quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Vargas Llosa / As guerras do fim do mundo

As guerras do fim do mundo
Fernando Vicente


MARIO VARGAS LLOSA

As guerras do fim do mundo

Vinte e cinco anos depois que Fukuyama proclamou o fim da história, civilização e barbárie seguem combatendo no palco global. O inimigo é agora o radicalismo islâmico


6 SET 2014 - 17:00 COT

Francis Fukuyama publicou em 1989 seu famoso artigo sobre o fim da história e, em 1992, o livro no qual ampliou e argumentou sua teoria, explicando que, com o desaparecimento da União Soviética e do comunismo, a democracia não teria alternativas de peso no futuro e iria pouco a pouco se integrando ao mundo em uma civilização global de paz e liberdade.
Quem se atreveria um quarto de século depois a sustentar uma tese tão otimista? Para onde quer que olhemos, a história está mais viva do que nunca, as contradições e negações violentas da cultura democrática são o sinal da época e ganham terreno em toda parte. A URSS e o comunismo desaparecem para todos os efeitos práticos, e os dois últimos Estados comunistas – Cuba e a Coreia do Norte – são duas velharias destinas a serem extintas em pouco tempo. Mas a Rússia, sob a liderança de Vladimir Putin e sua malta de antigos agentes da KGB, ressuscita como uma potência despótica que desafia o Ocidente com sucesso e vai reconstituindo seu império diante dos Estados Unidos e de uma Europa que, com o respaldo de sua respectiva opinião pública, protestam e ameaçam com sanções, mas não entram hoje em guerra pela Ucrânia, já meio devorada pelo gigante russo, nem amanhã pelos Estados bálticos, que provavelmente serão o próximo objetivo do novo imperialismo russo.
A primavera árabe, que despertou tantas esperanças em todo o mundo democrático, está morta e enterrada. Sobrevive milagrosamente na Tunísia, mas desapareceu no Egito, onde as eleições livres levaram ao poder a Irmandade Muçulmana, que começou a instalar uma teocracia excludente e agressiva e foi tirada do governo por uma ditadura militar demente. Na Líbia, a ditadura paranoica de Kadafi acabou em pedaços e seu caudilho foi liquidado, mas o país vive agora uma anarquia sangrenta onde facções religiosas e militares se matam sistematicamente e na qual, sem dúvida, os fundamentalistas islâmicos terminarão prevalecendo.
O caso mais trágico, sem dúvida, é o do Iraque. A intervenção militar destruiu a tirania sanguinária de Saddam Hussein, mas, depois de um breve parêntese no qual parecia que um regime de legalidade e liberdade poderia criar raízes, foi declarada uma guerra sectária entre xiitas e sunitas, e os terroristas da Al Qaeda e outras organizações extremistas islâmicas se fizeram presentes e perpetraram verdadeiras orgias de atrocidades, condição para que um movimento ainda mais cruel e fanático do que a Al Qaeda, o Estado Islâmico, se apoderasse de parte do país da mesma forma que na Síria e instalasse ali um novo Califado, no qual imperam a sharia e demais formas extremas de barbárie, como decapitar, crucificar e enterrar vivos aqueles que se negam a se converter ao ramo fundamentalista do Islã, em que as mulheres são escravizadas e, ainda crianças, entregues como concubinas aos militares e futuros “mártires”.


