ben Foster (quase 15 anos mais novo), pela indústria e pelo público. “Suponho que cresci tarde. Levei tempo. Mas agora estou preparada”, acrescenta.
    Esperta e sem papas na língua, ultimamente solta tudo. O único assunto de que não fala é seu ex-marido, Sean Penn, o homem junto ao qual passou quase 19 anos entre casamentos, separações, reconciliações e divórcios e com quem teve dois filhos, Dylan e Hopper, agora adolescentes e fazendo sua própria vida fora de casa. Como diz na revista Vanity Fair, que dedica a ela sua capa no número de abril, respeita muito Penn e seus filhos “extraordinários” e por isso não se presta a vender “felicidades e penúrias passadas” para consumo do público. Com o resto de sua vida, fala sem restrições. Se na revista reconhece que nunca tinha sido tão feliz, que nunca riu tanto e que nunca tinha tido tantos orgasmos, agora acrescenta, como quem não quer nada, que beijar seu novo amor “é minha comida favorita”.


    A princesa Buttercup que precisava ser resgatada em A Princesa Prometida, a jovem à sombra de Forrest Gump em todas as suas andanças, a esposa e mãe eclipsada por esse furacão chamado Sean Penn, nunca tinha brilhado tanto. Demorou três décadas para chegar a este ponto. Agora seu sobrenome já não precisa apoiar-se no de seu ex-marido, como fez durante anos (quando mudou seu nome para Wright-Penn). A única coisa de que não gosta nesta transição é a gravidade. Refere-se à força terrestre que faz com que, na sua idade, suas carnes se pendurem mais do que gostaria. Algo incrível tendo em conta o corpo que mostra como primeira dama em House of Cards, série em que usa vestidos sóbrios e justos, saias tubo, saltos agulha e uma infinidade de malhas para correr. “É uma armadura”, confessa, um estilo desenhado por Kemal Harris, seu estilista, e que exige uma boa cinta, mais incômoda que um espartilho. “Não sei quem poderia pensar em vestir algo assim diariamente”, queixa-se, apesar da invejada silhueta que lhe proporciona na tela.

    Robin Wright, en un capítulo de 'House of cards'Robin Wright, como Claire Underwood, em ‘House of cards’. / CORDON PRESS
    Perguntada sobre seu cuidado pessoal, prefere desconversar. “Você quer mesmo saber todos meus conselhos de beleza? Contar com uma boa equipe de maquiadores! Eu, nem me visto”, diz. Sua única recomendação é a meditação, que pratica quase todos os dias por 15 minutos desde que tinha 16 anos. E ter a seu lado um homem chamado Ben Foster: “Ele me iniciou na meditação transcendental, que faz desde os quatro anos de idade”.

    Sean Penn e Robin Wright, com seus filhos Dylan e Hopper, na estreia do filme ‘I am Sam’, em 2001. / CORDON PRESS
    Foster ocupa o centro desta nova mulher, nascida no Texas há 48 anos, que rompeu com seu passado. Uma relação que nasceu como todas as relações da atriz. Conheceu seu primeiro marido, Dane Witherspoon, quando rodavam a série Santa Barbara. Ficaram juntos dois anos. Conheceu Penn, na filmagem de Um Tiro de Misericórdia (1990), e além de sua amante e esposa, foi sua musa para seus primeiros filmes como diretor. Cruzou com Foster na filmagem deRampart, mas, desta vez, não carregava mais o rótulo de “mulher de” e foi ele que assumiu o papel de “namorado de”. Disso sim, ela fala a todo momento. “Gosto de tudo nele”, diz de um ator e produtor que Wright sente “na medula” que é o homem de sua vida.
    As coisas não são tão fáceis como sua euforia parece refletir. Apesar de seus anéis de compromisso e de suas tatuagens (um R no anular de Ben, um B no mesmo dedo da mão de Robin), no final de 2014 os dois terminaram a relação em que estavam desde 2011. Mas agora voltaram a desfilar juntos nos tapetes vermelhos. “Vai passar logo” é seu lema. “É a melhor parte do crescimento, você deixa de se preocupar com coisas pequenas”.



    domingo, 29 de março de 2015

    Vargas Llosa / A piedade dos morcegos

    Mario Vargas Llosa

    A piedade dos morcegos

    Em sua última obra, Tom Stoppard nos confronta com um tremendo dilema de decidir se os valores resultam de uma fatídica operação química neurológica do cérebro, ou se por trás de tudo há um agir deliberado


