sábado, 31 de maio de 2014

Morre a escritora norte-americana Maya Angelou

Maya Angelou

Morre a escritora norte-americana Maya Angelou

A poetisa falece aos 86 anos de idade

Ativista dos direitos afro-americanos, suas obras mais importantes foram autobiográficas

Obama a homenageou faz dois anos


Obama beija Maya Angelou após homenageá-la em 2011. / LARRY DOWNING (REUTERS)
A renomada poetisa e escritora norte-americana Maya Angelou, uma das artistas afro-americanas mais importantes do país, morreu nesta quarta-feira em sua casa em Winston-Salem, no estado da Carolina do Norte, aos 86 anos, segundo confirmou sua empresária, Helen Brann, à rede de TV CNN.
O presidente Barack Obama a homenageou em 2011 com a maior distinção civil dos Estados Unidos, a Medalha da Liberdade. Ao longo de sua trajetória, Angelou trabalhou como professora, cantora e bailarina. De sua obra como autora, destaca-se internacionalmente uma série autobiográfica publicada após escrever em 1969 Eu Sei Por Que o Pássaro Canta na Gaiola. Foi, além disso, uma das primeiras diretoras de cinema negras e alguns de seus trabalhos no teatro, que foram apresentados na Broadway, chegaram a estar indicados para os prêmios Tony.
"Acreditei em mim mesma", disse uma vez. "Eu me ensinei muitas coisas." Apesar de nunca ter ido à universidade, os catedráticos se referiam a ela como "doutora".
Maya Angelou nasceu em 4 de abril de 1928 em Saint Louis, Missouri. Cresceu entre essa cidade e Stamps, em Arkansas, que na época de sua juventude continuava sendo um povoado racista. Embarcou na aventura da escrita depois de uma tragédia na infância: aos sete anos, o companheiro de sua mãe a estuprou e ela o denunciou. Uma multidão enfurecida o espancou até a morte e a criança deixou de falar.
"Minha lógica como uma criança de sete anos deduziu que foi a minha voz a que o matou. De forma que me mantive em silêncio durante quase seis anos", contou, em uma oportunidade. Assim começou a sua dedicação à escrita.
Angelou, que falava pelo menos seis idiomas e trabalhou também como editora de jornais no Egito e em Gana, fez amizade com personagens tão díspares como Oprah Winfrey -que se refere a ela como uma irmã- e Martin Luther King, com quem trabalhou durante o movimento dos direitos civis. Uma trágica coincidência quis que o pastor fosse assassinado no dia do aniversário de sua amiga Maya.
"Quero escrever tão bem que uma pessoa possa avançar 30 ou 40 páginas de um de meus livros... antes de se dar conta de que está lendo", era o seu desejo. Para muitos leitores, ela conseguiu.



quinta-feira, 29 de maio de 2014

Quino ganha o Príncipe de Astúrias

Quino

Quino ganha o Príncipe de Astúrias de Comunicação e Humanidades

O humorista alcançou um reconhecimento universal da mão de Mafalda, que nasceu há 50 anos



Mafalda, vista por Sciammarella.
A criança que filosofava nasceu da pena de um ilustrador que pensou em fazer desenhos mudos. Quino, o cartunista que recebeu nesta quarta-feira o prêmio Príncipe de Astúrias de Comunicação e Humanidades, adorava a arte silente de Buster Keaton. Por esse caminho seguiu até que em uma redação de Buenos Aires lhe disseram que o humor precisava de palavras. Quino aceitou o conselho ou a exigência e encheu seus quadrinhos de nuvens. Às vezes com diálogos socráticos, às vezes com as palavras justas, como quando Mafalda, a criança filósofa com "sopafobia" que transformou Quino em um desenhista universal, só acerta a gritar:
-Parem o mundo, que quero descer!
Joaquín Salvador Lavado, filho de migrantes andaluzes nascido em Mendoza (Argentina) em 1932, já não desenha. Em um desses golpes nada graciosos da vida, sua vista foi se debilitando. Mas o que desenhou antes é suficiente para lhe acolher para sempre. Ele, um humilde patológico, é profeta em sua terra e fora dela. O Príncipe de Astúrias soma-se a uma longa de lista de reconhecimentos para o humorista, que coincidem com a celebração dos 50 anos do nascimento de Mafalda. Quino criou seu gigante de seis anos em 15 de março de 1962 para uma campanha publicitária para uma marca de eletrodomésticos que se frustrou pelo caminho, mas o pai da criatura prefere fixar como data do natalício o dia 29 de setembro de 1964, quando se publicou a primeira tira no semanário Primera Plana, de Buenos Aires.