Nos últimos tempos a causa da liberdade  tem perdido muitas batalhas

O grande movimento de libertação que pegou em armas contra a ditadura de Bashar al Assad na Síria, que em um primeiro momento era dominado pelas forças democráticas e modernizadoras, foi traído pelos países ocidentais, que se ajoelharam para Putin, fornecedor de armas da ditadura, permitindo desse modo que os principais protagonistas da luta contra Assad fossem os fanáticos do Estado Islâmico. Agora, a situação na Síria se tornou uma pantomima grotesca, na qual, como a última alternativa é a pior, os Estados Unidos e a União Europeia consideram bombardear os inimigos do tirano, já que este, mesmo sendo um assassino genocida de seu próprio povo, é um mal menor comparado ao Califado.
Não menos trágica é a situação do Afeganistão, onde o Talibã parece invencível. Durante sua campanha eleitoral, Obama criticou o Presidente Bush, afirmando que este havia se equivocado priorizando o Iraque, quando o verdadeiro perigo para o mundo livre eram os fanáticos talibãs. E, ao subir ao poder, aumentou o número de soldados e de armas para combatê-los. Anos depois, diante do fracasso desse esforço, retirou as tropas, da mesma forma que o resto dos países da OTAN, de modo que ali resta somente uma pequena e simbólica missão militar, e não é improvável que o regime que proibiu as mulheres de estudarem, de exercerem qualquer profissão, que as encarcerou em casa como escravas, restaurou a sharia, destruiu o patrimônio cultural do país e instalou uma ditadura obscurantista medieval, volte ao poder em pouco tempo.
Diante de semelhante barbárie, quem diria, a América Latina parece um exemplo de civilização. Não existem guerras, a maior parte dos países tem eleições mais ou menos livres, e na maioria deles se pratica a convivência na diversidade. Mas seria imprudente celebrar. A mais longa ditadura da história do continente, Cuba, ainda está nas mãos de duas múmias que parecem imortais, e, com a exceção do punhado heroico mas pouco eficiente de resistentes, na ilha se tem a impressão de que nem uma mosca se move sem autorização. E na Venezuela, onde há alguns meses a mobilização dos estudantes parecia ter dado à oposição uma dinâmica ganhadora, Maduro e companhia parecem ter agora consolidado seu poder mediante uma repressão feroz atrasando mais uma vez a hora da libertação. O país está em ruínas, apesar da riqueza de seu subsolo, mas a pobreza, o racionamento, a inflação e a corrupção não são suficientes, como a história já se cansou de demonstrar, para derrubar uma ditadura. Pelo contrário, um povo submetido à carestia, à escassez, ao medo e à mera sobrevivência costuma ficar mais propenso à resignação e à passividade, o que talvez explique a longevidade de tantas ditaduras latino-americanas e africanas.


A primavera árabe que acordou tanta esperança no mundo democrático está morta e enterrada

Essa visão geral do estado da democracia no mundo se turva ainda mais se analisarmos a profunda crise que atravessa a União Europeia, o mais ambicioso projeto contemporâneo da cultura da liberdade. A unidade europeia trouxe enormes benefícios aos países do velho continente, entre outros fazê-los viver o mais longo período de paz e convivência de sua história. Mas nos últimos anos, sobretudo em decorrência da crise econômica e financeira, o questionamento da Europa em seu próprio seio cresceu com o retorno dos nacionalismos e de forças de extrema esquerda e de extrema direita que rechaçam a União, querem acabar com o euro e voltar às velhas nacionalidades. De fato, a primeira força política é hoje, na França, a Frente Nacional, um partido neofascista que quer liquidar a moeda única e a integração da Europa. Todas as pesquisas dizem que no Reino Unido a maioria dos cidadãos quer sair da União e que o referendo sobre o assunto, que o Governo prometeu convocar, teria a derrota dos europeístas. Sem a Grã-Bretanha, a Europa nasceria mutilada.
O que concluir dessa deprimente visão panorâmica da eterna luta entre a civilização e a barbárie? Que esta última avança incontida e terminará por derrotar aquela? Isso seria tão falso como sustentar, agora, a tese lançada há um quarto de século por Francis Fukuyama sobre a irreversível vitória da democracia. A batalha segue de pé, com alternativas flutuantes, e somente em um sentido – ainda que importantíssimo – se pode dizer que a democracia ganha pontos. Diferentemente do comunismo, um mito capaz de seduzir muita gente com seu sonho igualitarista, o fundamentalismo religioso islâmico, hoje o principal adversário da civilização, só pode convencer os já convencidos, pois suas ideias e paradigmas são tão primitivos e pré-históricos que condena a si mesmo a ser derrotado cedo ou tarde por agentes exteriores ou por decomposição interna. Essa guerra nunca será ganha por ninguém de forma definitiva; batalhas serão ganhas e perdidas, e, isso sim, o realista seria reconhecer que, nos últimos tempos, a causa da liberdade vem perdendo muito mais vezes do que ganhando.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Vargas Llosa / Elogio do qi gong

