quinta-feira, 31 de julho de 2014

Batman faz 75 anos



Batman faz 75 anos

Nesta quarta-feira, 23 de julho, acontece o ‘Dia do Batman’, em milhares de livrarias dos EUA



O Batman exclusivo para EL PAÍS assinado pelo desenhista Carlos Rodríguez.
“É como um diamante inquebrável. Poderia colidir contra a parede ou o teto sem ficar nem sequer com um risco. Era só questão de encontrar a faceta que ninguém havia usado nunca.” A citação, em tom reverencial, quase religioso, é do roteirista e desenhista Frank Miller (300Sin City), provavelmente a definição mais célebre do justiceiro de Gotham. Milionário playboy durante o dia. Gárgula vivente, flagelo do mal à noite. Batman. Um herói humano no Olimpo dos deuses dos quadrinhos. Um diamante de psique torturada que um sem-fim de artistas reinterpretou sem descanso em gibis, filmes e videogames. Um mito que agora completa 75 anos. O ano de suas 75 velinhas encontra o Cavaleiro das Trevas no auge do sucesso, em pé e sorridente sobre uma das gárgulas de Gotham, de onde sempre vigiou sua cidade. Sobram-lhe motivos para estar de bom humor. Um novo filme em andamento, Batman v Superman: Dawn of justice (2016), com a criticada escolha de Ben Affleck sob a máscara. A conclusão da tetralogia do videogame Batman Arkham, que vendeu mais de 12 milhões de cópias. E um macroevento que se realiza nesta quarta, rebatizado como Dia do Batman, e que tem milhares de lojas de quadrinhos nos Estados Unidos cantando parabéns pelo aniversário. Mas tudo começou como um sonho humilde. O sonho de um desenhista (Bob Kane) e um sapateiro (Bill Finger).
1938. Uma festa qualquer em Nova York. Finger e Kane apertam pela primeira vez as mãos. O encontro é narrado em detalhes no livro Batman: serenata nocturna (Timun Mas, 2014), de David Hernando (editor de Batman na Espanha durante seis anos), crônica do grande esquecido na criação do personagem: o sapateiro Finger. Hernando descreve um Finger retraído, apaixonado por cinema e Mozart, e um Kane deslumbrado e voraz que logo percebeu o negócio. Aquele cara poderia dar-lhe uma fortuna se escrevesse os gibis que ele desenhara. Kane ofereceu o trabalho, e Finger, que ainda não havia escrito uma linha sequer, aceitou. Sem saber que Kane ocultaria sua importância capital na gênese da personagem e arrebataria toda a fama. Afronta que a DC emendará nesta quarta, incluindo pela primeira vez a assinatura de Finger em uma capa, a do número especial que comemora o aniversário.
Salto no tempo para maio de 1939. Detective comics nº27, primeira ilustração. Grandes letras brancas avisam: Batman. Uma silhueta recortada com o que parece ser uma capa desdobrada e duas pequenas orelhas pontiagudas. Era o ser evocado pelo dicionário de psicologia consultado por Finger enquanto ele e Kane, desesperados, tentavam sair do aperto de criar um novo super-herói depois do Super-Homem ter arrasado. “Kane queria criar uma cópia do Super-Homem. Mas Finger se empenhou em fazer algo muito mais sombrio. Queria um detetive”, revela Hernando. O desenho original de Kane estava longe da figura icônica mundialmente conhecida. Um sujeito vestido de vermelho, com duas asas de morcego surgindo nas costas, máscara e o rosto descoberto. Um esboço que Finger corrigiria à saciedade, inspirando-se em outra personagem de seriados muito popular, o Sombra, até chegar a essa silhueta que se vislumbrava na primeira ilustração.


O Batman original imaginado por Bob Kane que logo seria corrigido por Bill Finger segundo mostra o gibi: 'Bill, the boy wonder'.
Os anos 40 foram o esplendor para o cavaleiro das trevas. Nasceram o Coringa, Charada, Duas-Caras e Mulher-Gato, vilões que tinham muito mais a ver com Jung ou Freud do que com ficção a científica desenfreada que outros super-heróis enfrentavam. Nasceu também a origem da personagem, uma das gêneses mais dramáticas de um super-herói. À saída do cinema com os pais, um rapaz filho de milionários, Bruce Wayne, fica órfão por causa da cobiça de um ladrão vulgar. Dois disparos acabam com seus pais. São as ilustrações da origem da personagem em Detective Comics nº33 (1939). De novo, uma ideia de Finger. As bases do sucesso estavam assentadas e tudo parecia caminhar à perfeição para o justiceiro das trevas. Mas a psicologia, que tanto contribuiu para o gibi do Batman, estava a ponto de cobrar seu preço. “Milhares e milhares de postos de trabalho perdidos. Uma censura brutal. Foi uma débâcle. A maior crise da história dos quadrinhos." Quem fala é Dennis O’Neal (Missouri, 1939), roteirista e editor de Batman durante três décadas. A hecatombe a que se refere foi a publicação do best-seller de Fredrick Wertham, Seduction of the innocent (Rinehart & Company, 1954), um livro em que o psicólogo de origem alemã apontava os gibis como um dos maiores culpados pela alta delinquência juvenil nos Estados Unidos. O’Neil destaca a magnitude da catástrofe: “Chegaram a queimar pilhas de gibis nas ruas. Muitíssimas coleções acabaram e a maioria das editoras foi fechada. Os quadrinhos estiveram a ponto de morrer. Dos super-heróis, só o Super-Homem e o Batman aguentaram.”