O desenhista Quino, em Buenos Aires em 2012. / RICARDO CEPPI
A criança de seis anos mal viveu uma década no papel impresso. Quino abandonou a personagem em 1973 sem que a personagem nunca tenha o abandonado. A diferença de outros criadores assombrados por suas criações, caminha contente na mão de Mafalda. Sente-se acompanhado, embora hoje retrataria uma família reconstituída, como confessava em uma entrevista de 2013. Em sua famosa saga envelheceram o contexto social (o papel da mulher encarnado por essa contumaz cozinheira de sopa que é a mãe de Mafalda e Guille) e o político (a ditadura argentina, que causou o exílio do humorista, se desmoronou em 1983 para dar caminho a uma democracia) mas suas receitas existenciais seguem vigentes. Como as perguntas do idealista Felipe (“Não seria formoso o mundo se as bibliotecas fossem mais importantes que os bancos?”) ou as sentenças da própria Mafalda (“Como sempre; mal um põe os pés na terra se acaba a diversão”).
Em sua galeria infantil, Quino aprisionou as grandezas e as misérias do mundo. O materialismo rompante (Manolito: "Todos somos iguais só que alguns arriscamos um capital"), o otimismo ante a manhã (Miguelito: “Eu, o que quero que me saia bem é a vida”) ou o descrédito (Susanita: “Não é questão de ferir suscetibilidades, senão de as matar”). Esta vigência pesou na decisão do júri do Príncipe de Astúrias: "Ao comemorar o 50ºaniversário do nascimento de Mafalda, as lúcidas mensagens de Quino seguem vigentes por ter combinado com sabedoria a simplicidade no traço do desenho com a profundidade de seu pensamento".
Ao Prêmio Príncipe de Astúrias de Comunicação e Humanidades, dotado com uma escultura de Miró e 50.000 euros, optavam 22 candidaturas procedentes de 14 países. Junto a Quino, os aspirantes que chegaram até a reta final foram o jornalista mexicano Jacobo Zabludovsky e o filósofo Emilio Lledó. O júri que decidiu o prêmio estava integrado, entre outros, por Inés Alberdi, Víctor García de la Concha, Adela Cortina e Luis María Anson.
Quino descobriu o desenho graças a seu tio. "Eu herdei o nome e o ofício de meu tio Joaquín. Ver que de seu lápis saíam montanhas, árvores, pessoas… me maravilhava. Todos os garotos desenham, mas eu segui. Estudei um pouco em Belas Artes e dois anos depois cometi o erro de achar que aos 15 já o sabia tudo e abandonei. Disso me arrependo cada vez que posso”, contava em uma entrevista com motivo da publicação de seu último livro, Quem anda aí? (Lumen), em 2013, quase seis décadas após que se publicar seus primeiros desenhos. Não voltou a desenhar a Mafalda salvo em ocasiões excepcionais, a pedido de alguma organização solidária como a Unicef ou em 1987, depois de um frustrado golpe de Estado de 1987 contra o presidente Raúl Alfonsín.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Gisele Bündchen entra no clube das mulheres de Chanel N 5

Gisele Bündchen


Gisele Bündchen entra no clube 

das mulheres de Chanel N 5


A modelo toma o lugar de Brad Pitt e se junta à lista dos populares rostos que foram imagem de um perfume lenda



Gisele Bündchen, no 'Met Gala' em Nova York no início do mês. / CORDON
Andy Warhol dedicou a ele uma de suas séries mais célebres. O MOMA de Nova York tem um frasco em sua coleção permanente. Marilyn Monroe o converteu em lenda quando, ao ser perguntada o usava para dormir,respondeu: “Umas gotinhas de Chanel N 5”. Poucos perfumes carregam tanta mitologia como esse líquido mágico para olfatos seletos criado por Ernest Beaux para Coco Chanel em 1921 e com o qual a costureira francesa também foi capaz de romper as rígidas regras da perfumaria depois de ter rompido as regras do desenho de moda da época. “Quero um perfume para mulheres com aroma de mulher” pediu ao então mais célebre alquimista de Paris. E para contribuir com a lenda que fez deste produto um dos mais vendidos da história desde que foi criado, há quase um século, chega agora Gisele Bündchen, a modelo mais bem paga do mundo. Segundo se soube nesta segunda-feira, Bündchen protagonizará em breve uma campanha publicitária dirigida por Baz Luhrmann, o diretor de O Grande Gatsby e Moulin Rouge, quem também foi responsável por um mini-filme publicitário para a mesma marca protagonizado, em 2004, por Nicole Kidman (pouco antes que o botox arruinasse a perfeição de seu rosto).
Há exatamente uma década, a atriz australiana era a mais cotada e admirada do mundo e Jacques Helleu, diretor artístico de Chanel, não perdeu a oportunidade da contratá-la para representar um perfume que desde 1968 utilizou os rostos de algumas das mulheres mais célebres das últimas décadas, embora a primeira de todas tenha sido a própria Coco Chanel, que em 1937 posou orgulhosa em um dos primeiros anúncios da fragrância.

