quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Luiz Ruffato / Receita para ser feliz em 2015



Receita para ser feliz em 2015

Somos os responsáveis exclusivos pela destinação que damos à nossa existência


LUIZ RUFFATO 30 DIC 2014 - 11:15 BRST


Por uma questão de hábito, os últimos suspiros de um ano e os inaugurais de outro são momentos destinados à reflexão, mesmo que as conclusões a que cheguemos explodam nos céus junto com os fogos de artifício. Não me quero diferente: portanto, nesta derradeira coluna de 2014 e primeira de 2015, gostaria de oferecer algumas considerações a respeito de nossa estadia no mundo, provisória, precária, fugaz, baseadas numa constatação inicial, óbvia, mas quase sempre ignorada, de que o objetivo final de todos nós é alcançar a felicidade. (Mas, alguém poderia indagar, o que é felicidade? Eu respondo, citando e adaptando Santo Agostinho, cujas palavras referem-se na verdade ao conceito de tempo: “Quando não me perguntam, eu sei; mas se me perguntam, e quero explicar, não sei mais nada”).
Nascemos para a morte – eis uma verdade indiscutível. Nosso vagido preliminar não deixa de ser um grito de angústia: obrigados a deixar o conforto de uma relação literalmente umbilical com nossa mãe, que nos proporciona alimento, segurança e afeto sem que tenhamos de nos esforçar quase nada, somos violentamente jogados num mundo adverso ao qual demoramos a nos ajustar, sendo que muitos não se ajustam nunca. Cada dia vivido é uma marca que imprimimos na parede da nossa existência. Se admitimos que só contamos com essa oportunidade – eu pelo menos não creio em vida após a morte, nem em reencarnação –, então temos que tornar nossa passagem pela Terra a mais suave possível.
Ao contrário do que apregoou Jean-Paul Sartre, o inferno não são os outros, mas nós mesmos. Nós é que arquitetamos nossa trajetória na vida
Portanto, nosso corpo é sagrado, o invólucro de que se reveste nossa essência. E, a rigor, trata-se do único bem material que possuímos de maneira efetiva. Todos as coisas que acumulamos são acessórias e acidentais: podem até nos proporcionar momentos de intensa alegria, mas não satisfazem nossa indigência espiritual. A felicidade que almejamos ultrapassa as necessidades comezinhas, embora não as despreze, pois apenas um corpo saudável, física e intelectualmente, resiste para subsistir no tempo, quando nos transformamos em memória. E se nosso corpo é sagrado, todos os corpos que nos cercam também o são. Segue daí que é na interseção entre eu e o outro que legitima-se o mundo: no ato de reconhecer o outro como igual a mim mesmo, de compadecer com a dor alheia, de regozijar com a conquista alheia. É o outro, enfim, que nos concede o estatuto de ser humano em plenitude. (“Nenhum homem é uma ilha isolada”, escreveu o poeta e ensaísta inglês John Donne, no século XVII).
Se nascemos para a morte, se o corpo é o único bem material que possuímos e se existimos apenas quando reconhecidos pelo outro, concluímos que somos os responsáveis exclusivos pela destinação que damos à nossa existência: somos o condutor e somos o veículo. Evidentemente que fatores biológicos, psicológicos, sociais e econômicos determinam, em parte, o lugar que ocupamos no mundo. Mas só depende de mim, do meu esforço, realizar-me como pessoa – e realizar-me como pessoa é edificar uma estrada larga e pavimentada rumo à felicidade. Neste sentido, ao contrário do que apregoou o escritor e filósofo francês Jean-Paul Sartre, o inferno não são os outros, mas nós mesmos. Nós é que arquitetamos nossa trajetória no espaço-tempo de uma vida, ora por espelhamento, ora por oposição.
Como não conseguimos definir a felicidade pelo que ela é, tentemos pelo que ela não é. Felicidade não é o mergulho no prazer efêmero, na satisfação do gozo imediato; não se confunde com a alegria, mas nutre-se dela; e, embora colocada como horizonte de possibilidades, não se realiza na consumação, mas flui em sua duração. A felicidade não é, enfim, um projeto egoísta, pois para sua consecução encharcamo-nos da Humanidade. Trata-se de uma utopia, dirão alguns. Mas, como diz o poeta Sergio Vaz, “para alcançar utopias é preciso enfrentar a realidade”.
Então, sejamos melhores em 2015!



terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Stephen Hawking sobre duas pernas



Hawking sobre duas pernas

Primeira esposa do cientista mostra em livro retrato intenso de seus anos de formação