Primeira página de Batman em quadrinhos, os desenhos que abrem o 'Detective comics nº 27'.
Mas de que maneira. Os anos cinquenta são os anos de vergonha para a personagem. Contava com Robin e passou a ter uma Batfamília, com o Bat-Cão incluído. Enfrentava vilões tão tortuosos como Duas-Caras ou o Coringa e passou a lutar em outros planetas contra alienígenas. Um broto do que era o Batman daquela época. Capa da revista Batman nº 97 (1956): Batman e Robin com matrazes e tubos de ensaio olhando para o Bat-Cão que tem na boca uma foto de suas identidades secretas. Robin: “Olhe! Uma foto de Bruce Wayne e Dick Grayson, Ace descobriu nossas identidades secretas!”. Batman: “Você será um grande detetive!”.
Os anos sessenta foram o momento de levantar a cabeça. E o primeiro passo no futuro da personagem e de toda a indústria dos quadrinhos: ser um laboratório de ideias para o audiovisual. No dia 12 de janeiro de 1966 foi ao ar o primeiro dos 120 episódios de Batman, série de televisão protagonizada por Adam West. Seu espírito era muito camp, na linha festiva do Batman daqueles anos, mas regularizou a presença da personagem e de seus vilões. “Produziu-se uma retroalimentação entre a série e o gibi que logo se repetiria com os filmes. Para o pessoal de Hollywood, a personagem só interessava porque era algo que podia render muito dinheiro, mas contribuiu para tirar o gibi do ostracismo”, afirma O’Neil. O êxito da série pavimentou a nova era dourada que estava prestes a começar.

Um livro de psicologia provocou a maior crise do gibi ao acusá-lo de corromper a juventude
Batman, vinte e poucos anos, em uma Gotham cheia de putas, brutais gangues de rua e polícia corrupta. Batman, 50 anos, em um futuro distópico ao estilo de Blade runner. Entre esses dois, o rapaz sem experiência (Batman: Ano um) e o homem maduro que pendurou a capa e volta anos depois (Batman: A volta do cavaleiro das trevas), se forjou grande parte do boom artístico e comercial das histórias em quadrinhos americanas nos anos oitenta. Seu autor, Frank Miller, um artista naquela época kamikaze, que havia revolucionado Daredevil, algo assim como oBatman da Marvel, e que tinha uma ideia muito clara de como misturar reflexão sociopolítica, o futuro orwelliano e a violência com os super-heróis.


Capa de 'Batman #97', na qual se vê a sagacidade do detetive 'Bat-Cão'.

Mas Miller, que ficou com todos os méritos, se beneficiou do trabalho de limpeza que na década anterior havia sido feito por Dennis O’Neil –como editor e escritor– e Neil Adams –como artista revolucionário. O’Neil explica como dinamitou a personagem: “Me deram carta branca. Bill Finger me passou o bastão e pude tomar decisões radicais. Primeira: Batman sozinho, nem Robin, nem nada. Segunda: os vilões clássicos e obscuros assumiam o protagonismo”. E um terceiro ingrediente para a fórmula mágica: risco artístico. De dezembro de 1988 a janeiro de 1989, O’Neil encabeçaria uma aposta radical: Uma morte na família. Os leitores, discando 1-900-720-2666, deviam decidir se o segundo Robin, Jason Todd, deveria morrer ou viver. 5.271 pessoas disseram que não. Mas 5.343 disseram sim. O Coringa, armado com uma alavanca de ferro, golpeia Robin até a morte. “Foi a primeira vez que senti o gibi como algo mais que um trabalho. Percebi que realmente tínhamos um impacto emocional enorme em nossos leitores, que estávamos fazendo arte”, recorda O’Neil, emocionado. Resultado: Hollywood focalizou Batman, Tim Burton dirigiu Batman (1989) e a era do blockbuster super-heróico começava.