Gisele Bündchen

Marilyn Monroe fez publicidade grátis para o produto nos anos cinquenta com a frase mencionada, mas nunca representou oficialmente a marca... enquanto esteve viva. Não obstante, no ano passado, Chanel lançou um anúncio no qual, sobre as imagens de Marilyn, se escutava sua voz explicando a um jornalista que a única coisa que vestia para ir para a cama era o perfume.
A primeira mulher que encarnou por contrato o ideal de Chanel N 5 foi a atriz francesa Catherine Deneuve, que em 1968 estava no apogeu da sua carreira. Nos anos setenta, os anúncios foram repartidos por Lauren Hutton, Cheryl Tiegs, Ali McGraw, Candice Bergen e Suzy Parker, embora em 1976 Deneuve voltava a aparecer nas propagandas. Depois vieram a atriz francesa Carole Bouquet e a modelo Estella Warren. Recentemente, além de Nicole Kidman, a mulher que mais vimos emanando o aroma de Chanel N 5 em anúncios –além de interpretando precisamente Coco Chanel no filme Coco antes de Chanel- foi a atriz Audrey Toutou, célebre em todo o mundo depois do super sucesso O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.
Mas de todos os nomes famosos que tentaram nos seduzir com o aroma deste perfume, existe um que, sem dúvida, é inesperado e polêmico: Brad Pitt. O ator protagonizou o anúncio mais recente de Chanel N 5, uma decisão que provocou um pequeno terremoto no mundo publicitário onde não é habitual que um homem empreste o rosto a um perfume de mulher. Com a eleição de Gisele Bündchen, que poderia ser interpretado como uma decisão conservadora, a casa Chanel parece querer regressar à terra firme depois de ter pisado com Pitt em areias talvez demasiado movediças.}

Gisele Bündchen / Dois meses após dar à luz

terça-feira, 27 de maio de 2014

Juan Ramón Jiménez / Eu não voltarei



Juan Ramón Jiménez
Eu não voltarei

Eu não voltarei. E a noite
morna, serena, calada,
adormecerá tudo, sob
sua lua solitária.

Meu corpo estará ausente,
e pela janela alta
entrará a brisa fresca
a perguntar por minha alma.

Ignoro se alguém me aguarda
de ausência tão prolongada,
ou beija a minha lembrança
entre carícias e lágrimas.

Mas haverá estrelas, flores
e suspiros e esperanças,
e amor nas alamedas,
sob a sombra das ramagens.

E tocará esse piano
como nesta noite plácida
não havendo quem o escute,
a pensar, nesta varanda.




segunda-feira, 26 de maio de 2014

Do amor louco e outros amores / O amor em tempos das almas puras


14.04.09_Christian Dunker_O amor nos tempos das almas puras[Fotografia de Chema Madoz, que ilustra a capa de Do amor louco e outros amores, de Ricardo Goldenberg]

O amor em tempos das almas puras

Resenha de Do amor louco e outros amores, de Ricardo Goldenberg
Por Christian Ingo Lenz Dunker*