O cientista Stephen Hawking e a escritora Jane Hawking no dia de seu casamento, em 1965.
Pouca gente no planeta Terra não está familiarizada com a imagem de Stephen Hawking, cosmologista, físico teórico, escritor de sucesso, polemista afiado e personagem deOs Simpsons, preso pela esclerose lateral amiotrófica (ELA) a sua cadeira de rodas de alta tecnologia, comunicando-se com o mundo por meio de um sintetizador de voz que embora mude de software mantém — por vontade expressa de seu usuário — seu inconfundível e algo perturbador timbre robótico. A figura é tão familiar que é fácil esquecer que o físico foi até os vinte e poucos anos uma pessoa saudável, que se movia sobre duas pernas, sonhava com um futuro brilhante e se apaixonava como qualquer jovem, ou pelo menos como qualquer jovem educado em Oxford. Sua primeira mulher, Jane Hawking, nos apresenta agora um retrato intenso e vívido daqueles anos de formação intelectual e emocional. E também de tudo que viria depois.
Teoria de Tudo – A Extraordinária História de Jane e Stephen Hawking (Editora Única) não é exatamente uma biografia do físico nem uma autobiografia de sua autora. Consciente de que a celebridade de seu ex-marido não acabará em décadas nem em séculos, a escritora e conferencista Jane Hawking decidiu contar ela própria sua relação com ele antes que “dentro de 50 ou 100 anos alguém invente nossas vidas”. Esta é a narração da mulher que mais bem conheceu Stephen Hawking durante sua juventude e que decidiu se casar com ele, apesar de sua trágica enfermidade. É por isso também a história de um dilema moral: um dos mais graves que um ser humano pode enfrentar ao longo de sua vida.
Hawking pertencia a uma dessas famílias britânicas que parecem tiradas de um filme de Frank Capra, excêntricas, intelectuais e sem preocupação quanto a sua imagem entre os mais ou menos horrorizados vizinhos. O pai, o médico Frank Hawking, não apenas era o único apicultor de Saint Albans, cidade de 60.000 habitantes, 30 quilômetros ao norte de Londres, como também o único a ter um par de esquis. “No inverno”, narra Jane, “passava esquiando em frente a nossa casa, a caminho do campo de golfe”. Os Hawking eram conhecidos em Saint Albans por hábitos como sentar à mesa lendo um livro cada um, e a avó vivia no sótão, que tinha entrada independente pela rua, e só descia em alguma ocasião familiar ou para dar um concerto de piano, instrumento no qual era uma virtuose.
Jane Hawking foi pela primeira vez à casa dos Hawking em 1962, convidada para o aniversário de 21 anos de Stephen, e conheceu ali seus amigos de Oxford, que se consideravam os “aventureiros intelectuais de sua geração”, nas palavras da autora, “dedicados de corpo e alma ao repúdio crítico de todo lugar-comum, à zombaria em relação aos comentários banais, à afirmação de seu juízo independente e à exploração dos confins da mente”. Jane, garota de firmes convicções cristãs e opiniões convencionais, sentiu-se incomodada por toda essa exuberância, mas desde o começo viu em Stephen algo mais que isso, uma natureza empática e independente pela qual, quase sem perceber, ficou apaixonada em poucos meses.


Eddie Redmayne (Stephen Hawking) e Felicity Jones (Jane) em cena de 'A Teoria de Tudo'. / ©FOCUS FEATURES/COURTESY EVERETT COLLECTION (©FOCUS FEATURES/COURTESY EVERETT COLLECTION / CORDON PRESS)
A notícia chegou num sábado de fevereiro de 1963, pela boca de sua amiga Diana: “Olha, soube do Stephen?”. O jovem talento estava havia duas semanas no hospital Saint Bartholomew, porque vinha tropeçando continuamente e não conseguia nem amarrar os sapados. Os médicos tinham diagnosticado a esclerose e previsto dois anos de vida. Jane ficou perplexa. “Ainda jovens o bastante para sermos imortais”, escreveu. Diana lhe disse que Stephen estava muito deprimido e que tinha presenciado a morte do garoto da cama ao lado no hospital. Stephen havia se negado a aceitar um quarto individual, fiel a seus princípios socialistas. As pessoas não mudam.
Mas o livro de Jane Hawking não tem o tom de tragédia, como tampouco teve a já longa vida de Stephen. Os que conhecem de perto o físico ficam invariavelmente perplexos com um detalhe: o muito pouco que lhe importa sua deficiência. Hawking não somente deixou perplexos seus médicos, por suas décadas de sobrevida à ELA –um caso insólito para a medicina—, como demonstra a cada dia que pode levar uma vida tão normal quanto possa ter um físico teórico. Sua produtividade científica o coloca na elite da disciplina, desfruta como qualquer um de um bom jantar com os amigos e nunca renunciou a seu aguçado senso de humor.
A esclerose naqueles primeiros anos tinha alternância entre crises e episódios de relativa normalidade, e pouco depois de sua deprimente entrada no hospital Saint Bartholomew, Jane pôde provar do estrepitoso estilo de guiar de seu noivo. Stephen a levou a Cambridge no gigantesco Ford Zephyr de seu pai — carro que tinha vadeado rios na Cachemira durante a estada indiana da família — no que acabou sendo uma das experiências mais aterrorizantes já vividas pela jovem. “Parecia usar o volante para se erguer e enxergar sobre o painel”, conta Jane. “Eu me atrevia apenas a olhar para a estrada, mas Stephen parecia olhar para tudo, menos para a estrada.” Que tempos, aqueles!
Há muito mais neste livro, um olhar extraordinário sobre a vida de uma figura ainda mais extraordinária: o físico mais popular da nossa época encarando o amor e o destino, os dois buracos negros a que acabam sucumbindo todos os membros desta espécie paradoxal.

Um prognóstico errado

Deram a Stephen Hawking dois anos de vida depois de diagnosticar sua doença, há 53 anos. E contra todos os prognósticos, o cientista continua vivo e ativo. Em 29 de janeiro estreia no Brasil o filme Teoria de Tudo, baseado no livro de mesmo título escrito por sua primeira mulher, Jane Wilde Hawking, e dirigido por James Marsh. O ator Eddie Redmayne interpreta o teórico e divulgador científico que mudou para sempre a história da ciência e da tecnologia moderna. O filme se concentra na relação mantida pelo físico britânico com Jane Wilde (Felicity Jones), com quem se casou em 1965, depois de ter a enfermidade diagnosticada, e de quem se separou em 1990.







segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Como é a nova cadeira do físico britânico Stephen Hawking

Stephen Hawking

Como é a nova cadeira 

do físico britânico Stephen Hawking

Um sistema desenvolvido pela Intel permite ao cientista transmitir seus pensamentos mais rápido e realizar tarefas cotidianas em um décimo do tempo