Portada de 'El regresso do caballero escuro', a distopía futurista com Batman de Frank Miller.Capa de 'A volta do cavaleiro das trevas, a distopia futurista com o Batman de Frank Miller.
Há uma ponte diáfana que conecta o Batman de 1989 com a recente trilogia de Christopher Nolan, que faturou quase 2 bilhões de euros (cerca de 6 bilhões de reais), e a situação da personagem hoje em dia. A sombra do poder de Hollywood se estende sobre o cruzado encapuzado. Por sua vez, o videogame obteve um sucesso que volta a deixar pequeno tudo o que se pode conseguir no gibi. Um filme como O cavaleiro das trevas ressurge (2012), recordista de público entre os nove filmes da personagem, arrecadou mais de 800 milhões de euros (aproximadamente 2,4 bilhões de reais). Uma cifra muito acima do valor de toda a indústria do gibi (menos de 600 milhões de euros anuais, algo como 1,8 bilhões de reais).

Frank Miller revolucionou o Batman com um coquetel de sociopolítica, futurismo 'orwelliano' e violência
“É um risco muito grande e creio que pode ter um efeito terrível sobre a liberdade dos roteiristas. Me dá muito medo”, afirma Brian Azzarello, um de os criadores que mais revolucionaram a personagem nos últimos anos, especialmente em Batman: o cavaleiro da vingança (2011), uma história na qual os pais de Bruce Wayne sobrevivem e se transformam em Batman e no Coringa. Outros, como Dennis O’Neil ou Katie Kubert, a primeira mulher a ser editora da personagem, o veem com mais otimismo: “Somos seu laboratório de ideias. O gibi sempre foi o lugar onde se forjam as revoluções que depois chegam ao cinema”, afirma Kubert. O’Neil é menos romântico: “É bom para eles usar-nos como storyboard, porque quando colocam duzentos milhões de dólares sobre a mesa não se pode correr o risco de experimentar para ver como fica”.
Se Batman poderá fazer outros 75 anos é algo à mercê do acaso. Mas os criadores acreditam que sim. “Claro que ele pode reinventar-se outra vez. O Super-Homem é muito mais rígido. Mas o Batman sempre pode se renovar”, afirma Azzarello. Neil Gaiman, que escreveu a morte definitiva de Batman em O que aconteceu ao cavaleiro das trevas?(2009), o vê como um vovô centenário por uma razão muito simples: “Batman funciona. Tudo nele encaixa. O traje encaixa. Suas origens encaixam. E há algo mais. O Super-Homem vem de um planeta que foi pelos ares. Assim, a cada dia que a Terra continua intacta, o Super-Homem tem um passo de vantagem. Os pais do Batman foram assassinados. De modo que a cada dia que sai para lutar, tem um passo de desvantagem”.



terça-feira, 29 de julho de 2014

Bill Watterson / Calvin e Haroldo viram adultos

Cartaz de Bill Watterson para o filme 'Stripped'



Calvin e Haroldo viram adultos

O criador da famosa tirinha volta depois de 19 anos de silêncio

Bill Watterson publicou a última tira de Calvin e Haroldo em 25 de dezembro de 1995. Aqueles quatro quadrinhos, coloridos, no formato dominical, são uma das grandes obras-primas das HQs: Calvin e seu tigre acordam e descobrem uma paisagem completamente coberta de neve. “É um mundo mágico, Haroldo, velho amigo. Vamos explorá-lo!”, exclama o menino antes de se lançar à aventura. Com essas palavras, foi encerrada uma década de desenhos que conseguiram uma relação insólita com os leitores e que finalmente demonstraram que tiras cômicas não eram coisa só de criança. Após aqueles desenhos, Watterson desapareceu da vida pública e se tornou uma espécie de Thomas Pynchon dos quadrinhos, apesar de uma ter adotado uma faceta taciturnaà la J. D. Salinger.
Só existe um retrato dele, sorrindo na frente de sua escrivaninha. Ele não permitiu nenhum tipo de comercialização de seus personagens (qualquer camiseta ou bichinho de pelúcia de seus personagens é um produto pirata), poderia ter ganhado milhões, mas se recusou: defendeu com uma coerência incomum a pureza da tirinha sem querer transformá-la numa indústria. “É sempre melhor ir embora da festa cedo. Acredito que o motivo principal pelo qual Calvin e Haroldo ainda encontra público é porque preferi não sobrecarregá-la. Nunca me arrependi de parar naquela hora”, declarou Watterson por e-mail na única entrevista que concedeu durante seu longo período de silêncio. O jornal escolhido por ele significava uma declaração de princípios: o Plain Dealer, de Ohio, porque é no município de Chagrin Falls, nos arredores de Cleveland, naquele Estado, onde ele vive. Cumpriu sua promessa e não voltou a publicar. Até agora: 19 anos depois daquela mítica tira, Watterson voltou.