O novo livro de Ricardo Goldenberg, Do amor louco e outros amores (Editora Instituto Langage, São Paulo, 2013), é uma grata surpresa no cenário de publicações psicanalíticas sobre o amor. Há algum tempo este tema vem sendo parasitado por uma glosa, mais ou menos repetitiva, sempre em tom sapiental, sobre como Lacan ou Freud, podem nos alumiar nas trevas líquidas e desencontradas que tomaram conta de nossa época em matéria de amor. A coisa caminha de tal forma que quando conseguimos dizer alguma coisa a mais, e ademais interessante, geralmente é para nos reconhecermos como parte da grande narrativa moderna, que é o romance. Os romances nos ensinam a amar, um pouco mais do que os manuais de arserotica e os guias de sexologia, e um tanto menos do que as palavras íntimas, cada vez mais raras, entre amigos, amantes e quejandos.
A novidade no livro é que ele resolve colocar as coisas pelo lado mais difícil, ou seja, pelo lado do amor, do desejo ou do gozo que o analista experimenta em sua aventura reversa que são as análises que ele conduz. Há pouquíssimos precedentes nesta matéria: Ferenczi de Diário Clínico, Theodore Reik deEscutando com o terceiro ouvido e mais recentemente Stephen Mitchell e a psicanálise relacional. A raridade se explica, em parte, pelo fato de que a tarefa exige altas doses de franqueza e honestidade para falar da experiência tal comoela se dá, para aquele que a narra e problematiza, mais do que de como eladeveria se dar, segundo aqueles que nos precederam e em acordo com ideias que cultivamos. Goldenberg tem esta vocação para a pahresia, a fala franca que os latinos exigiam daqueles que se dedicavam a cuidar da alma. Isso se combina com as oscilações entre alta e a baixa cultura, entre exegese talmúdica e Janis Joplin. Quiçá esta atitude tenha sido formada nos tempos dourados em que foihold da legendária banda de rock Emerson, Lake and Palmer, ou então nos anos de chumbo da psicanálise argentina engajada.
No famoso axioma lacaniano de que “a impossibilidade de sustentar autenticamente uma práxis se transforma no exercício de um poder, como é comum na história dos homens”, o termo que me parece mais problemático é este “autenticamente”. A autenticidade não é apenas um problema de boa vontade e disposição moral à transparência. A autenticidade é um problema formal de alta dignidade literária. Ou seja, Ricardo se coloca a questão de como falar de amor desta posição na qual faltam palavras. Posição difícil, pois se deixamos as palavras virem, espontaneamente, como na análise, faremos romance, conto ou autobiografia e se as levamos a sério demais entramos na prosa deontológica, moral ou universitária. Resta a carta. A carta como tensão entre forma e conteúdo, entre ato e discurso. Restância. Por isso, coerentemente, o livro é composto por uma série de quase-cartas: de um homem para as mulheres, de analista para analisante, de analisante para analista, de um homem para uma mulher.
A solução encontrada para imiscuir desequilíbrios formais com desenvolvimento de teses, envolve uma inteligente combinação entre certos experimentos formais e elevada agilidade frasística e aforismática que vão compondo a casuística das cartas. O livro é um verdadeiro experimento diagramático conduzido por este, antes chamado de enfant terrible da psicanálise paulista. Senão vejamos. A introdução é impressa em páginas negras com letras em branco. Seguem-se dois intrólitos: um em alinhamento poemático, preto no branco, sobre o sultão Xeriar e Sherazade. Depois disso, em páginas azuis com tipos em branco, encontramos o pequeno e erudito excurso sobre a deserotização calculada pelo cristianismo do pequeno tratado bíblico sobre o amor, o “O cântico dos cânticos”.
O primeiro introduz, em estilo ligeiro, a oposição entre a obrigação de cumprir a masculinidade e o gozo contínuo, ilimitado e indiscreto do lado feminino. Aqui somos introduzidos à ideia de que os amores loucos são também os vividos pelas almas impuras, as únicas realmente dotadas de existência. O segundo ensaio recoloca no centro da interpretação do texto sagrado, a mulher e a carne como um tema político. Lido em nada menos do que 11 traduções, verifica-se que entre Salomão e Sulamita não se trata de sedução, o soberano “não foi enganado senão loucamente vencido pelo encanto de uma mulher”. Aqui começa a fazer comichão a ideia de que assim como a morte é o mestre absoluto, o amor produz o escravo absoluto.
Se o volume se abre com a paginação em preto no branco, seguido pelo branco no azul, ele se fecha, de forma quase simétrica, com outros dois pequenos estudos sobre Lolita, de Nabocov e sobre A hora e a vez de Augusto Matraga. Os quatro pequenos estudos sobre a literatura de amor, mais as duas cartas, que abrem e fecham o livro, incursionam por um modo de apropriação da literatura que não a coloca em situação subalterna. Essa inversão, quase simétrica, da forma impressa e concreta do texto, combina-se com titulações dispostas de modo contra-intuitivo, alterações do tipo de letra usada para grafar cartas, citações, diálogos interpostos e conceitos. Sem falar nas desafiadoramente longas notas de rodapé, em minúsculas letras incomiseráveis, onde encontramos, à custa de infinita perseverança ocular, a chave inesperada do texto, ou aquela enunciação fundamental que o esclarece. Justa lembrança de que o tão badalado conceito lacaniano de letra (lettrel´etre), ou de carta de amor (lettre d´amour) se antecipa nos experimentos formais de Mallarmé e Pound antes de se consagrar na caligrafia oriental. Ponto para a renovação concretista da psicanálise brasileira. O formalismo de Lacan seria, neste ponto, mais propedêutico do que propriamente substancial. Dele Ricardo relembra preceitos de método, há muito esquecidos, sempre em nome do último Lacan: textos não são casos, personagens não são pacientes, analistas não são críticos literários e o romance, escrito e fixado como um “eterno já acontecido”, não é “a vida ela mesma”.