Os pesquisadores de patologias motoras terão livre acesso à plataforma



Depois de três anos de trabalho, engenheiros da Intel criaram a nova cadeira de rodas conectada com a qual Hawking poderá comunicar seu gênio. / INTEL
Se não fosse a tecnologia, as ideias do cientista mais brilhante da atualidade teriam ficado encerradas em sua cabeça. Acometido de uma doença que o deixou praticamente paralisado, o físico Stephen Hawking poderá, a partir de hoje, comunicar seus pensamentos e realizar tarefas cotidianas muito mais rápido graças à nova cadeira que a Intel desenvolveu para ele. O protótipo servirá de base para uma plataforma aberta a todos os que pesquisam meios de melhorar a vida dos portadores de tetraplegias e patologias motoras de origem neurológica.
Hawking estreou sua nova cadeira em um ato celebrado na manhã de terça-feira em Londres. O físico britânico, que sofre de esclerose lateral amiotrófica (ELA) desde os tempos de faculdade, poderá agora transmitir seus pensamentos com maior rapidez e realizar algo tão simples e essencial para ele como navegar na Internet em um décimo do tempo que levava na cadeira anterior.
Tanto o equipamento velho, que Hawking usou nas últimas duas décadas para se movimentar e se comunicar, como o novo são obra de engenheiros da Intel. Mas em questões de tecnologia, o tempo, esse fenômeno que tanto interessou ao genial físico, passa depressa demais e sua cadeira de sempre ficou antiquada e incapaz de aproveitar todos os avanços alcançados nos últimos anos.

A medicina não foi capaz de me curar, por isso dependo da tecnologia para poder me comunicar e viver”, diz Stephen Hawking
Com a nova cadeira, por exemplo, o sensor que atualmente tem na bochecha é detectado por um computador infravermelho montado em seus óculos, o que permite a ele selecionar caracteres em seu computador. A integração da tecnologia de software linguístico da companhia britânica SwiftKey, um aplicativo de texto inteligente, melhorou a capacidade do sistema para aprender com o professor, predizendo seus próximos caracteres e palavras.
Durante dois anos, engenheiros do Swiftkey trabalharam em um modelo de linguagem personalizada para Hawking. Em essência o sistema é similar ao do aplicativo para celulares. Aprende com o que já foi escrito em e-mails, mensagens ou posts em redes sociais para completar as palavras. No caso do físico britânico, a aprendizagem foi feita incluindo textos que o físico não publicou.
Segundo uma nota da Intel, com esse sistema, Hawking precisa escrever menos de 20% do total de caracteres comunicados. Até agora, por exemplo, para realizar uma busca na internet, o professor Hawking precisava seguir processos árduos, como fechar sua janela de comunicação, mover o cursor para abrir o navegador, movê-lo de novo à barra de busca e, por último, escrever os termos da busca. O novo sistema automatiza todos esses passos.
“A medicina não foi capaz de me curar, por isso dependo da tecnologia para poder me comunicar e para viver”, dizia o professor Hawking em Londres já instalado em sua nova cadeira.

Hawking e a responsável pelo projeto da cadeira ACAT. Intel
A plataforma foi batizada pela Intel como ACAT (sigla em inglês de Ferramentas Auxiliares Conscientes do Contexto). O projeto foi desenvolvido em três anos por uma equipe multidisciplinar de pesquisadores da Intel Labs, com a cooperação do próprio Hawking.
“Durante décadas, o professor Hawking se valeu da tecnologia para poder comunicar-se com o mundo. Entretanto, para estabelecer uma analogia, seu antigo sistema era como tentar utilizar aplicativos e sites modernos sem teclado nem mouse”, diz Wen-Hann Wang, vice-presidente da Intel e diretor executivo da Intel Labs. “Juntos, criamos uma experiência de comunicação superior em todos os níveis, que contribui para manter o professor independente em sua vida diária e que pode chegar a aumentar a independência de outros portadores”, acrescentou.
Plataforma aberta a todos
O físico britânico é o primeiro a contar com o ACAT, mas a intenção da Intel é que a plataforma seja aberta em janeiro a todos os pesquisadores e tecnólogos que trabalham no campo da deficiência.
Mais de 3 milhões de pessoas em todo o planeta sofrem de lesões e doenças motoras de origem neurológica. Estas patologias afetam as atividades musculares voluntárias, como as capacidades de falar, andar, deglutir e realizar todo tipo de movimentos corporais.

Os engenheiros trabalharam três anos na nova cadeira de rodas
A partir do ano que vem, o software ACAT estará disponível para que os pesquisadores possam criar soluções personalizadas para interações e comunicação mediante o tato, piscadas, movimentos de sobrancelhas e outros gestos.
Embora a deficiência nem sempre tenha estado na lista de prioridades de muitas empresas de tecnologia, durante a apresentação do novo equipamento, a principal responsável pelo projeto do ACAT na Intel Labs, Lamba Nachman, recordou que “o âmbito das tecnologias para deficientes é, com frequência, um campo de testes para as tecnologias do futuro”.



domingo, 28 de dezembro de 2014

A Cuba que já conta a mudança


A Cuba que já conta a mudança

A literatura caminha à frente da política na ilha

Muitos escritores expõem sua visão crítica do país e retratam o desencanto de sua geração