Uma década de Calvin

Calvin e Haroldo foi publicada por jornais de todo o mundo durante dez anos, entre 1985 e 1995. Seus protagonistas são um menino de imaginação desatada e pouca noção de autoridade e seu tigre de pelúcia, que ganha vida quando os dois estão a sós.
Em 1995, Bill Watterson parou de desenhar as tiras e nunca permitiu nenhum tipo de comercialização de seus personagens.
Trata-se de um retorno à altura do personagem: discreto, humilde e com muito senso de humor. Watterson não tentou competir consigo mesmo com um projeto ambicioso ou ressucitando Calvin, mas mostrou o mesmo amor pelo desenho que marcou toda a sua obra. Voltou aos jornais de uma maneira extraordinária: emplacou três tiras no Washington Post, mas ninguém sabia que eram suas antes da publicação, já que pediu emprestado o espaço a outro cartunista, Pastis, e imitou seu estilo com certa ironia (o jornal que revelou o caso Watergate se viu com o artigo exclusivo mais exótico de sua longa existência porque nem sabia que o levava em suas páginas).
Ele também criou o cartaz de um filme sobre autores de quadrinhos cômicos, Stripped, um documentário para o qual também dá um depoimento, e aceitou desenhar o poster do próximo Festival de Angoulême, que abrigará também uma exposição, após ter recebido, o Grand Prix este ano. Mas não pretende viajar até a cidade francesa que acolhe o mais conhecido evento de quadrinhos do mundo. E até foi lançado um documentário sobre ele, Dear Mr. Watterson, de 2013.
“É o segredo que mais custei a guardar em toda a minha vida porque eu sabia que tinha algo muito importante e raro, como se tivesse visto o Abominável Homem das Neves”, escreveu Pastis em seu blog, após revelar que recebeu um e-mail de Watterson se oferecendo para desenhar três tiras de Pearls Before Swine sem ninguém saber. “É como se Jimmy Hendrix tivesse me dito que tinha um novo solo de guitarra. E, sim, eu sei que Hendrix está morto”.
Quanto ao cartaz do documentário, Watterson afirmou que lhe pareceu um desafio e por isso aceitou: criou uma imagem muito engraçada, que mostra um cartunista que salta rápido e sem roupas, espantado ao ler uma manchete: “Adeus, jornais!”. A obra de Watterson sempre foi ligada à imprensa e ele sempre quis que os jornais fossem seu espaço: sua genialidade reside nisso, em ser capaz de contar histórias infinitas em um formato muito reduzido, em criar personagens complexos em apenas quatro quadrinhos.
A única imagem de Bill Watterson.
“As tiras cômicas são criadas sob a pressão de um fechamento diário inflexível, e temos muito pouco espaço para escrever e desenhar”, disse Watterson em um de seus raros textos, publicado em Calvin e Haroldo – O Livro do Décimo Aniversário (Conrad), uma obra estupenda na qual o autor comenta muitos de seus quadrinhos e oferece uma mina de informações sobre seu trabalho. A descrição de seu trabalho é, ao mesmo tempo, uma homenagem à arte de fazer jornais e também aos quadrinhos e seus personagens. Ele explica que o nome Calvin é uma referência ao teólogo francês João Calvino e confessa que as coisas que diz e faz o menino de imaginação transbordante e escasso senso de autoridade é um reflexo do autor francês: “Seus pensamentos são os mesmos que os meus, me vejo nele como adulto e não como criança”. Haroldo, o tigre de pelúcia que ganha vida quando está com o menino, é uma homenagem ao filósofo inglês Thomas Hobbes [nome do personagem no original em inglês] – “O homem é o lobo do homem” – e é inspirado nos gatos que Watterson teve. Ele também descreve todos os personagens secundários: os pais, Susie (“provavelmente a única pessoa de quem Calvin tem medo”), a professora, o valentão Moe... Quadrinho a quadrinho, tira a tira, pressionado pelos fechamentos e pelas condicionantes de tempo e espaço da imprensa, Watterson conseguiu construir um universo que nunca acaba, seguramente porque decidiu fechá-lo a tempo.





segunda-feira, 28 de julho de 2014

John Le Carré / Philip Seymour Hoffman

Philip Seymour Hoffman
Philip

A partir das visitas de Le Carré à filmagem da adaptação cinematográfica de seu romance 'O homem mais procurado’, o escritor cria um grande retrato do protagonista, morto em fevereiro