    FERNANDO VICENTE
    Você sabia que os morcegos que saem para caçar à noite voltam à gruta com a boca cheia de um sangrento alimento para dar de comer a seus congêneres incapazes de se valerem por si mesmos? Pergunte-se então, depois de ficar sabendo desse fato objetivo, se tal conduta desses roedores voadores, silenciosos e cegos poderia ser chamada de “consciência” ou “piedade” e ser, portanto, algo equivalente ao que faz em As Vinhas da Ira, de John Steinbeck, a personagem apelidada como Rose of Sharon, que amamenta com o leite de seu filho (que nasceu morto) um ancião agonizante. Esse é o dilema que se coloca e coloca para nós, os espectadores – The Hard Problem –, a simpática e inteligente Hilary, personagem principal da última peça de Tom Stoppard, que acaba de estrear no National Theatre, de Londres.
    Talvez Stoppard, provavelmente o mais original e ousado dramaturgo moderno, seja o único autor contemporâneo capaz de levar ao palco uma história com uma temática que combina a neurobiologia, a química, a psicologia e a teologia, além de manter os espectadores durante uma hora e 45 minutos imóveis em suas cadeiras, estupefatos e enfeitiçados, enquanto, sem compreender totalmente o que está acontecendo, seguem as peripécias intelectuais e morais que vive a indócil Hilary durante a preparação de sua tese de doutorado no Instituto Krohl. Ela está rodeada de cientistas descrentes que, como seu orientador Spike, zombam de sua fé e de suas orações antes de dormir e creem, grosso modo, que a chamada consciência humana não constitui uma dimensão espiritual independente do corpo, e sim que não é nada mais – e nada menos – do que um produto resultante dos cruzamentos, descruzamentos, conformações e até confusões dos cem bilhões, aproximadamente, de neurônios que formam o cérebro humano.
    A obra não pretende nos educar, propondo uma solução materialistaou idealista à indagação que tira o sono das noites de Hilary; ela simplesmente, depois de nos apresentar as razões e provas que os partidários das duas teses esgrimem, nos abandona na encruzilhada para decidirmos por nossa conta se optamos, como Hilary, por acreditar que o humano não se esgota no físico, e sim que consta também de uma dimensão não física – alma, espírito, consciência ou como se queira chamá-la –, ou, então, se optamos por alguma das sutis e complicadas fórmulas dos sábios ou sofistas que sustentam o oposto, ou seja, que somos apenas o que temos no corpo. O grande mérito da obra de Stoppard é mostrar que não existe uma resposta racional e objetiva para The Hard Problem:que, qualquer que seja a solução pela qual optemos, será sempre não uma fórmula lógica irrefutável, mas sim um ato de fé. Como se Deus existe ou não, se existe outra vida além desta, e se uma religião verdadeira prevalece entre as existentes ou são todas falsas. Nada disso poderá ser provado cientificamente, como pensam os arrogantes pesquisadores microbiológicos do Instituto Krohl, e, portanto, o debate não terminará nunca e continuará perturbando a espécie humana para sempre.