A oposição entre as bordas feitas de branco no preto e o miolo do livro onde o amor é trabalhado preto no branco, é suplementada pela incrível carta de despedida ao analista, sensível e corajosa, e que fará qualquer analista tremer no juízo mais íntimo de seu ser quando pensa na ultima sessão de sua própria análise. A graça final: ela vem diagramada de modo quase ilegível, na formapreto no preto. A forma e a cor das cartas de amor não são indiferentes ao seu conteúdo.
Entre a abertura e o fechamento temos o cerne do livro. No inquieto e irreverente ensaio “Uma carta de amor”, o autor prescreve que sua leitura seráintensificada, se nos fizermos acompanhar da audição de Miles Davis, Leonard Cohen e Winton Marsalis (segui à risca, sem arrependimento). O conteúdo é uma anatomia crítica da moral psicanalítica. Uma renovação impiedosa do Freud deMoral sexual civilizada e doença nervosa moderna, mas agora incluindo a psicanálise como parte do problema e sem o final otimista. Parafraseando o problema central: “análise boa é análise que continua”, fora disso é o fracasso. É como se estivéssemos em uma nova forma de patologia que concede ao amor infinito todas as forças. E na beatitude do final de análise, bem questionada pela experiência, o antídoto para este mal, bem ilustrado pelo caso deste paciente cuja única dedicação na vida é amar sua Dama. Contra essa espécie de doença incurável a psicanálise acabou acreditando demais em sua própria mitologia maquínica, de que o amor é uma repetição, e que uma boa análise acrescentaria a isso um: “Edição revisada pelo autor”.
Conveniência teórica ou álibi para o amor que causamos em transferência? Onde estariam então os amores não regressivos, mais além da neurose, que dariam corpo à promessa lacaniana de um Novo amor?
Neste clima de “inversão completa de valores” Ricardo escava os meandros dos impasses transferenciais que levaram à teoria da transferência como forma de amar. Ele mostra como o imbróglio de Freud com Ferenczi, Jung, Jones e Abraham exigia uma conceitualização que, de certa maneira, devia estar à frente da própria experiência. Disso avançamos para a situação real de amor erotizado sob transferência. Amor que apavorou Breuer. Amor que deu luz ao mito fundador da transferência. Amor que teria levado à formulação da regra da abstinência e o seu corolário psicanalítico das almas penadas, errante e puras. Abstinência paradoxal se cotejamos o que seria a suposta falsa satisfação com o metro de platina, guardado em algum recanto suíço, onde estaria o verdadeiro padrão ouro da satisfação da pulsão do amor. Nem falso no sentido de contrário ao verdadeiro, nem ideal na acepção de contrário ao real, seria preciso pensar o novo amor lacaniano, como novo e inédito. Isso significa ir bem mais além de sua forja corrente no molde da indiferença, na decepção, na frustração hipócrita ou empobrecida imposta pela moral dietética de nossa época em matéria de amor (não falamos em gozo). Responda o analista à demanda ou não, se é que isso é possível.
Exemplo perfeito: Elfriede Hirschfeld, o sexto, e até pouco tempo inédito, caso clínico escrito por Freud, abandona a análise justamente quando ele “está pronto a lhe dizer a última palavra sobre a sua doença”. Uma palavra que seria “o substituto do amor que ela espera dele”. Só assim poderíamos saber se a psicanálise é de fato uma erótica, uma ars amatória, e não apenas uma ars consolatória, para nossos pacientes.
“Até Lacan fazer do analista um desejante na década de setenta, ele era tido um homem sem desejo. Mais tarde o anátema caiu sobre seu gozo, e este último não seria levantado. [...] Defendo então um psicanalista qualificado e profissional, que também seja um diletante e um amador da psicanálise.” (p.88)
Concordo amplamente. Sempre desconfiei dos psicanalistas profissionais, prefiro os amadores. Aqueles cuja única promessa é a de que um dia poderemos nos separar deste amor que virá. No contexto destas ligações perigosas aparece então uma psicanálise com menos ideais de pureza e purificação. Para ela, um analista que tenha por condição de autenticação sua capacidade de amar. Afinal, este era o único critério decente de normalidade que encontramos em Freud (além de trabalhar). Aqui reencontramos a tese destilada nos ensaios mais literários do livro. O amor nos rende. Aquele que quer ser o soberano e supremo senhor do amor, que jamais se deixa cair e que imagina-se imune à queda (fall in lovetomberamoureux) no fundo é alguém que perdeu sua capacidade de amar, alguém que está curado de sua transferência, mas também de sua loucura, e com ela de sua humanidade. Esse tipo de psicanalista não corresponde à bela alma hegeliana, mas à alma pura que jamais se deixa cair como objeto, nem cair em luto, com a última sessão de um analisante.
O livro-carta enviado por Ricardo é um mergulho nas águas profundas cheias de moreias e corais, um livro no qual está o fôlego e o sangue frio, necessário para as grandes perguntas, e para os grandes amores, não sem uma pitada de histeria.
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Confira a aula Žižek e a psicanálise de Christian Dunker ministrada no “Curso de introdução à obra de Slavoj Žižek” do Seminário Internacional Marx: a criação destruidora, que trouxe, entre outros, David Harvey e o filósofo esloveno ao Brasil.
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Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano, fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP, autor de Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (AnnaBlume, 2011) vencedor do prêmio Jabuti de melhor livro em Psicologia e Psicanálise em 2012. Desde 2008 coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.