Philip Seymour Hoffman, em 'O Homem Mais Procurado'
Calculo que, no total, passei cinco horas falando pessoalmente com Philip Seymour Hoffman, no máximo seis. O resto do tempo, durante a filmagem de O homem mais procurado, me dediquei a me misturar com os demais, a observá-lo no monitor e dizer depois a ele que havia estado estupendo, ou a não dizer-lhe nada. E nem sequer isso aconteceu muitas vezes: um par de visitas ao set e um papel tonto sem diálogo que me obrigou a deixar uma barba repugnante, levou o dia todo para filmar e produziu uma imagem borrada de alguém que agradeci por não reconhecer. No mundo do cinema seguramente não existe ninguém que seja tão supérfluo como o autor do livro original na rodagem do filme baseado em seu texto, coisa que aprendi na minha própria dor. Alec Guinness me fez o favor de pedir que me tirassem do set em que se filmava a adaptação de El topo para a BBC. E eu só queria irradiar a admiração que sentia, mas Alec disse que meus olhares eram intensos demais.
Agora que penso, Philip fez o mesmo favor a uma amiga minha durante aquela filmagem de O homem mais procurado em Hamburgo, numa tarde de inverno em 2012. A mulher estava de pé a uns 30 metros dele, olhando e passando frio, como todos os outros. Mas havia nela algo que incomodou Philip, e pediu que a retirassem de lá. Foi uma reação curiosa, curioso, quase clarividente e muito acertada, porque minha amiga é também romancista, e pode ser mais intensa do que qualquer um. Philip não sabia. Mas intuiu.

Muitos atores fingem ser inteligentes, mas Philip era de verdade: culto, multifacetado, artístico e brilhante, com uma inteligência avassaladora
Em retrospectiva, não deveria ter me surpreendido com esse tipo de coisas em Philip porque, não sabendo de nada, sua intuição se destacava de forma luminosa, assim como sua inteligência. Muitos atores fingem ser inteligentes, mas Philip era de verdade: culto, multifacetado, artístico e brilhante, com uma inteligência que te avassalava e te envolvia desde o instante em que segurava sua mão, te enrolava o pescoço com seu enorme braço e colocava sua bochecha contra a sua; ou te abraçava como um menino grande e gorducho, e depois se separava e sorria encantado enquanto estudava o efeito que havia causado.


Os atores Philip Seymour Hoffman (esq.), como Truman Capote, e Catherine Keener, em uma cena do filme 'Capote', dirigido por Bennett Miller. Esta interpretação lhe rendeu o Oscar e o Globo de Ouro em 2005.
Philip estudava tudo, o tempo todo. Era um esforço doloroso e cansativo, que provavelmente acabou sendo sua ruína. O mundo era reluzente demais para ele. Tinha que apertar os olhos ou morrer deslumbrado. Como Chatterton, quando você ia, ele já estava de volta, e cada vez que ele desaparecia, você não tinha certeza de que voltaria, o mesmo que diziam, acho, do poeta alemão Hölderlin: que quando saía de uma casa, os que ficavam tinham medo de não voltar a vê-lo. E se parece que é fácil dizer a posteriori, não é assim. Philip estava se queimando vivo diante dos nossos olhos. Era impossível viver aquele ritmo e aguentar muito tempo, e de vez em quando tinha uns flashes surpreendentes de intimidade, os quais sabíamos que precisava.
Nenhum ator havia me impressionado tanto como me impressionou Philip em nosso primeiro encontro: nem Richard Burton, nem Burt Lancaster, nem sequer Alec Guinness. Philip me cumprimentou como se estivesse a vida toda desejando me conhecer, e suspeito que cumprimentava todo mundo assim. Mas eu sim que queria conhecê-lo fazia tempo. Seu Capote me parecia a melhor interpretação que já havia visto na tela. No entanto, não me atrevi a dizer a ele, porque com os atores, quando se diz a eles que estavam bem em um papel de nove anos atrás, sempre existe o perigo de que te perguntem o que houve de ruim em suas intepretações seguintes.
O que disse a ele foi que era o único ator norte-americano que considerava capaz de interpretar meu personagem George Smiley, um papel que foi encarnado pela primeira vez por Alex Guinness na versão da BBC de El topo e há alguns anos por Gary Oldman no cinema; claro que, como bom britânico, considero Gary Oldman um dos nossos.