Da esquerda para a direita: escritores cubanos Pedro Juan Gutiérrez, Wendy Guerra, Ronaldo Menéndez e Leonardo Padura. / DANIEL MORDZINSKI
Cuba continua sendo um país com duas moedas, como a nova geração literária, separada em dois territórios físicos. Os netos da revolução foram educados como pioneiros no marxismo-leninismo, no seio das famílias que apoiaram Fidel Castro, mas essa primeira geração anticapitalista se cansou de escutar discursos utópicos que pouco acrescentavam à vida cotidiana. Alguns fugiram desta ilha do Caribe em busca do futuro, fartos de perseguições, mas outros decidiram ficar e se esquivar da censura no coração de Havana, no contexto do que alguns teóricos classificam de pós-comunismo dentro do comunismo. O Gramma, órgão oficial do Partido Comunista, tem voz nas ruas, mas a decadência do regime admite diversas variáveis: escritores que publicam fora de Cuba e são silenciados dentro do país, romancistas cujos livros são editados em ambos os territórios e uma longa lista de expatriados que escrevem à distância. Em ambos os casos, Cuba protagoniza muitos de seus relatos, mas não são lidos como retratos amáveis do regime. Como seus antepassados, todos parecem atingidos por essa doença chamada insularidade, essa maldita condição de água por todos os lados, e uma forte sensação de vínculo. Algo que Leonardo Padura resume de forma simples: “O problema dos cubanos é que nem fugindo de Cuba saímos da ilha”.
A literatura já contou as grandes mudanças a caminho depois do anúncio do restabelecimento de relações diplomáticas com os Estados Unidos. Os escritores jovens já não têm a visão de seus pais. No fim do século XX, uma literatura de indignação social e crítica começou a narrar o desencanto e a visão das pessoas, baseada também no conhecimento da vida do outro lado do Malecón, o passeio de Havana que separa a terra do mar e cuja essência é ser uma fronteira orgânica e espiritual do país. Mario Conde, o detetive de ficção criado por Leonardo Pura que faz uma radiografia moral da vida na ilha do Caribe, está há muito tempo percorrendo o mundo, e o romance do autor O Homem que Amava os Cachorros, um relato pormenorizado do assassinato de Trotsky, é um sucesso. Foi publicado pela Boitempo Editorial no Brasil.
Como alguns de seus colegas, Padura (Havana, 1955), um dos romancistas que melhor representam os novos tempos da ditadura comunista e a conjuntura atual, viaja pelo mundo quando quer. Durante meio século os cubanos não puderam sair de seu país com liberdade. A fronteira estava fechada por lei e era tão difícil sair como voltar, mas a política de mudança implementada por Raúl Castro em janeiro de 2013 possibilitou as entradas e saídas, embora alguns exiliados classificados de “alta intensidade” ainda não tenham conseguido superar os entraves burocráticos (na verdade, políticos) para se deslocar pelo país. Não é o caso de Ronaldo Menéndez (Havana, 1970), que pertence à categoria de exilado de “baixa intensidade”. Vive em Madri e abandonou seu país há duas décadas, mas não possui status de opositor e seus livros são críticos, ainda que não ataquem pessoalmente os irmãos Castro. “Entro e saio com facilidade, o que provoca ressentimentos em determinado setor intelectual do exílio dos Estados Unidos. Pessoalmente me interesso muito pela política, mas não busco um confronto radical. Há um ano meu pai faleceu e pude me despedir dele, algo que nem todos os que querem podem fazer.” Este ano publicou Rojo Aceituna (Vermelho Azeitona, em tradução livre) e é autor de uma dezena de livros, entre os quais, Amores Desalmados, publicou em Cuba em 2011. Rojo Aceituna, um passeio pelos países comunistas da América Latina até a Ásia para ver o que restou do regime anunciado, pode ser lido com um ácido livro de viagens.
Padura não vive sob a ameaça de censura. Tem nacionalidade espanhola, mas continua morando em Cuba porque quer permanecer perto de suas “nostalgias e amores”. Se define como um “escritor cubano que escreve sobre Cuba. O [sentimento] de vínculo me prendeu ao meu país, ao Malecón e ao meu bairro. Um escritor é sua cultura e sua língua”, afirmou Padura em uma de suas visitas a Madri.
Em Cuba a moda não existe, embora nos calçadões dominem as calças legging de tons fluorescentes. No famoso mercado de livros usados, na turística praça de Armas, os ícones não se renovaram nos últimos setenta anos, mas algo mudou. Os músicos de rua recriam canções de Silvio Rodríguez e as fotos de Korda sobre Che Guevaradividem as estantes de madeira com alguns livros de Lezama Lima, títulos de Hemingway que lembram sua passagem pela ilha junto a álbuns da Revolução para crianças que hoje já devem ser pais. Da nova fotografia cubana, não há rastro. Entre os vendedores de livros de segunda mão, a obra de Leonardo Padura e Pedro Juan Gutiérrez recebe elogios. “São os únicos escritores que falam da realidade do país”, diz um deles. Alguns de seus títulos são vendidos ali mesmo. Por outro lado, se são perguntados por alguns dos proibidos ousilenciados passam em segundos da expressão indiferente para a imediata reação comercial. “Bem, agora não tenho esse livro de Wendy Guerra aqui, mas se quiser posso conseguir...”. Os cubanos contam que isso também acontecia anos atrás com Antes que Anoiteça, a memorável biografia de Reinaldo Arenas que apenas podia ser lida fora do circuito oficial.
Na rua Obispo, com novas livrarias, algumas com vários andares e atendidas por um bom número de funcionários, tampouco se encontram as últimas novidades. Bolaño ou Volpi não existem. Nas livrarias não há opções de opositores, mas em estantes móveis podem ser compradas revistas culturais históricas como La Gaceta de Cuba ou El Caimán Barbudo, entre outras. O escritor Reynaldo González, jornalista e um dos mais prestigiados ensaístas cubanos, perseguido durante quase uma década por ser homossexual, vê claros sinais de abertura. Em sua opinião, a precária indústria editorial local não permite muitas extravagâncias, mas diversas editoras publicam escritores jovens consagrados como Ana Lydia Vega, Jorge Enrique Lage — com sua obra Carbono 14. Una Novela de Culto (Um Romance Cult), publicada em 2010, faz juz ao seu nome — e ao de Mirta Yáñez, entre outros. Também são editados livros que estavam há anos guardados como Hablando de Fantasmas y Mucho Más (Falando de Fantasmas e Muito Mais, em tradução livre), de Esther Llanillo, de 86 anos, aposentada depois de trabalhar por 30 anos como bibliotecária na Universidade de Havana. A narrativa fantástica se acotovela com a histórica, gêneros quase marginalizados no reino do realismo socialista. “O triunfo da revolução teve tal consenso que acabou com tudo. Quem dera tivesse ocorrido um confronto ideológico!”.

