terça-feira, 8 de julho de 2014

Da euforia à vergonha em 93 minutos

Torcedor cai diante da derrota brasileira. / MIGUEL SCHINCARIOL (AFP)

Da euforia à vergonha em 93 minutos




P. Marcondes / B. Borges / R. Seco
São Paulo, 08/07/2014

Os torcedores brasileiros só queriam que o jogo acabasse logo para que o sofrimento fosse abreviado. Não deu. O placar final de 7 x 1 foi desolador. Houve até quem chegou ao cúmulo de queimar a bandeira do Brasil. Outros recorreram ao bom humor para digerir a tragédia.

s alemães festejam um gol diante de David Luiz e Maicon. / FERNANDO BIZERRA JR. (EFE)

O ‘Maracanazo’ foi uma brincadeira

A devastadora surra da Alemanha no Brasil dá ares de molecagem à afronta de 1950


    Os alemães festejam um gol diante de David Luiz e Maicon. / FERNANDO BIZERRA JR. (EFE)
    O futebol nunca será o mesmo depois de uma noite em Belo Horizonte na qual aconteceu o maior cataclismo desde que a bola rola, há mais de um século. Jamais houve nada igual, nem parecido. O Maracanazo foi uma brincadeira ao lado do 1-7 sofrido pelo Brasil diante de uma Alemanha que o fez morrer de uma overdose de realidade, que o deixou maculado pelo resto da vida pelo seu empenho em dar as costas a uma bola que sempre foi o maior motivo de orgulho de sua gente. O Brasil quis ser o que nunca foi e acabou por deixar todo um país em estado de choque, petrificado, com o coração sem bater.



    O vivido pelo Brasil 64 anos depois do Maracanazo foi ainda mais mortificante. Um trauma para o resto da vida de tal magnitude que aquela afronta do Uruguai já não terá relevância alguma. Comparado à barafunda alemã em Belo Horizonte, resultará em um tropeço qualquer, uma molecagem, por muita liturgia que tivesse. O que aconteceu em Belo Horizonte será difícil de explicar, exigirá roteiristas de primeira e um pelotão de psicólogos, psiquiatras, sociólogos e quantos quiserem se somar a uma cátedra que promete. O ultraje da Alemanha estremeceu todo o Brasil, que esta vez tem muitos Barbosas a condenar por um cataclismo histórico, com Luiz Felipe Scolari e muitos de seus dirigentes à frente. Vai ter de ganhar muito para que em algum século futuro a torcida encontre consolo. A seleção Canarinho não perdeu uma semifinal, padeceu um calvário descomunal, uma hecatombe absoluta. Perder é outra coisa.

    Faz tempo que o Brasil é infiel à bola e a Alemanha, seu novo mecenas, o fez pagar com uma sanha desconhecida na história das Copas. Uma partida perene, daquelas primordiais, e das que deixam sequelas de proporções inimagináveis. Se alguém encontra alívio no Brasil, talvez o futebol brasileiro recupere suas origens e espante de uma vez os que fumigaram sua essência para colocar-lhe uma armadura que não lhe cabia e que em nada garantia o êxito. Um desbotamento absoluto e incompreensível em uma seleção que foi mais do que qualquer outra uma ode à alegria deste jogo. O Brasil de hoje não é uma equipe com fantasia, mas uma brigada de centuriões com mais propaganda que atributos. Scolari teimou em repetir o que fez em 2002, esquecendo que Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo não eram precisamente uns pernas de pau. O modelo era inimitável com Fred, Jô, Hulk e uns tantos luizgustavos, jogadores coadjuvantes em uma Liga sem muito pedigree. Futebol ninguém quis jogar, apenas Neymar.
    Se fosse sobre um ringue, o duelo teria sido qualificado de massacre. A combustão do Brasil —o hino como um haka maori— e todo tipo de gestos inflamados, durou o que demorou Müller para nocautear a defesa doméstica no primeiro escanteio a favor dos visitantes. Müller, que já soma cinco tentos, arrematou na entrada da pequena área, como se estivesse entre coroinhas. Ninguém lhe fez ao menos cócegas. O gol foi uma sacudida para o Brasil, mas quando Klose marcou o segundo, toda a equipe desmoronou de forma calamitosa. Dois minutos depois chegou o terceiro, de Kroos. Se seu tiro foi prodigioso, a jogada, com seis toques de violino sucessivos, foi digna de museu. A equipe de Löw era uma sinfonia.


    Müller e Özil comemoram um gol em frente a Julio César. /BALLESTEROS (EFE)
    Em 20 minutos, a Alemanha executou um escárnio brutal. Kroos parecia Gerson, Khedira, imenso, era Pelé ou quem ele quisesse, e Müller era um clone de Garrincha. Os alemães tratavam a bola de forma vertiginosa, com sulcos contínuos na área de Julio César. Não havia brasileiro capaz de detectar um alemão. O conjunto germânico ganhava todas as batalhas: a técnica, a tática, a física e a anímica. O Brasil era um boneco de pano. A afronta seria maior ainda, sem remédio para um grupo de jogadores de tanga, com sua gente chorando nas arquibancadas. Não era para menos, o que acontecia no campo era cruel, só possível de acreditar se fosse com seleções como El Salvador ou a Coreia do Norte, para citar alguns dos que levaram surras mais o menos similares. Para desgraça dos brasileiros, não era ficção. Aquilo parecia a partida entre Espanha e Holanda, com uma equipe solta e a outra aturdida em um canto qualquer.
    Os gols alemães aconteciam em sucessão. Kroos fez dois seguidos e à festa se juntou Khedira com todo o merecimento, um colosso, com uma agilidade técnica que não se via nele. A Alemanha estava enfeitiçada. Houve tempo para Klose, que com 36 anos destronou o último reibrasileiro. Com seus 16 gols, superou Ronaldo como o melhor goleador das Copas. A história caiu em cima do Brasil: a continuação de Ronaldo é Fred.
    O abuso alemão obrigava a esfregar os olhos, cinco gols nos 10 primeiros arremates. Para o Brasil, o pior pesadelo imaginável teria sido muito mais suportável. Ainda faltava o suplício do segundo tempo e ainda deve jogar pelo terceiro ou quarto lugar. Se não se tratasse de futebol, seria um caso de sadismo. Enquanto o Brasil é uma tormenta de lágrimas, a Alemanha e o mundo inteiro ainda se beliscam. Nada será igual. No futebol não há rastro de um impacto semelhante. Não há forma de medir semelhante terremoto.




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