Philip estudava tudo, o tempo todo. Era um esforço doloroso e cansativo, que provavelmente acabou sendo sua ruína
Talvez lembrei também que Philip, como Guinness, não era um grande amante nas telas, mas, por sorte, não precisávamos nos preocupar com isso em nosso filme. Se Philip tinha que pegar uma mulher em seus braços, não sentíamos vontade de virar o rosto como acontecia com Guinness, mas era inevitável a sensação de que estava fazendo pelo espectador mais do que por si próprio.
Os responsáveis por nosso filme debateram muito se podiam fazer com que Philip se deitasse com alguém, e é interessante pensar que, quando por fim propuseram uma possibilidade, tanto ele como sua parceira saíram correndo. Somente quando viram a magnífica atriz Nina Hoss a seu lado compreenderam que estavam diante de um pequeno milagre de fracasso romântico. Em seu papel, ao que em seguida se deu mais importância, Nina é apaixonada por Philip, sua discípula e braço direito, e ele parte seu coração.

'O quarteto', de Yaron Zilberman. Com Mark Ivanir, Philip Seymour Hoffman (segundo à esquerda), Christopher Walken e Catherine Keener (2013).2013).

Era perfeito para Philip. Seu papel de Günther Bachmann, um espião alemão de meia idade à deriva, não permitia amores duradouros nem de nenhum outro tipo. Philip havia tomado essa decisão desde o primeiro dia e, para deixá-la clara, levava a todas partes um exemplar manuseado do meu romance —o que mais pode querer um autor?— para hasteá-lo ante qualquer um que quisesse que houvesse mais sexo.
O filme O homem mais procuradoconta também com Rachel McAdams e Willem Dafoe. Foi filmado quase que por completo em Hamburgo e Berlim, e em seu elenco estão vários dos melhores atores da Alemanha em papeis relativamente humildes, não apenas a sublime Nina Hoss, mas também Daniel Brühl.

É difícil escrever com objetividade sobre a interpretação que Philip faz desse homem de meia idade que vai perdendo o controle sobre como perfila o rumo de autodestruição de seu personagem
No romance, Bachmann é um agente secreto que foi transferido a seu país desde Beirute após perder sua valiosa rede de espionagem devido à falta de jeito ou algo pior da CIA. Vive retirado em Hamburgo, a cidade que recebeu os conspiradores do 11 de Setembro. A seção regional dos serviços de inteligência e muitos de seus cidadãos ainda vivem envergonhados por isso.
A missão que se propõe a Bachmann é dar a volta na situação: não com equipes de sequestradores, torturas com água e execuções extrajudiciais, mas sim mediante a hábil penetração de integração dos espiões, utilizando o próprio peso do inimigo para derrubá-lo e acabar desarmando o jihadismo de dentro para fora.
Durante um jantar elegante com os responsáveis pelo filme e os principais membros do elenco, não lembro que Philip nem eu conversamos muito sobre o personagem concreto de Bachmann; falamos mais em geral, sobre coisas como a atenção e o cuidado que requerem os agentes secretos e o papel de guias e conselheiros que assumem seus chefes diretos. Esqueça as chantagens, eu disse. Esqueça as bravatas. Esqueça a falta de sonho, as pessoas fechadas em caixas, as execuções simuladas e outras técnicas reforçadas. Os melhores agentes, espiões, informantes ou como se quiser chamar —pontifiquei— precisam de paciência, compreensão e afeto. Gostaria de acreditar que o convenci com minha homilia, mas o mais provável é que estivesse pensando se poderia usar alguma vez essa expressão espessa que adoto quando estou tratando de impressionar alguém.

Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman em uma cena do filme 'The master',
dirigida por Paul Thomas Anderson (2013).


É difícil escrever com objetividade sobre a interpretação que Philip faz desse homem de meia idade que vai perdendo o controle sobre como perfila o rumo de autodestruição de seu personagem. Tinha um diretor, é claro. E o diretor Anton Corbijn, um homem tão culto e multifacetado como Philip, é maravilhoso em muitos aspectos: fotógrafo de prestígio mundial, pilar da cena musical contemporânea e objeto, ele mesmo, de um documentário. Seu primeiro filme, Control, em preto e branco, é emblematico. Atualmente está rodando um filme sobre James Dean. No entanto, quando o vi trabalhar, seu talento criativo me pareceu sempre introvertido e soberano. Acho que ele seria o primeiro a reconhecer que não é um dramaturgo teórico nem sabe transmitir com eloquência o que pensa da vida interior de um personagem. Philip tinha que manter esse diálogo consigo mesmo, e devia ser um diálogo macabro, cheio de perguntas como: “Em que momento exato perco todo o sentido da moderação?” Ou: “Por que insisto em seguir em frente com tudo isto quando, no fundo, sei que não posso acabar mais do que em tragédia?”. Mas a tragédia atraia Bachmann, e Philip também, como as luzes falsas atraem os barcos naufragados.
Houve um problema com os sotaques. Tínhamos alguns atores alemães muito bons que falavam inglês com sotaque alemão. A opinião geral era, de forma um pouco arriscada, que Philip deveria fazer o mesmo. A primeira vez que o ouvi foi estranho. Não conhecia nenhum alemão que falasse inglês assim. Fazia algo estranho com a boca, uma espécie de biquinho. Parecia beijar suas frases, mais do que dizê-las. Mas então, pouco a pouco, começou a fazer o que só os melhores atores sabem fazer. Conseguiu que sua voz fosse a única autêntica, a solitária, a peculiar, a que te obrigava a depender dela em meio a todas as demais. E cada vez que saia de cena, como cada vez que saia seu dono, nos deixava esperando sua volta com impaciência e cada vez mais com inquietude.
Levaremos muito tempo para conhecer outro Philip.
© David Cornwell, 2014