Banca de livros na Praça de Armas, Havana. / CARLOS PERICAS
Nos anos setenta, a esquerda stalinista impôs seu critério e os que não estavam de acordo tiveram que abandonar a praça a caminho do exílio. Agora ninguém catequiza como deve ser a arte, tudo isso forma parte da história oficial que se transformou em fracasso. Tampouco do outro lado, a voz do exílio é a mesma, muitos têm filhos que já nem sequer falam espanhol”, conta Reynaldo González em sua residência de Havana, no bairro do Vedado, uma mansão caindo aos pedaços com um jardim tropical na entrada do qual cuida pessoalmente.
Wendy Guerra (Havana, 1970) mora no bairro de Miramar, uma das antigas zonas residenciais da cidade. Sua casa ocupa o último andar de um edifício velho de três andares que é acessado depois de passar por uma cerca de segurança. O interior, decorado com estilo minimalista com sofá branco e cadeira de balanço de Charles Eames, é totalmente acolhedor e estranho em uma cidade onde os prédios parecem a ponto de cair e o asfalto como se não tivesse sido tocado desde que Fidel entrou em Havana em 1959. Tudo na cozinha é orgânico, e o suco de laranja oferecido ao visitante é natural.Tornou-se muito popular graças à televisão, onde apresentava programas, mas faz anos que foi silenciada pelo regime. As pessoas acostumadas a vê-la na tela perguntam nas ruas se está morando fora de Cuba, ao que ela responde que vive no inxílio. Faz sucesso fora, mas seus romances não são publicados na ilha. No entanto, ela decidiu permanecer em uma sociedade desgastada e dividida: “É bom ficar com o mau do bom. Aqui levo uma vida esforçada, mas legítima. Sou coerente com as ferramentas que todo mundo usa; uso as bibliotecas e vou aos hotéis para entrar na Internet. Não poderia viver aqui como um estrangeira. Não sou uma ativista política, mas uma escritora”, dispara.
Quando sai da ilha e se reencontra com seus compatriotas sente uma enorme alegria. “São meus irmãos”, afirma. “Não entendo que continuem nos atacando do exílio. Os intelectuais estão cheios de preconceitos, mas já é hora de declarar um cessar-fogo. Não podemos continuar repetindo as histórias de nossos pais.”
Wendy Guerra tornou-se popular na televisão, mas há anos foi silenciada. Ela diz que vive no ‘inxílio’
Formada em Direção de Cinema no Instituto Superior de Arte e aluna de García Marquez em sua oficina de roteiros, como escritora atua no território dos jornais e seu romanceTodos Se Vão, um relato autobiográfico de como uma filha da Revolução viveu a diáspora de todos seus amigos e conhecidos, é uma das críticas mais devastadoras do comunismo, escrita a partir da perspectiva de uma menina.
Como escritora sente que desenvolve uma carreira pessoal que não foi possível para os pais de sua geração porque eles nunca pensaram em ter algo deles na primeira pessoa do singular. “Quando crianças não podíamos escolher, fomos educados no marxismo com a ideia de que nada do que tínhamos era nosso, tudo pertencia ao Estado e me rebelei contra isso.” Os dias em Cuba são muito parecidos mas, nesse adágio da mesmice, Guerra encontra os temas que povoam seus livros. Agora se dedica a receber os amigos que se foram e retornam à ilha para se despedir de seus pais doentes ou enterrá-los. E não falamos de uma figura de linguagem. “Uma geração está desaparecendo, de velhos comunistas que apoiaram Castro e pessoas que, em alguns casos, enfrentaram seus filhos quando decidiram ir embora.” Talvez escreva sobre esse enorme drama em alguns de seus diários. “Há muitos infernos; o socialismo nos tornou muito desunidos”.
Entre duas gerações e dois países emerge a figura de Pedro Juan Gutiérrez. Conseguiu um filão contando abertamente sua vida erótica, mas sofreu a censura e os insultos. “Quando Trilogia Suja de Havana foi publicada em outubro de 1998 em meu país, me despediram da revista onde trabalhava e um muro de silêncio foi erguido ao meu redor. Juntei forças e disse a mim mesmo: pois, em primeiro lugar, não vou a Miami nem a nenhum lado, vou ficar aqui porque este é o meu país e vou aguentar a tempestade.” Desde que começou a escrever o livro seu objetivo foi fazer literatura, mas nada de entretenimento. “Queria escrever sobre minha vida e sobre as pessoas que me rodeiam no Centro Havana. Era uma fase de muita fome, miséria, degradação. Trabalhava como jornalista em uma revista oficial e, claro, não podia escrever nada forte. Não me deixavam. Acredito que todos esses livros (cinco títulos) do Ciclo do Centro de Havana são uma espécie de vingança. Quando escrevi o primeiro conto da trilogia disse a mim mesmo: ‘Agora sou responsável por tudo’. E escrevi full [tudo]. Sem me importar com o que aconteceria depois”, conta por e-mail de Canárias, onde mora uma parte do ano. A trilogia foi publicada em cerca de vinte idiomas.
Não suporta que o classifiquem como o Bukowski cubano. “Meus personagens são muito mais vitais, variados, decididos, alegres e sexuais que os bêbados retorcidos, negativos, repetitivos e chatos de Bukowski. Meus personagens têm a vitalidade do trópico, a testosterona (e os óvulos efervescentes) e a graça do Caribe. São meus vizinhos, as pessoas que me rodeiam. As pessoas que você encontra se passear um pouquinho pelo Centro Havana agora mesmo, e os que continuará encontrando em 20 ou 30 anos.” Terminou um romance intitulado Fabián y el Caos (Fabián e o Caos, em tradução livre) que se passa em Matanzas nos anos sessenta e setenta do século passado, com um Pedro Juan adolescente e jovem e um dos amigos dessa época.
Se mostra cauteloso em relação às mudanças anunciadas. “Espero que sejam lentos, graduais, bem pensados e acima de tudo que sejam bem analisados para que possam seguir adiante, abrindo a sociedade para a modernidade. Foram muitas décadas de teimosia, muitas proibições, e isso gera uma terra fértil nefasta, sobretudo entre os jovens.” Em sua opinião, o principal neste momento seria “ativar a economia e os direitos individuais e o acesso à modernidade em todos os sentidos. Não podemos continuar vivendo em uma propriedade fechada. Não tem sentido e é anacrônico.”