Elogio do qi gong
Fernando Vicente


MARIO VARGAS LLOSA

Elogio do qi gong

Uma técnica milenar chinesa facilita a quem a pratica a placidez física e mental e permite experimentar confiança e tranquilidade para enfrentar o que vier


23 AGO 2014 - 17:00 COT

Já faz 27 anos que Patricia e eu jejuamos, a cada verão, em uma clínica de Marbella. Fizemos isso a primeira vez por causa de uma amiga que falava com tanto entusiasmo da experiência que nos encheu de curiosidade. Gostamos e não poderíamos nos privar destas três semanas de água, exercícios, natação, caminhadas e sopas. Algo bom deve ter o jejum pois sua prática faz parte da história de todas as religiões ocidentais e orientais. Mas, talvez, associá-lo estreitamente ao espiritual seja um corte muito profundo e o desnaturalize. Se o que se trata de entender ou procurar é os transes dos místicos, melhor ler Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz do que vir até a Clínica Buchinger.
No meu caso, o jejum tem por finalidade desagravar meu pobre corpo das duras servidões às quais o submeto no resto do ano, com as viagens, jornadas de trabalho exageradas, compromissos sociais - os horríveis coquetéis - e culturais, assim como as demais tensões, preocupações, sobressaltos e vigílias da vida cotidiana. Aqui eu deito cedo e me levanto ao amanhecer, dedico todas as manhãs ao esporte e as tardes, a escrever e ler. Quando jejuamos, a concentração e a memória se debilitam, mas, mesmo assim, na paz destes suaves crepúsculos, debaixo da sombra da misteriosa La Concha, a montanha que permite o clima privilegiado de Marbella e a beleza de seus jardins, escrevi sempre com mais facilidade do que em qualquer outro lugar.
Perder os quilos que nos incomodam é uma das boas consequências do jejum, mas de jeito nenhum a mais importante. A principal, acho, é a sensação de limpeza e a equanimidade que costuma alcançar quem priva seu corpo de alimento e deste modo o induz a se alimentar daquilo que sobra. Para que isso ocorra, não basta apenas o jejum; é preciso uma intensa atividade física que estimule aquele processo. Aqui há exercícios para todos os gostos, pilates, aeróbicos, montanhismo, algumas variedades de yoga. Se eu tiver que escolher apenas uma entre essas várias atividades, fico com o Qi Gong.
Não o estudei e, para dizer a verdade, não tenho muito interesse em averiguar sua tradição e sua filosofia, pois tenho medo de que, se me aventurar a rastrear esse aspecto teórico do Qi Gong, vou me encontrar com uma dessas retóricas pegajosas, meio tontas e pseudorreligiosas com que se costuma dignificar as artes marciais. Para mim, basta saber que é uma prática chinesa milenar, que em algum momento remoto se separou do tronco comum do Tai Chi e que, além de ser exatamente o oposto de uma “arte marcial”, de algum modo difícil de explicar, mas evidente para quem treina todos os dias, tem a ver intimamente com o sossego individual e, como projeção máxima, com a civilização e a paz.