PESSOA




sábado, 26 de julho de 2014

Cynthia Dorneles / Uma conversa



Cynthia Dorneles
Uma conversa


Ás vezes uma conversa ao vivo com alguém que respeitamos e que nos respeita faz mais efeito que quinhentas mil letras no virtual e nos jornais. Conversa realmente traz luz.





sexta-feira, 25 de julho de 2014

Idea Vilariño / Noite sem ninguém


Idea Vilariño
NOITE SEM NINGUÉM
Tradução de Sergio Faraco


                 Noite sem ninguém noite na espessura
                 da sombra que nega
                 tanto fervor e tanta
                 desperdiçada vida
                 Noite fechada e cega
                 sem ninguém
                 na loucura
                 de uma paixão inteira
                 fracassando na sombra
                 dando-se às quatro paredes
                 e às horas
                 e ademais à ausencia
                 e ademais ademais
                 à solidão certa de uma implacável certeza
                 e paixão sem objeto
                 e ademais consumida
                 e ademais já sem forças
                 e ademais e ademais
                 esmagada em si mesma
                 enterrada na noite fracassando no sonho.


Idea Vilariño
Noturnos e outros poemas
Seleção e tradução de Sergio Faraco
São Leopoldo, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Ed. Unisinos Porto Alegre, Instituto Estadual do Livro,  IEL, 1996, pág. 23.




quinta-feira, 24 de julho de 2014

Gaza / Efeitos colaterais

Moradores correm em busca de refúgio na Faixa de Gaza. / Hatem Ali (AFP) / HATEM ALI (AFP)

Efeitos colaterais

A questão central é que Israel nunca permitiria um Estado palestino soberano


O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirma que o propósito da invasão de Gaza é destruir os túneis que ligam a Faixa com Israel, por onde escorregam os terroristas do Hamas. Por que, então, os 10 dias de bombardeios prévios à invasão terrestre? Por que o Hamas recusou um cessar-fogo que teria diminuído a carnificina? E, se isso tem sentido, quem sai ganhando ou perdendo com o massacre?
O grande perdedor só pode ser o povo palestino, que sofreu uma orgia de efeitos colaterais, ou seja, mulheres e crianças entre as várias centenas de mortos, milhares de feridos e detidos, inumeráveis casas destruídas, e a demolição total ou parcial de seus já exíguos serviços públicos.
A opinião israelense e de seu primeiro-ministro é sim, ao que parece, de confiança de ter ganhado, pelo menos no curto prazo. Netanyahu sabe que uma campanha assim produz uma união em apoio ao Exército, que com sua Operação Limite Protetor combate tanto a ameaça dos foguetes e as infiltrações do Hamas, quanto procura manter sob controle sua extrema direita, que pede a reocupação da Faixa e uma punição ainda mais exemplar, como se a matança não fosse suficiente. E, em uma estranha simetria, o Hamas pode pensar que ganha também porque, em comparação com a Autoridade Palestina de Mahmud Abbas, pode se ufanar de ser o único que enfrenta os invasores.
Há limites, no entanto, para tanta ganância. Ao establishment israelense não interessa a destruição completa do inimigo, se isso fosse possível, porque o vazio assim criado seria preenchido por uma dúzia de facções, a maioria divisões do Hamas, de um jihadismo ainda mais radical, enquanto que a organização que governa a Faixa cumpre com perfeição um útil propósito político: permite a Israel afirmar que não há negociação de paz possível com terroristas, condenados à destruição do Estado sionista.
Como destaca o jornalista libanês Rami G. Khouri, tanto quanto a destruição dos túneis, o que importa a Netanyahu é “cortar a grama” sob os pés da guerrilha, destruir a infraestrutura do Hamas, operação que, pelo visto, convém repetir por vários anos —a última vez foi em 2008-2009, com um saldo de 1.400 palestinos e 13 israelenses mortos— para impedir que a organização reconstrua seu aparato militar, ao mesmo tempo em que a mantém permanentemente na defensiva. Isso explicaria os 10 dias de bombardeios, antes do início da busca dos túneis.
Longe do teatro da ação aparece, no entanto, outro grande perdedor: Barack Obama, ou a viva imagem da impotência. A matança dispara e o presidente norte-americano expressa “sua preocupação” por telefone a Netanyahu, e quando este dê por finalizada a operação, até deverá agradecê-lo. A questão central, em qualquer caso, foi manifestada pelo primeiro-ministro israelense em uma entrevista coletiva, com a invasão já mediada, ao dizer que Jerusalém nunca permitiria a existência de um Estado palestino plenamente soberano. E sua justificativa chama-se Hamas.