domingo, 25 de maio de 2014

Pablo Rocca / Idea Vilariño

Idea Vilariño
IDEA VILARIÑO
Pablo Rocca


 Nos últimos cinquenta anos, muitos leitores de língua espanhola tem experimentado uma estranha sedução ao primeiro contato com um poema de Idea Vilariño (Montividéu, 1921 - 2009). Alguns desses poemas se transformaram em canções, outros foram compostos especialmente para tal fim. Assim, por volta dos anos sessenta, suas palavras romperam o limite das revistas e dos livros para circular nas vozes de intérpretes populares como Alfredo Zitarrosa, Daniel Viglietti, o duo Olimareños, Leo Maslíah e outros.



sábado, 24 de maio de 2014

Clarice Lispector / Quando não escrevo estou morta

13.03.04_Dunker_No limiar

“Quando não escrevo estou morta.” 

O traço de autoria em Clarice Lispector

Por Christian Ingo Lenz Dunker

Às vezes enterramos nossos conceitos antes da hora, por medo de enfrentar seus limites. Isso vale para as noções de autor e de narrador, absorvidas gradativamente pela supremacia do personagem. Autoria maldita, inabordável metodologicamente como noção crítico-literária, impensável psicanaliticamente como expressão de auto-coerência, impraticável para um mundo em crescente escritura de si mesmo.
O livro de Maria Lucia Homem, No limiar do silêncio e da letra: traços da autoria em Clarice Lispector comemora os 92 anos de nascimento da autora deA Paixão de G.H. recuperando o tema da autoria para além a psicobiografia. A tese é muito interessante, pois consegue se desfazer de noções preguiçosas como a de estilo ou de marca textual, preservando a autoria sem a biografia. Pelo menos não é a biografia, como narrativa-mestre, a dominar todas suas evaginações ocasionais chamadas em seu conjunto de “obra”, que estão em questão neste caso.
Nenhum outro autor brasileiro teria levado tão a sério um dos desafios da desmontagem da forma-romance, na sua versão de contradição entre vida e obra, quanto Clarice. Desafio central para a psicanálise, uma vez que é esta forma que enquadra tanto as expressões diagnósticas quanto metapsicológicas de Freud. Uma psicanálise para além ou para aquém do romance: talvez tenha sido isso que Lacan foi buscar nos trágicos gregos. Outro universo sem autoria.  
Maria Lucia aborda este problema em Água viva, romance onírico, quase sem ação, para-romance em primeira pessoa, na qual a figura típica do nascimento é colocada em paralelo com a construção do próprio texto. Suspensão do ordenamento gramatical, voltas que beiram o barroco, tentando capturar no tempo que flui o instante-já, no qual isso (it), seria apanhado pela palavra. O preço desta declarada procura é a dissolução e o esvaziamento da unidade eu-narrador-autor. Suas cenas de constituição, morte-vida, eu-outro, reflexividade e saber de si, tornam-se pretextos para esta “estética do desvio”, ou seja,  para o nascer e renascer da palavra e do silencio. Ao repetir o impossível de dizer, sonhando com a potência da música e da pintura, “o melhor está nas entrelinhas …”. 
Em A hora da estrela a estratégia é diferente, mas a moral é a mesma. Desta vez é o personagem que se esvazia. Macabéa, sertaneja sem destino, paciente que não tinha nada, diz sim para a vida (seu primeiro namoro) no instante já depois do qual é atropelada pela estrela, que tanto queria se tornar. Este “desconhecimento profundo da realidade de si” parece ser o preço a pagar, na quota do personagem, para que entre em cena a polifonia do narrador-personagem, do autor e até mesmo do leitor.
Finalmente, em Um sopro de vida o problema da autoria alcança seu grau máximo, com a própria transferência do acabamento da obra para a secretária de Clarice, e com a criação de uma criatura-personagem, Ângela Pralini, que dialoga abertamente com a autora, como sua extensão.
Em sua última fase, Clarice nos deixa ver que o autor não precisa mais se aprisionar como senhor de seu texto, mas pode exercer uma função, exercida no momento mesmo do gesto da escrita.” (p.180)
A crise da subjetividade que dá origem à constituição do sujeito literário contemporâneo é refeita, passo a passo, por Maria Lucia, neste trabalho que restitui a psicanálise na crítica clariceana. Mais além da abordagem biográfica e mais aquém da decifração hermenêutica, há ainda espaço para a questão da autoria como traço do sujeito. Trabalho inteligente e sensível, à altura do texto que aborda, é uma obra necessária para aqueles que ainda acreditam que a literatura tem algo a dizer sobre a formação do psicanalista, e para aqueles que acreditam que a literatura pode nos ensinar algo sobre a arte de ser outro. 
* Publicado originalmente no n.242 da revista Mente e cérebro.