    Sempre admirei nele seu desprezo pela facilidade e pelas modas e a insolência com que sempre escreveu as histórias que eram importantes para ele
    Em algumas das críticas que The Hard Problem recebeu, pergunta-se se não acaba sendo temerário colocar no palco uma problemática tão abstrata e distante dos conflitos cotidianos que costumam divertir, intrigar ou comover os espectadores. Claro que têm razão. A obra não é nada fácil, exige um grande esforço de concentração para não se extraviar entre os raciocínios, referências científicas ou delirantes sofismas que, disfarçados com uma pretensiosa retórica acadêmica, chovem sobre a valente Hilary. Mas o teatro de Stoppard não foi sempre assim, escorregadio e exigente? Desde que vi, nos anos sessenta londrinos, sua maravilhosa Rosencrantz and Guildenstern Are Dead, até a última, Rock’nRoll, sempre admirei nele seu desprezo pela facilidade e pelas modas e a insolência com que sempre escreveu as histórias que eram importantes para ele, algumas tão delirantes como as dos filósofos acrobatas deJumpersou do ancião arteriosclerótico de Travesties que, entre as remelas da sua memória, tenta lembrar se naquela Zurique onde foi empregado do consulado britânico alguma vez chegou a esbarrar nos três ilustres exilados que coincidiram com ele naquela cidade: Joyce,Lênin e Tristan Tzara.
    Seu grande mérito é ter conseguido que esse seu teatro de assuntos complexos e difíceis – um teatro de ideias nestes tempos de frenética frivolidade! – tenha chegado a conquistar um vasto público, subornando-o graças a seu humor centro-europeu e ao mesmo tempo britânico (uma herança de seus ascendentes checos), no qual há ironia, sarcasmo, grandiloquência, delírio e, sempre, uma ternura compassiva para com todas as extravagâncias e excessos dos bípedes humanos. Em The Hard Problem o humor está muito menos presente que em outras peças, e talvez por isso ela vença com menos facilidade as resistências de um público acostumado a ir ao teatro só para espairecer e se divertir, não para embrulhar o cérebro com perguntas sobre se isto que estamos vivendo aqui é nossa única vida, e se somos um mero produto das casualidades astrais ou filhos de uma criação transcendental, do capricho ou da sabedoria ininteligível de uma divindade arbitrária, o que indicaria que existe outra vida, mais esquiva e permanente, e muito mais difícil de imaginar do que esta que vai escapando das nossas mãos a cada dia.

    Seu grande mérito é ter conseguido que esse seu teatro de assuntos complexos tenha chegado a um vasto público
    Por que saímos desta última obra de Stoppard incomodados e até angustiados? Os atores são magníficos, a montagem está impecável, e o que acontece no palco é inquietante. Talvez por este último. Não estamos acostumados a obras de teatro – ou romances – que nos imponham a responsabilidade de ter a última palavra, de decidir qual é a conclusão daquilo que acabamos de ler ou ver representado e, sobretudo, no caso de The Hard Problem, enfrentar o tremendo dilema de decidir se os valores, a generosidade, a bondade, o amor e a amizade que existem em nós, ou se a maldade, o egoísmo, a mesquinharia, o rancoroso e o perverso que também nos habitam, resultam de uma fatídica operação química neurológica de nosso cérebro, ou se por trás de tudo isso existe aquilo que os existencialistas chamavam de escolha, um agir deliberado, decidido por uma consciência não condicionada biologicamente, que é livre e, por isso, nos torna responsáveis por aquilo que fazemos ou deixamos de fazer.
    A noite está fria em Londres depois do teatro, mas não chove, e é agradável caminhar às margens do Tâmisa, vendo as luzes e as pessoas animadas nas mesas das calçadas e a multidão de jovens que saem da cinemateca onde está acontecendo um festival de filmes escandinavos. Somos, quando agimos de uma maneira nobre e desinteressada, idênticos aos repelentes morcegos cujo instinto de sobrevivência da espécie incita a levar sangue na boca a seus congêneres inválidos? Ou existe, na Rose of Sharon inventada por John Steinbeck, que dá de mamar de seus peitos ao velho faminto, algo além de um processo químico biológico que faria dela uma autômata, um robô que imita a caridade? É algo impossível de averiguar, é algo que devemos decidir e atuar de forma consequente. Pois o que está em jogo, no fundo desse duro problema, não é se Deus existe ou não, mas se somos livres ou não. Se os cem milhões de neurônios que, pelo visto, vibram em nosso cérebro decidem nossos afetos e defeitos, nossas virtudes e vícios, não somos livres; aparentamos uma liberdade que não temos, pois nossa conduta está dirigida fatidicamente por aqueles microscópicos organismos que pululam por nosso corpo. Não nos convém que seja assim, mesmo que seja. A liberdade, embora às vezes pareça apenas uma mímica nossa, termina por se emancipar de toda forma de behaviorismo e, embora dito desta forma acabe sendo uma cacofonia, praticá-la nos torna livres. A longa história da humanidade não seria, por acaso, uma teimosa luta para escapar desses condicionamentos físicos, naturais, nos quais ficaram presos os animais e dos quais nós, seres humanos, fomos nos liberando depois de inumeráveis aventuras, quedas e reerguimentos? Como todas as boas obras de teatro, The Hard Problem, de Tom Stoppard, começa realmente só depois que o espetáculo termina.