Não conheço melhor remédio para o mau humor ou a desmoralização

É preciso ter muita paciência e confiança a princípio para deixar-se seduzir por esses movimentos tão lentos e espaçados que, para o novato, não parecem, no começo, mais que uma forma diferente da respiração à qual estamos acostumados. Minha mulher, por exemplo, a impaciência e o dinamismo encarnados, ficava tão entediada nas sessões que o trocou por outros esportes mais belicosos. Mas essa infinita lentidão com que movemos os braços e as pernas, o tronco e a cabeça, enquanto vamos passando de uma postura para outra do Qi Gong é precisamente uma das técnicas que essa arte usa para conseguir que o praticante vá eliminando essas tensões instintivas e efervescentes que são a raiz da violência humana. Trata-se, como em qualquer outro empenho criativo, de buscar a perfeição. Por isso, convém treinar na frente de um espelho. Ali, a imagem nos revela que, por mais esforço que coloquemos a fim de alcançar a harmonia, a elegância, o equilíbrio e a beleza de um movimento sem erros, sempre estamos abaixo do ideal. E também, para se aproximar desse ideal e tentar alcançá-lo, a concentração mental é tão importante quanto a destreza física. Essa é uma maneira muito concreta e ao alcance de qualquer um de descobrir um princípio fundamental: que a forma cria o conteúdo, não apenas no domínio das artes e das letras, mas também no dia a dia das pessoas e que tudo aquilo que é realizado com serenidade e com a perfeição coreográfica das posturas do Qi Gong constitui uma forma sutil de beleza.
Digam o que quiserem, as artes marciais não são inocentes: querem aproveitar o que existe de primitivo e bestial no ser humano para convertê-lo em uma máquina de matar, aperfeiçoar sua inata violência bruta e transformá-la em uma força destrutiva organizada e capaz de aniquilar o adversário, assim como, de um único golpe, o braço musculoso do mestre pode partir em duas uma pilha de tijolos. O Qi Gong, por outro lado, quer liberá-lo dessa agressividade congênita e ajudá-lo a descobrir que a vida poderia ser melhor se, ao mesmo tempo em que descarregamos a ferocidade que nos habita, cada uma de nossas ações for realizada com a delicadeza e a calma com que executamos os movimentos que formam sua prática.


As artes marciais não são inocentes querem aproveitar o que há de bestial no ser humano

Esses movimentos têm, todos, belas metáforas para descrevê-los. Afastar as mãos é “separar as águas”, empinar-se com os braços levantados e os pés bem assentados no chão seria “segurar a terra e o céu para que não se choquem”, passar as mãos de cima para baixo na frente do corpo, “banhar-se com a chuva”, girar sobre si mesmo seria transformar-se em “uma árvore tocada pelo vento”, ou, bem quietos, o organismo invadido por uma terna sensação morna, “sentir” a coluna vertebral, as batidas do coração, o fluxo do sangue. Graças a essa dança quieta, o ar que respiramos não apenas chega aos pulmões, mas também circula por todo nosso corpo, da cabeça aos pés.
Uma sessão completa de Qi Gong não dura mais do que meia hora e pode ser feita por pessoas de qualquer idade e condição física, mesmo as mais desgastadas. Ao terminar, sentimos uma extraordinária serenidade física e mental, como se o maltratado corpo nos agradecesse ter-lhe dedicado, nesse breve espaço de tempo, tanta atenção, tanto carinho respeitoso. Não conheço melhor remédio para o mau humor ou a desmoralização, os nervos exaustos ou os acessos de fúria, esses estados de ânimo nos quais a vida parece não ter sentido nem justificativa. Curiosamente, de uma sessão de Qi Gong tampouco saímos exaltados e dançando de alegria, mas tranquilos, com a melhor disposição, mais equilibrados para enfrentar o que vier e, também, mais conscientes de que a vida, apesar do que há de incompreensível e doloroso nela, é a mais linda aventura.
Esse é, no final, o caminho da paz e da civilização: colocar um freio na besta sem piedade, ávida de desejos - alguns elevados e outros sanguinários, como explicaram Freud e Bataille -, que também arrastamos dentro de nós e que, quando escapa das grades em que é mantida pela civilização e a cultura, provoca os cataclismos que marcam o acontecer humano.
Meu primeiro professor de Qi Gong foi um médico cubano que o tinha aprendido na China e que passava todas suas férias ali, aperfeiçoando sua técnica. A segunda é Jeannete, uma jovem alemã, tão graciosa e flexível que, durante as sessões, parece, em meio a giros e evoluções, sempre a ponto de levitar e desaparecer. Acompanha as práticas com uma música chinesa discreta, lânguida e repetitiva, e sua voz vai, mais que ordenando, persuadindo os alunos a se abandonarem no absorvente ritual em prol da saúde, beleza e serenidade.
Conseguiu me convencer. A ponto de que me atrevo a sonhar que se os bilhões de bípedes deste planeta dedicassem meia hora a cada manhã ao Qi Gong talvez houvesse menos guerras, miséria e sofrimento, e comunidades mais sensíveis à razão que à paixão que - não é mais impossível - poderia terminar despovoando esta nossa terra.




quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Netflix confirma uma temporada final de ‘House of Cards’ sem Kevin Spacey


Robin Wright


Netflix confirma uma temporada final de ‘House of Cards’ sem Kevin Spacey

A sexta e última parte terá oito capítulos e Robin Wright será sua protagonista


EL PAÍS
Madri 4 DEZ 2017 - 15:05 COT


Netflix finalmente se pronunciou sobre o futuro de House of Cards, cuja produção tinha sido suspensa indefinidamente depois das denúncias por abusos sexuais contra seu protagonista e produtor executivo, Kevin Spacey. Ted Sarandos, diretor de conteúdos da plataforma online, confirmou que a produção da sexta e última temporada de House of Cards será retomada no início de 2018 e disse que Robin Wright será a protagonista.
A sexta temporada, que será mais curta que o habitual, com apenas 8 capítulos (as temporadas passadas tiveram 13), tentará dar “um fecho à série para os fãs” e devolver ao trabalho as 2.000 pessoas envolvidas de alguma forma em sua realização, como disse Sarandos na Conferência Global de Comunicações e Mídia da UBS em Nova York.
Robin Wright

A produção da série foi suspensa em 31 de outubro, depois que foram divulgadas as primeiras denúncias de abusos sexuais por parte de Spacey. A previsão inicial era que os trabalhos de produção seriam retomados depois do feriado de Ação de Graças (23 de novembro), mas os roteiristas continuam trabalhando nos textos, dos quais terá de desaparecer o personagem vivido por Spacey, Frank Underwood, coprotagonista da história. Ainda não se esclareceu como ocorrerá a saída do personagem da série, embora o final da temporada passada já tenha deixado Claire Underwood, interpretada por Robin Wright, um passo à frente de seu marido. Ela começou inclusive a falar diretamente para a câmera, algo que só Frank Underwood tinha feito.
Entre as acusações divulgadas nas últimas semanas contra Spacey estão as de vários membros da equipe de House of Cards, que o acusaram de criar um ambiente de trabalho “tóxico” e de se comportar como um “predador sexual”.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Hilda Hilst / Contra o medo de nomear o corpo humano da cintura para baixo

Hilda Hilst em sua casa em Campinas


Hilda Hilst, contra o medo de nomear o corpo humano da cintura para baixo

Flip 2018 homenageia a poetisa, que em vida foi considerada uma escritora hermética


São Paulo 
5 DEZ 2017 - 16:27 COT


De Hilda Hilst já se disse que era temperamental. Completamente avessa a refreamentos ou moderações, vivia apetites e paixões sem reservas. Não é necessário mais que um contato breve com sua obra para que se perceba isso. Poetisa, dramaturga, romancista, escreveu incansavelmente sobre amor, morte, loucura, transcendência e sexo. Em vida, foi tachada de autora difícil, hermética. Enxergava os comentários sobre esse suposto hermetismo, contudo, como resultado do fato de que ela não fazia o que se esperava de uma mulher – não escrevia sobre o que se devia e nem vivia como se devia. Colocou a literatura na frente de tudo, não constituiu família, viveu mil amores.