10 livros para entender a Cuba de hoje

ROMANCE
Trilogia Suja de Havana. Pedro Juan Gutiérrez. Editora Objetiva.
Todos se VãoWendy Guerra. Editora Benvirá.
La Fiesta VigiladaAntonio José Ponte. Anagrama, 2007.
Carbono 14. Una Novela de Culto. Jorge Enrique Lage. Ediciones Altazor, 2010.
Hablando de Fantasmas y Mucho Más. Esther Díaz Llanillo, Editorial Letras Cubanas, 2011.
ENSAIO
El Mapa de Sal. Un Postcomunista En el Paisaje Global. Iván de la Nuez. Mondadori, 2001 (reeditado pela Periférica em 2010).
Tumbas Sin Sosiego. Revolución, Disidencia y Exilio del Intelectual Cubano. Rafael Rojas. Anagrama, 2006.
Fantasia Vermelha. Os Intelectuais de Esquerda e a Revolução Cubana. Iván de la Nuez. Angelus Novus.
Rojo Aceituna. Un Viaje a la Sombra del ComunismoRonaldo Menéndez. Páginas de Espuma, 2014.
El Viaje Más largo. En Busca de la Cubanía ExtraviadaLeonardo Padura. Nuevos Emprendimientos Editoriales, 2014.


sábado, 27 de dezembro de 2014

Dorival Caymmi / Postais da Bahia

Dorival Caymmi. Foto de Gabriel de Paiva


Postais da Bahia

Madri comemora o centenário de nascimento de Dorival Caymmi, pioneiro de sua música popular


DANIELE BELMIRO Madri 19 SEP 2014 - 12:52 BRT

A bossa nova foi como uma enxurrada na música popular brasileira. Com o surgimento desse movimento moderno e cosmopolita, no fim dos anos cinquenta, tudo o que tinha sido criado antes ficou parecendo velho. Poucos artistas sobreviveram ao fenômeno. Um deles foi Dorival Caymmi, que tinha começado sua carreira 20 anos antes, em plena era do rádio. Foi o que disse Chico Buarque, em certa ocasião, a Stella Caymmi, neta e biógrafa do cantor e compositor. Na última terça-feira, ela esteve na Casa de América, em Madri, para a comemoração do centenário do nascimento do avô. A Fundação Cultural Hispano-Brasileira e a Embaixada do Brasil homenagearam o músico, que morreu em 2008, com shows, palestras e uma exposição.
“Dorival é um gênio universal. Pegou o violão e compôs o mundo”, afirmou o maestro e amigo Antônio Carlos Jobim no prefácio de um songbook de Caymmi. Os dois gravaram um disco no auge da bossa nova. Caymmi não só resistiu à nova onda como foi absorvido por ela. Suas criações tinham elementos inéditos, o que permitiu que sua obra dialogasse com o gênero renovador. Uma das primeiras canções gravadas por João Gilberto, considerado o pai da bossa nova, foi Rosa Morena, de Caymmi.
O músico influenciou artistas das gerações que o seguiram, como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Mesmo assim, é praticamente impossível enumerar quantas versões outros intérpretes fizeram de seus sambas, que se tornaram ícones culturais no Brasil. Stella Caymmi não tem dúvidas em qualificar como “extraordinária” a contribuição do avô ao desenvolvimento do samba e da música popular brasileira, dois gêneros vigentes que se destacam no país.

Caymmi não só resistiu à ‘bossa nova’, como foi absorvido por ela
Jobim dizia que as modulações e dissonâncias de sua música não têm comparação com as de outros compositores, recorda Stella. Caymmi introduziu acordes que faziam que suas melodias fossem distintas das demais. Muitos consideram sua técnica tão original que “não tem herdeiros, nem mesmo na família”, afirma Stella, cuja mãe e tios também são músicos. Assim como ele não imitava ninguém, também era difícil copiá-lo. Embora o estilo de Caymmi tenha começado e terminado com ele, “sua obra impregnou toda a música popular brasileira”.
“Meu autorretrato é este: sou um poeta porque existe uma Bahia onde nasci que está aqui dentro de mim, viva, e me traz os melhores momentos desde a minha infância até hoje”, refletia Caymmi em um programa de televisão que celebrou seus 85 anos. Embora o êxito tenha chegado quando ele foi viver no Rio de Janeiro, em 1938, o artista foi um dos responsáveis pela imagem idealizada que se construiu da Bahia. Suas composições pareciam vender turisticamente esse Estado, o maior do Nordeste brasileiro. A atriz e cantora Carmen Miranda interpretou em 1939 a canção de Caymmi O que é que a Baiana Tem? no filme musical Banana da Terra – e, com a ajuda do cantor e compositor, estilizou e exportou a figura da baiana, que despertou em muita gente o desejo de conhecer essa terra mística e tropical.