    EL PAÍS




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    sábado, 28 de março de 2015

    Vargas Llosa / O haraquiri

    Chávez / Maduro

    Mario Vargas Llosa

    O haraquiri

    Os cavalheiros japoneses já não se suicidam. Mas o ritual da imolação se mantém no mundo e agora é coletivo. É praticado por países como Argentina e Venezuela, e agora se aproxima da Grécia


    FERNANDO VICENTE
    O haraquiri é uma nobre tradição japonesa pela qual militares, políticos, empresários e às vezes escritores (como Yukio Mishima), envergonhados por fracassos ou atos que, acreditavam, os desonravam, desventravam-se em uma cerimônia sangrenta. Nestes tempos, em que a ideia da honra foi reduzida ao mínimo, os cavalheiros japoneses já não se suicidam. Mas o ritual da imolação se mantém no mundo e agora é coletivo: é praticado pelos países que, tomados por um desvario passageiro ou duradouro, decidem empobrecer-se, barbarizar-se, corromper-se, ou todas essas coisas ao mesmo tempo.
    A América Latina está repleta de tais exemplos trágicos. O mais notável é o da Argentina, que há três quartos de século era um país do Primeiro Mundo, próspero, culto, aberto, com um sistema educacional modelar e que, subitamente, tomada pela febre peronista, decidiu retroceder e se arruinar, uma longa agonia que, sustentada por sucessivos golpes militares e uma homérica persistência no erro de seus eleitores, ainda se mantém. Esperemos que algum dia os deuses ou o acaso devolvam a sensatez e a lucidez à terra de Sarmiento e Borges.
    Outro caso emblemático de haraquiri político é o da Venezuela. Tinha uma democracia imperfeita, é certo, mas real, com imprensa livre, eleições legítimas, partidos políticos diversos, e, mal e mal, o país progredia. Lamentavelmente, abundavam a corrupção e o desperdício, e isso levou a maioria dos venezuelanos a descrer da democracia e confiar sua sorte a um caudilho messiânico: o comandante Hugo Chávez. Tiveram oito vezes a chance de corrigir seu erro, mas não o fizeram, votando de novo e de novo em um regime que os conduzia ao precipício. Hoje pagam caro por sua cegueira. A ditadura é uma realidade asfixiante, fechou emissoras de televisão, rádios e jornais, encheu as prisões de dissidentes, multiplicou a corrupção a extremos vertiginosos – um dos principais dirigentes militares do regime comanda o narcotráfico, o único setor que floresce num país no qual a economia afundou e a pobreza triplicou —, e as instituições, dos juízes ao Conselho Nacional Eleitoral, servem ao poder. Apesar de haver uma significativa maioria dos venezuelanos que quer voltar à liberdade, não será fácil: o Governo de Maduro demonstrou que, embora inepto para tudo mais, na hora de fraudar eleições e de encarcerar, torturar e assassinar opositores suas mãos não tremem.

    Syriza promete um milagre equivalente a curar um doente terminal fazendo-o correr maratonas
    O haraquiri não é uma especialidade terceiro-mundista; também a civilizada Europa o pratica, de tempos em tempos. Hitler e Mussolini chegaram ao poder por vias legais, e bom número de países centro-europeus se jogou nos braços de Stálin sem grandes escrúpulos. O caso mais recente parece ser o da Grécia, que, em eleições livres, acaba de levar ao poder – com 36% dos votos – o Syriza, um partido demagógico e populista de extrema-esquerda, que se aliou para governar com uma pequena organização de direita ultranacionalista e antieuropeia. O Syriza prometeu aos gregos uma revolução e o paraíso. No catastrófico estado em que se encontra o país que foi o berço da democracia e da cultura ocidental, talvez seja compreensível essa catarse sombria do eleitorado grego. Só que, em vez de superar as pragas que o assolam, elas poderão recrudescer agora se o novo Governo se empenhar em pôr em prática o que ofereceu a seus eleitores.
    Tais pragas são uma dívida pública vertiginosa, de 317 bilhões de euros [mais de um trilhão de reais] com a União Europeia e com o sistema financeiro internacional, que resgataram a Grécia de sua quebra, e equivale a 175% do produto interno bruto. Desde o início da crise o PIB da Grécia caiu 25%, e a taxa de desemprego chegou a quase 26%. Isso significa o colapso dos serviços públicos, uma queda atroz do nível de vida e um crescimento canceroso da pobreza. Se for para ouvir os dirigentes do Syriza e seu inspirado líder – o novo primeiro-ministro Alexis Tsipras –, essa situação não se deve à incapacidade e à corrupção desenfreada dos governos gregos ao longo de várias décadas, que, com irresponsabilidade delirante, chegaram a apresentar balanços e relatórios econômicos forjados à União Europeia para esconder seus erros, e sim às medidas de austeridade impostas pelos organismos internacionais e pela Europa à Grécia, para resgatá-la do desamparo a que as más políticas a haviam conduzido.
    O Syriza propôs acabar com a austeridade e com as privatizações, renegociar o pagamento da dívida, com a condição de que houvesse uma “quitação” (ou perdão) relevante, e reativar a economia, o emprego e os serviços, com investimentos públicos sustentados. Um milagre equivalente a curar um doente terminal fazendo-o correr maratonas. Dessa maneira o povo grego recuperaria uma “soberania” que lhe teria sido tomada, ao que parece, pela Europa em geral, e em particular pela troika e pelo Governo da senhora Merkel.