sexta-feira, 23 de maio de 2014

Clarice Lispector e o frevo


12.12.11_Urariano Mota_Clarice Lispector  e o frevo
Clarice Lispector e o frevo
11/12/2012
Por Urariano Mota
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Vocês perdoem se eu forço a nota, mas desejo ligar dois grandes acontecimentos: o aniversário do nascimento de Clarice Lispector em 10 de dezembro, e o prêmio universal para o frevo, agora patrimônio imaterial da humanidade, desde o último 5 de dezembro. Mais adiante entenderão por quê.
Daí que assim perdoado, como espero, acompanhem estas linhas que associam o frevo, que já era universal sem títulos, a trechos de Restos de Carnaval, um belo texto de Clarice Lispector. Vamos a ela.  
“E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu”, fala Clarice.
Lembro que as crianças de subúrbio no Recife  também possuíam o mesmo sentimento.
Em frente ao Cinema Império, em Água Fria, passavam, reuniam-se meninos, homens, piratas, colombinas, vedetes, palhaços, toureiros, zorros, ursos, lança-perfumes, bisnagas, perfumes, mulheres, promessas de corpos nus que não podíamos pegar. Havia um suor bom onde se colavam os confetes, umas peles abrasadas, uns sovacos mal raspados que eram em si mesmos fetiches de bocetas nuas, todos comprimidos, esbarrando-se num fogo que desejava a tudo queimar, arder até a alma pobre da gente. Toquem o frevo mais alto. Uma explosão de braços e pernas na dança, uma multidão revolta, uma humanidade negra, mulata, branca, revoltada, que se anunciava, e não sabíamos: atenção, menino, atenção, infância: “nós passaremos”. Toquem o frevo mais alto!
Esse era o carnaval do Recife que vi no tempo de menino. Já o  carnaval de Clarice é uma festa do mundo que se abre para ela. Abre e fecha,  porque na sua crônica há um carnaval de que ela não participava, embora muito o desejasse.
“No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem”.
Aqui uma pausa. Eu morei nesse sobrado. Morar, modo de dizer. Que diferença entre o vivido por mim e o narrado por ela. Eu me pergunto se já na frase de Clarice, “sobrado onde morávamos”, se não há um exagero, uma dignificação, uma elipse, que se não mente, omite. Explico. Se o sobrado inteiro era da sua família, então ela não era tão pobre quanto aparece no relato e na biografia de Benjamin Moser. O mais razoável é supor que  ela e família ocupassem no sobrado apenas uns 3 cômodos, como chamamos no Recife à divisão de espaço cuja unidade é a medida de um quarto simples. Bem sei, de viva morada, quando morei no “sobrado da infância de Clarice Lispector”. Em 1978,  o sobrado  era pensão, um pardieiro de paredes úmidas, e  muitos quartos. Em 78 eu não sabia que ali havia sido a casa da infância de Clarice Lispector. Para mim, até hoje, ele é soturno e irrespirável. Entrar nele, lembro bem, era entrar como os condenados que depois de um dia fora voltam à prisão. O lugar era segregador e irrespirável.  
Nas fotos da web, o “sobrado da infância de Clarice Lispector” aparece pintadinho e recuperado para ser a casa da escritora. Nas imagens, perdeu seu aspecto medonho de pensão de reclusos, virou casa agradável, como pode ser visto aquiMas aqui, mais uma vez, há um cenário pintado. Para escrever estas linhas, ontem voltei ao sobrado de número 387, na praça Maciel Pinheiro. A placa, onde seria lido algo como “aqui viveu a escritora Clarice Lispector na infância”, está escura, com letras apagadas, quase ilegíveis. Um dos mendigos que dormem na calçada, ao me ver em dificuldade para ler a inscrição no alto,  gritou: “É 387”. Na entrada do que foi a pensão e a casa de Clarice, que ficava ao lado, na Travessa do Veras,  por onde eu entrava furtivo, agora está bloqueada por espessa parede com cimento exposto. Mas voltemos à crônica de Clarice.