quarta-feira, 23 de julho de 2014

Os segredos de Francis Bacon

Os segredos de Francis Bacon


O Brasil recebe uma exposição com 43 obras do artista, que, até o ano 2000, estavam sob sigilo

     

Desenho de Francis Bacon, que faz parte da Série dos Papas.
No ano passado, uma obra do artista irlandês Francis Bacon (Dublin, 1909 – Madrid, 1992) foi arrematada em um leilão por 142,4 milhões de dólares (cerca de 326,6 milhões de reais na época), o maior valor da história para uma obra de arte já leiloada. Esse é um exemplo de como nenhuma notícia sobre Francis Bacon passa batida. E a mais nova delas é sobre uma exposição inédita no Brasil, que fica em cartaz no Paço das Artes, em São Paulo, desta quarta até 7 de setembro, com 43 obras que até alguns anos atrás estavam guardadas sob sigilo.
A exposição Italian Drawings, feita de desenhos a lápis, em colorido e preto e branco, entre 1970 e 1990, estavam sob os cuidados do companheiro do pintor, o jornalista italiano Cristiano Lovatelli-Ravarino. Até o ano 2000, essas obras ficaram guardadas sigilosamente. Porém, de lá pra cá, a coleção de Lovatelli-Ravarino se tornou pública e já foi tema de mais de 15 exposições, entra a Itália, Argentina, Chile, Portugal, México, Alemanha, República Tcheca, Taiwan, Inglaterra e agora chega ao Brasil.


'Retrato', de Francis Bacon / Coleção Privada.
Ronda um certo mistério em torno desses desenhos. Mas, segundo uma das curadoras da exposição, Serena Baccaglini, a história é que, em dado momento, Bacon começou a se sentir cansado de Londres, onde vivia, pois sentia-se controlado por sua própria fama. Resolveu então partir para um lugar onde fosse menos conhecido: a Itália, um de seus lugares favoritos. Lá, conheceu Lovatelli-Ravarino. “Um companheiro constante de suas aventuras foi um charmoso jovem ítalo-americano Cristiano Lovatelli-Ravarino. Há muitas evidências de que, muitas vezes, eles foram vistos juntos”, conta Baccaglini. No final da vida, Bacon quis inventar um novo meio de se expressar. “Um meio que sempre o havia intimidado”, diz a curadora. E assim surgiu essa série de desenhos que foram dados de presente ao seu companheiro. “E um aspecto surpreendente dessa série de desenhos é que eles resumem os temas de suas obras feitas no início de sua carreira”, explica Baccaglini.
Segundo a curadora, nessa exposição será possível encontrar obras em que as cores são usadas "de uma forma muito criativa", como alguns desenhos a lápis “onde o traço tem uma força especial que quase marca o papel”. “Muitos desenhos dessa exposição no Brasil foram selecionados pensando na grande sensibilidade dos brasileiros com as cores”, diz. “Um exemplo é a escolha da incrível imagem do Papa pintado com um vermelho forte e um verde e amarelo no fundo, algo pouco usual, mas muito expressivo”, diz ela.


'Retrato', de Francis Bacon. / COLEÇÃO PARTICULAR
Além de uma série de desenhos do Papa, outros temas que, segundo ela, são os mais importantes de Bacon também fazem parte da exposição: Uma série de crucificações onde a figura humana é o centro de interesse do artista. “Podemos sentir a partir daí, o quanto a obra de Bacon enfatiza o isolamento humano”, diz Baccaglini. “Cada uma das obras de Bacon exige atenção e resiste à explicação”, conclui.
Suas obras são impactantes e, muitas vezes, violentas. Bacon tinha um gosto especial por desenhar, além de rostos e corpos distorcidos, fluidos humanos e, como já dito, elementos da igreja. Suas influências começaram com Picasso. “Quando eu vi aquelas figuras senti uma espécie de choque e percebi que queria ser pintor”, disse o artista certa vez.
“Estou sempre esperando para deformar a aparência das pessoas”, disse Bacon. “Eu não posso pintá-los literalmente”. Os desenhos “não literais” do artista foram trazidos pela Mega Cultural e têm curadoria, além de Baccaglini, de Monika Burian.