    A Alemanha precisou absorver e ressuscitar um cadáver – a Alemanha comunista – à custa, também, de formidáveis esforços
    O melhor que pode acontecer é que essas bravatas da campanha eleitoral sejam arquivadas agora que o Syriza já tem responsabilidades de Governo e, como fez François Hollande na França, reconheça que prometeu coisas mentirosas e impossíveis e retifique seu programa com espírito pragmático, o que, sem dúvida, provocará uma decepção terrível entre seus ingênuos eleitores. Se não o fizer, a Grécia encara a bancarrota, o abandono do euro e da União Europeia e o mergulho no subdesenvolvimento. Há sinais contraditórios, e não está claro ainda se o novo Governo grego recuará. Acaba de propor, no lugar do perdão, uma fórmula picaresca e enganosa, que consiste em converter sua dívida em duas classes de títulos, alguns reais, que seriam pagos à medida que sua economia crescesse, e outros fantasmas, que seriam renovados ao longo da eternidade. França e Itália, vítimas também de graves problemas econômicos, manifestaram não ver com maus olhos tal proposta. Ela não prosperará, sem dúvida, porque nem todos os países europeus perderam a noção de realidade.
    Em primeiro lugar, e com muita razão, vários membros da União Europeia, além da Alemanha, lembraram à Grécia que não aceitam “quitações”, explícitas ou disfarçadas, e que os países precisam cumprir seus compromissos. Os mais severos a esse respeito foram Portugal, Espanha e Irlanda, que, depois de grandes sacrifícios, estão saindo da crise depois de cumprir rigorosamente com suas obrigações. A Grécia deve à Espanha 26 bilhões de euros [81,9 bilhões de reais]. A recuperação espanhola custou sangue, suor e lágrimas. Por que teriam os espanhóis que pagar do seu bolso as más políticas dos governos gregos, além de já pagarem pelas dos seus?
    A Alemanha não é culpada de que um bom número de países da Europa comunitária tenha sua economia transformada em ruínas. A Alemanha teve governos prudentes e competentes, austeros e honrados, e por isso, enquanto outros países se desmanchavam, ela crescia e se fortalecia. E não se pode esquecer que a Alemanha precisou absorver e ressuscitar um cadáver – a Alemanha comunista – à custa, também, de formidáveis esforços, sem se queixar nem pedir ajuda a ninguém, apenas com o empenho e o estoicismo de seus cidadãos. Por outro lado, o Governo alemão da senhora Merkel é um europeísta determinado, e a melhor prova disso é a maneira generosa e constante com que apoia, com seus recursos e suas iniciativas, a construção europeia. Apenas a proliferação dos estereótipos e mitos ideológicos explica esse fenômeno de transferência freudiana que leva a Grécia (não é a única) a culpar o mais eficiente país da União Europeia pelos desastres provocados pelos políticos que durante tantos anos o povo grego enviou ao Governo com seus votos e que o deixaram no pavoroso estado em que se encontra.