O artista foi um dos responsáveis pela imagem idealizada que se formou do Estado da Bahia
Além de suas conhecidas Canções Praieiras, que evocam o mar e histórias de pescadores, compôs os Postais da Bahia, que descreviam o sincretismo no vestuário, na arquitetura, nas festas, na comida e na religião de sua terra. “Caymmi era uma espécie de antropólogo instintivo. Sua obra conserva a Bahia de sua época”, assinala Stella. Seus amigos Jorge Amado, escritor, e Carybé, artista plástico, fizeram o mesmo com suas respectivas disciplinas. Os três fizeram da cultura afro-baiana uma fonte de inspiração para suas criações. A Carybé está dedicada uma mostra na Casa de América, na qual 30 de suas gravuras dialogam com letras de canções de Caymmi.
Dorival Caymmi nasceu em uma família de classe média baixa. Sem ter acesso a recursos para desenvolver seu talento, incorporou a música de maneira autodidata. Com cerca de 100 canções e 20 discos gravados ao longo de 60 anos de carreira, considera-se que sua obra é pequena em quantidade, em comparação com a de outros artistas. Mas a qualidade e a inovação que imprimiu nela garantiram seu lugar na posteridade. 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Jobim volta a Ipanema


Jobim volta a Ipanema

No vigésimo aniversário de sua morte, Rio de Janeiro imortaliza com uma estátua de bronze “o maior ícone da música popular brasileira”



Estátua de Jobim, de Christina Motta, na praia do Arpoador. / AGÊNCIA BRASIL
Vinte anos depois de sua morte, Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim está de novo em Ipanema, a praia que imortalizou com a canção sobre a “coisa mais linda, mais cheia de graça”, um símbolo das mulheres cariocas bronzeadas que seguia com os olhos ao lado de seu parceiro, o poeta Vinicius de Moraes. A Prefeitura do Rio de Janeiro inaugurou há duas semanas uma estátua de argila e bronze em tamanho real que mostra o músico em sua plenitude física, caminhando e levando uma guitarra no ombro direito. Jobim foi colocado no cais ao longo do Arpoador, uma das pontas da praia de Ipanema, lugar favorito de surfistas, pescadores e transeuntes que param para ver o espetáculo diário do pôr do sol por trás da favela do Vidigal.
A escultora responsável pela obra, Christina Motta, decidiu representar Tom Jobim “no auge do sucesso”, pouco antes do lançamento de Garota de Ipanema, uma das canções mais gravadas da história da música. Escolheu uma foto tirada em 1961. Começava uma década explosiva e tinha 33 anos. Jobim não se arrependia de ter abandonado o curso de arquitetura. Tinha alcançado êxito um lustro antes e iniciava uma colaboração muito frutífera com o saxofonista norte-americano Stan Getz, o que acabaria lhe dando fama mundial. Desfrutava, ainda, de boa qualidade de vida: o músico tinha o costume de pescar num dos rincões mais belos da “cidade maravilhosa”, no mesmo bairro em que tinha sido criado. Seu filho Paulo confirmou, durante a apresentação da estátua, que o lugar escolhido era o preferido de seu pai. A poucos quarteirões fica o bar Veloso (hoje rebatizado Garota de Ipanema), em cuja varanda compôs junto com Vinicius de Moraes os célebres acordes de Garota de Ipanema, tema cantado, entre muitas outras, por figuras do porte de Ella Fitzgerald, Frank Sinatra, Nat King Cole e Sepultura.
A obra tem uma placa com os versos “Minha alma canta / Vejo o Rio de Janeiro”, de outra de suas canções mais conhecidas, o Samba do Avião. A viúva do compositor, Ana Jobim, disse à agência Efe que o dia da homenagem era "especial e triste", mas demonstrou sua felicidade pelo fato de a música criada por seu marido permanecer por tanto tempo nas recordações dos brasileiros. Jobim escreveu mais de 400 canções em quatro décadas. A lembrança do fundador da “bossa nova” (para a revista Rolling Stone “o maior ícone da música popular brasileira”) não desapareceu de sua cidade natal. Em 1999, cinco anos depois de sua morte, as autoridades deram seu nome ao Aeroporto Internacional do Galeão. A inauguração de sua estátua coincide no tempo com outra notável mostra de apreço popular: os nomes dos novos mascotes olímpicos e paraolímpicos da Rio 2016, escolhidos esta semana por votação popular entre três propostas, serão Tom e Vinicius, em referência aos ídolos da música popular brasileira.
Mesmo assim, todo cuidado é pouco nesta cidade, em que algumas estátuas (do poeta Carlos Drummond de Andrade e do poeta Zózimo Barrozo do Amaral) foram objeto de vandalismo na última década. Por isso, a prefeitura instalou duas câmeras perto do monumento. Ao inaugurar a estátua, o secretário de Turismo, Antônio Pedro Figueira de Mello, disse: “Há vinte anos perdemos nosso maior maestro. Precisava ser imortalizado no lugar onde passou a maior parte de sua vida. Esperamos que as câmeras não sejam necessárias; o povo saberá cuidar de um de seus ícones e de sua herança”.



quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Quando Joe Cocker era a poderosa voz do excesso


Quando Joe Cocker era a poderosa voz do excesso
O músico ganhou um lugar de honra no rock da contracultura por seus primeiros discos e sua legendária atuação no festival de Woodstock