“No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem”.
Repito o trecho para observar que o carnaval onde os outros se divertiam, quando passavam pelos olhos de Clarice, era o da multidão,  da gente possuída pelo frevo com o diabo no couro. A realidade humana que era, que foi, que é, ganha perenidade na música e na história.
Imaginem uma multidão, seis, oito, dez mil pessoas, imaginem toda essa gente comprimida em um espaço estreito. Imaginem agora que de repente toda essa gente enlouquece, e quer correr, mas não sai do lugar, porque está cercada por todos os lados. Imaginem que essa gente, cada homem, cada mulher, cada menino, todos querem ainda assim abrir espaço à sua volta, e todos querem isto a um só tempo. Imaginem essa gente estimulada, embriagada de álcool e alegria. Imaginem agora essa gente excitada por uma música que não se ouve só com os ouvidos, porque ela se ouve com os braços, as mãos, a boca, os pés. Imaginem, portanto, uma grande massa em fúria. Raiva, alegria e libertação sob ritmo. Isto é o passo, ao som de Vassourinhas em Pernambuco.
Essa era a gente antes do estouro do frevo que passava em frente à porta do sobrado onde a menina Clarice vivia e morava.
“Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.
E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim”
O texto é uma crônica bela, cuja beleza não se extrai do mundo externo, mas do que a escritora traduz da sua exclusão desse mundo, que gira em febre violenta nos três dias de carnaval. Na biografia Clarice, de Benjamin Moser, assim aparece a última vez em que Clarice Lispector voltou ao Recife da sua infância:
“Em 30 de maio de 1976, Clarice e Olga chegaram ao Recife… Ela se hospedou no Hotel São Domingos, na mesma praça Maciel Pinheiro, a pletzele (pracinha) onde passara a infância. A velha casa, em cuja sacada a paralisada Mania (mãe de Clarice) contemplava o mundo em seus últimos dias, e que a família tivera de abandonar por temor de que desmoronasse, seguia desafiando a gravidade. ‘O sobrado só mudou a cor’, disse Clarice. Ela se sentou nos bancos da praça e ficou ouvindo, arrebatada, o dialeto pernambucano característico dos vendedores de frutas”.     
Como relacionar agora, nesse clima de Chopin, o carnaval de Clarice com a felicidade imensa do reconhecimento universal do frevo nestes dias mais recentes? Se o leitor permite um recurso do gênero deus ex machina, ligo as duas pontas de Clarice e o frevo para concluir em três parágrafos. 
O  mundo continua e a vida segue. Nós, os senhores encanecidos, com ar respeitável, mas com um espírito de moleque, devemos saudar os nossos filhos que pulam nas ladeiras e ruas ao som dos clarins de Momo:
“Olinda, quero cantar a ti esta canção, 
Teus coqueirais, o teu sol, o teu mar, 
Faz vibrar meu coração de amor
a sonhar, minha Olinda sem igual,
Salve o teu Carnaval!”
Temos agora a certeza, com algo vivo, que uma cultura não se destrói. Estamos todos bestas, cantarolando com aparência de idiotas, que nunca perdemos, “você diz que ela é bela, ela é bela, sim, senhor. Porém poderia ser mais bela, se ela tivesse meu amor. Bela é toda a natureza, bela é tudo que é belo”. Nem sequer sonhávamos com esse último 5 de dezembro, dia em que se declarou para os quatro cantos que o Frevo é Patrimônio Imaterial da Humanidade. Assim mesmo em maiúsculas. Bela é tudo que é belo, como na canção de Capiba. O frevo venceu e Clarice é bela, concluo.