    EL PAÍS




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    sexta-feira, 27 de março de 2015

    Urariano Mota / O escritor Mario Vargas Llosa e sua tia Júlia


    Urariano Mota 
    O escritor Mario Vargas Llosa e sua tia Júlia

    Em 2010, quando publiquei o texto “Mario Vargas Llosa, Nobel de Literatura”, de passagem eu criticara a infeliz recriação do peruano no livro A Guerra do Fim do Mundo. Ainda que na época o comunicado de Estocolmo informasse que na literatura de Llosa o tema central era a luta pela liberdade em seu país, pois os prêmios, como os obituários, mentem na proclamação das virtudes, maior foi a mentira na imprensa brasileira ao noticiar o livro sobre Canudos como um dos seus grandes feitos.
    Pelo contrário, já ali eu havia notado que pelo menos em A Guerra do Fim do Mundo Mario Vargas Llosa havia sido um portentoso fracasso ao cometer um livro falho, indigno de um criador um pouquinho acima da média, porque não se sustentava em vários níveis: a) pela criação mesma de personagens – e um deles era nada mais, nada menos, que Antonio Conselheiro; b) pela desproporção de abismo entre a dimensão humana/política de Canudos e o livrinho realizado; c) pelo cotejo inevitável com a obra-prima Os Sertões – o de Llosa e o de Euclides eram dois mundos estranhos, antagônicos, repelentes recíprocos; d) pela aviltação de Euclides da Cunha, um intelectual de honestidade absoluta, que só era recuperado para o grande público em recriações constrangedoras (e fugia do objeto do texto, na ocasião, e por isso não foi lembrada a insultuosa minissérieDesejo, da Rede Globo, onde o drama familiar de Euclides se transformara em realce para uma personagem feminista de vanguarda). Mas, digamos, isso é passado.
    O diabo é que o passado na literatura é um infindável presente. Nela não há jornal velho ou produto com a validade vencida. Se nos perdoam os norte-americanos, na literatura há uma eternidade muito acima da dos diamantes, pois em vez de pedras a humanidade é que brilha. E se perdoam o passo, passagem e queda, queremos dizer, aquele passado ruim, precário e pretensioso de Mario Vargas Llosa torna a voltar em Tia Júlia e o escrevinhador. Então digamos, isto é presente.
    Para o caso de Tia Júlia, pouco importa se o narrado se atribua a um autor de radionovela, Pedro Camacho, louco de frases sonoras e de extravagâncias, ou a um escritor cujas recordações se confundem com as do tido como o Magnífico Mario Vargas Llosa. Importa o conjunto, a forma da argamassa geral do livro, e o sentimento de dó, constrangimento que causa até nos olhos de quem desejava apenas se entreter, mas sem rebaixar a própria inteligência. Pois o que diria um leitor diante desta literatura cuja eternidade está mais para diamantes que para a humanidade?
    “Demorou para pegar no sono e, quando pegou, começou imediatamente a sonhar com o negro. Via-o cercado de leões e cobras vermelhas, verdes e azuis, no coração da Abissínia, de cartola, botas e uma varinha de domador. As feras faziam graças ao compasso de sua varinha e uma multidão espalhada pelas moitas, troncos e galhos alegrados pelos cantos dos pássaros e o chiar dos macacos, o aplaudia loucamente”. Dirá no mínimo que estamos ante um mau escritor, que divaga para expressar o mundo dos sonhos sem entrar na pele do personagem. E pior, que neste romance não há uma seleção de fatos, que são substituídos por amontoados descritivos. Mas o trecho é de Pedro Camacho, ruim e extravagante de ruim de propósito. Então vamos ao próprio escritor.
    Além da falta de seleção de pessoas e circunstâncias, com narração sonolenta, em um relato de paixões e carnalidade quase não há sexo, ou o que seria mais humanamente literário, de promessa de sexo entre belos e saudáveis primos que se contam segredos, por exemplo. Em um trecho, o narrador fala a sua prima, e dela faz uma confidente amorosa. São dois jovens que se falam de amor e paixão, sem que se envolvam na chama. O que vem a seguir não é crível, acreditem, quando um impetuoso rapaz de 18 anos conta para a linda prima:
    “– Você gosta da Julita só ou está apaixonado por ela?