    Joe Cocker, em 1977. / GETTY
    Como essa voz que retumbava nas caixas de som até parecer que iriam estourar em With a little help from my friends, a inocente e bela composição dos Beatles que insuflou litros de sangue e todo um universo de raiva e nova energia, o melhor Joe Cocker, o mais lendário, foi o excessivo. Antes de todo o planeta o conhecer como um campeão de vendas, a garganta que havia incitado como poucas o desejo carnal na contagiosa canção do filmeNove semanas e meia de amor, capaz de encarar qualquer composição que fosse do estilo, graças a hábil composição de seu vozeirão com a experiência, o cantor britânico foi representante de um soul feroz e imbatível, que encaixava com perfeição no agitado mundo do rock dos anos sessenta.
    Foi quase uma façanha Cocker entrar no olimpo da contracultura dos sessenta com o soul, um estilo afastado da psicodelia e a experimentação elétrica, tão própria dos eixos sonoros do verão do amor. Também que se dedicasse a isso no Reino Unido quando todos seus companheiros de geração transitavam entre o rock e o blues. Mas se o fez foi por um caráter musical rompedor e viciante desde sua estreia em 1969, com dois álbuns impactantes como With a little help from my friends e Joe Cocker!
    Entre os sulcos desses artefatos, se encontrava um verdadeiro soulman, uma garganta branca com o brio das negras, que como os grandes maestros do gênero, entre os que podem ser citados como influências diretas como Ray Charles ou Otis Redding, tinha sua própria fórmula para fazer de canções de outros suas próprias armas emocionais, banhadas de um poderoso dramatismo. Algumas vezes, reduzia seu ritmo como em Just like a woman de Bob Dylan ou Bird on the wire de Leonard Cohen, outras fraseava, como se estivesse no púlpito de uma igreja do sul, como em Something dos Beatles ou Delta lady de Leon Russel e em outras acelerava tudo até enlouquecer de êxtase como em With a little help from my friendsdos Beatles.
    Esse êxtase era o que pedia a geração da contracultura dos sessenta antes de explodir em mil pedaços, como esses sonhos adolescentes que terminam por transformarem-se em uma piada de adultos. Por isso, sua atuação ao vivo no famoso festival de Woodstock é tão lembrada como a de Jimi Hendrix e foi incluída como o melhor do grande evento. Porque a outra virtude de Cocker foi levar para o cenário todo seu soul desgarrado.
    Com sua imagem de pessoa descabelada e descuidada, movendo-se como possuído por um diabo bendito do ritmo, o músico nascido em Sheffield que, ao contrário de muitas estrelas britânicas dos sessenta, era de origem operária e foi encanador antes de ser cantor, representava todo o tormento de sua própria música tensa, dramática e passional. Além da gravação do festival de Woodstock, o disco ao vivo Mad Dogs & Englishmen, lançado em 1970, mostra o poder dessa voz cavernosa e cheia de nervosismo. Para rematar, naqueles primeiros anos Cocker, que era violento, levava um estilo de vida desastroso, abraçando todos os excessos da época com as drogas e o álcool. Com sua música, não tinha meio termo, recriando-se ao extremo.
    Através de uma travessia no deserto, sobreviveu aos seus próprios excessos. Ajudado por um consciencioso empresário, Cocker se ajustou a partir dos anos oitenta às expectativas de uma indústria que sabia que essa voz grave poderia moldar-se em baladas para todos os públicos. Por suas cordas vocais, começaram a sair clássicos como When a man loves a woman ou What becomes of the broken hearted. As trilhas sonoras também o trouxeram grandes sucessos, como os campeões de bilheteria A Força do destino com Up where I belong ou Nove Semanas e meia de amor com You can leave your hat on.
    Já usaria somente a imagem de dândi maduro, como saído de um anúncio de uma marca de roupa de luxo, que cantava o emotivo You´re so beautiful em homenagem a princesa Diana. Mas se é preciso reivindicar um Joe Cocker, por mais que sejamos centenas de milhares os que alguma vez quisermos ser Mickey Rourke contemplando ao vivo e em cores Kim Basinger durante os pouco mais de quatro minutos que dura You can leave your hat on, deve ser o jovem desenfreado dos sessenta, essa encarnação do excesso sentimental que fez com que uma canção dos mesmíssimos Beatles seja seu patrimônio, nosso hino de amizade, uma fortaleza contra o desamparo.


    Morre Joe Cocker

    Morre Joe Cocker

    O cantor morreu aos 70 anos após uma longa doença, segundo seu representante



    Joe Cocker. / JOSÉ PEDROSA (EFE)
    O cantor britânico Joe Cocker morreu aos 70 anos de idade. A voz grave e vulcânica do soul branco sucumbiu a um câncer de pulmão (de acordo com um comunicado de sua gravadora, Sony) pondo fim a uma carreira que começou entre os vapores do álcool em clubes de Sheffield, na década de sessenta.
    Deixa para a história sua voz única e seus movimentos espasmódicos sobre o palco, plasmados por toda a eternidade em sua dramática interpretação de With a Little Help from my Friends, dos Beatles, no palco de Woodstock, quando o cantor tinha 25 anos, registrada no filme do festival. Aquela versão, pela qual foi elogiado pelos próprios autores, foi a primeira vez que chegou ao topo das paradas em 1968 e revelou o seu gosto e acerto ao reinterpretar composições de outras pessoas.
    De origem proletária, sucumbiu a todas as tentações da boemia roqueira. Mas mesmo quando parecia ter chegado ao fundo do poço era capaz de fazer sucesso em todo o planeta. Sua voz ficará para sempre ligada ao cinema da década de oitenta, graças a Up Where I Belong, seu dueto com Jennifer Warnes em A Força do Destino, e especialmente por sua versão de You Can Leave Your Hat On, de Randy Newman, em Nove Semanas e Meia de Amor, hino ao erotismo para toda uma geração
    John Robert Cocker, nascido no dia 20 de maio de 1944, em um subúrbio de Sheffield, vivia há anos nos EUA, em um rancho no Colorado, com sua segunda esposa. Seu agente, Berrie Marshall, confirmou esta tarde a morte de um artista “simplesmente único”. “Vai ser impossível preencher o espaço deixado em nossos corações”, acrescentou.
    No começo de sua carreira usou o nome artístico de Vance Arnold. Com sua banda, os Avengers e sua voz poderosa, fazia versões de sucessos de Chuck Berry e Ray Charles. Em 1963, abriram para os Rolling Stones em Sheffield. Um ano mais tarde assinou um contrato para o primeiro de seus vinte álbuns solo.
    No ano passado, embarcou em uma turnê triunfal por várias cidades europeias que terminou em junho no Hammersmith Apollo de Londres, onde o destino quis que fosse seu último concerto.