    Houve tempo em que lhe fizera confidências sentimentais e agora, como ela já sabia da história, fiz de novo. Tudo havia começado como uma brincadeira, mas, de repente, exatamente no dia em que senti cumes de um endocrinologista, me dei conta de que estava apaixonado. Porém, quanto mais voltas dava, mais me convencia de que o romance era um quebra-cabeça. Não só por causa da diferença de idade. Ainda me faltavam três anos para terminar a advocacia e eu desconfiava que nunca exerceria essa profissão, porque a única coisa de que gostava era escrever. Mas todos os escritores morriam de fome. Por ora, só ganhava para comprar cigarros, alguns livros e ir ao cinema. E tia Júlia ia me esperar até que eu fosse um homem capaz de saldar suas dívidas, se é que algum dia chegaria a isso. Minha prima Nancy era tão boa que, em vez de me contradizer, me dava razão:
    – Claro, sem contar que aí você talvez não goste mais da Julita e largue dela – me dizia com realismo. – E a coitada terá perdido tempo miseravelmente. Mas, me diga uma coisa, ela está apaixonada por você ou está só brincando?
    Respondi que tia Júlia não era uma biruta frívola como ela (coisa que a encantou).”
    A isso caberia só uma anotação ao lado: absurdo! O autor relata como um burocrata, isso conta sem que se reflita nos personagens o que ele conta do que fazem. Em romance, ou melhor, em arte, isso é grave. Ele descreve fatos, não narra gente. O reflexo do acontecimento na pessoa navega ao largo. Aquilo que aprendemos em desenho, em imagens do bom e velho cinema, de que a sombra do personagem, em momentos dramáticos, é mais humana que a pessoa, e nem precisaríamos ir a Eisenstein, pois nos basta o que o genial Kafka ensina quando elude o prosaísmo que é o simples contar fatos, esqueçam. Ou melhor, lembrem por oposição neste passo do Tia Júlia:
    “– O que eu não gosto nem um pouco é a história do revólver – comentou tia Júlia. – Acho que é em mim que ele haverá de dar um tiro. Olhe, Varguitas, espero que meu sogro não me mate em plena lua de mel. [Negrito desta resenha] E o acidente? Coitado do Javier! Coitado do Pascual! Que confusão a gente aprontou para eles com nossas loucuras…
    Pagamos o hotel, fomos tomar um café com leite na praça de Armas e meia hora depois estávamos outra vez na estrada, em um velho lotação, rumo a Lima.Durante quase todo o trajeto, fomos nos beijando, na boca, no rosto, nas mãos, nos dizendo ao ouvido que nos amávamos e brincando com os olhares inquietos dos passageiros….”.
    Para não dizer absurdo, digamos, isso é falso. O jovem Vargas de 18 anos e sua tia de mais de trinta estavam sob a mira de uma explosão familiar, com ameaças de morte de um senhor arbitrário, pai do narrador, sob escândalo moral e de costumes. E no entanto rumavam para o centro do vulcão em Lima aos beijos e apertos. Quem já passou pelo amor e paixão tensos e perseguidos sabe que as linhas citadas acima são vazias de significado. Amantes à beira do limite de uma dissolução não agem com tamanha leviandade, digamos, para dizer o mínimo. Nesses dois falhos personagens não há o morre e renasce, morre e renasce, como as batidas de um músculo no peito. Júlia e Varguitas longe estão de seguir para o centro de suas vidas com os olhos vermelhos, porque desejariam renascer, quando na verdade fariam um nascimento a fórceps, vindo daquela luz emitida por Goethe. “Enquanto não compreenderes que tudo morre e que tudo renasce, continuarás a ser apenas um visitante de um triste planeta”.
    Qual. Para quê um clássico luminoso, para que exigências de humanidade em personagens cômicos, burlescos? Em Tia Júlia e o escrevinhador, Mario Vargas Llosa vence o escândalo, os traumas, a tempestade, a inexperiência de adolescente, pelo que conta em suas linhas. “O casamento com tia Júlia foi realmente um sucesso e durou bem mais do que todos os parentes e até ela mesma tinham temido, desejado ou prognosticado: oito anos”. Que sucesso! O narrador venceu todas as dificuldades. Em Tia Júlia e o escrevinhador, Mario Vargas Llosa perdeu apenas o mais essencial para um escritor: a construção e a responsabilidade da arte de narrar.
    ***
    O livro de Urariano Mota publicado pela Boitempo, Soledad no Recife, já está à venda em versão eletrônica (ebook), agora com novo preço: R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.
    ***
    Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.
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