Nasceu em 1930, em Jaú, no interior de São Paulo, morreu também no interior, em Campinas, em 2004. Nos últimos 13 anos – como prova irônica de que estava certa quando disse que “parece que os críticos adoram escritor morto, você tem que morrer para ser lembrado” –, começou a ganhar destaque contínuo. Agora, será a homenageada do maior festival de literatura do Brasil, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontecerá entre 25 e 29 de julho de 2018. A curadora do evento, Josélia Aguiar, vê, apesar de todas as diferenças evidentes – ele um cronista do social, ela mais existencial –, pontos de contato entre Hilst e o homenageado da última edição da Flip, o escritor carioca Lima Barreto.
Para além do fato de que ambos tiveram reconhecimento limitado em vida – Hilst ironizava dizendo que seus leitores faziam parte de uma organização secreta, como a KGB –, há o fato dos dois terem se entregado completamente à escrita. “O Lima Barreto costumava dizer que ou a literatura o matava ou lhe dava o que ele pedia. A frase serve também para a Hilda”, comenta Aguiar. Além disso, são figuras transgressoras. “Lima, um homem negro, intelectual e com ideias politicamente fora de seu tempo. Hilda, uma mulher livre, que viveu e escreveu como quis”, complementa a curadora.
De sobrenome quatrocentão, Hilda de Almeida Prado Hilst lançou seu primeiro livro de poesias, Presságio, aos 20 anos. Aos 22, formou-se em Direito no Largo São Francisco. Em uma reportagem do jornalista Humberto Werneck, publicada no Jornal do Brasil, em 1990, a escritora Lygia Fagundes Telles descreve assim Hilst, sua amiga mais íntima: “um tipo magrinho, esgalgado, parecendo uma folha de avenca, que chamava a atenção e escandalizava São Paulo, e não apenas por fumar de piteira e esbanjar palavrões”, mas também por ser emancipada e tomar à frente quando o assunto era conquistas amorosas – tudo o que uma moça da sociedade não fazia.
Menos pelo seu comportamento e mais pelo que escrevia, contudo, foi que encontrou dificuldades. “Se Hilda fosse homem já a teriam saudado como um de nossos escritores mais criativos”, dizia a escritora e amiga Heloneida Studart. Some-se a isso o fato de que a temática de seus textos não era usual e o estereótipo de “escritora difícil” está pronto. “Suas influências são interessantes, tem profundo contato com Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke e Saint-John Perse, mas no Brasil encontra pouco paralelo. É algo mais parecido com Cecília Meirelles, que adorava seu trabalho, mas muito diferente de João Cabral de Mello Neto, por exemplo”, diz a curadora da Flip.
Aos sete anos, descobriu que o pai, um fazendeiro com pendores poéticos, era esquizofrênico. A doença paterna perseguiu Hilst e sua escrita. “Sempre me pergunto por que Freud privilegiou Édipo e não Mirra, a incestuosa, que embriagou o pai e engravidou dele, parindo Adônis. Sempre procurei meu pai. Sempre quis ter alguma semelhança com ele”, disse em entrevista ao Jornal do Brasil, em 1989. A relação (ou falta de, já que nunca conviveu com o pai são) também era uma constante em sua literatura, assim como o papel que deveria ocupar na sociedade. “Aflição de ser eu e não ser outra./ Aflição de não ser, amor, aquela/ Que muitas filhas te deu, casou donzela/ E à noite se prepara e se adivinha”, escreveu em 1959, no livro Roteiro do Silêncio.
A Obscena Senhora Silêncio, documentário dirigido por Leandra Lambert e Alexandre Gwaz, no final da vida da escritora, em sua casa em Campinas.
Sua devoção à escrita era total – “a única coisa que não é permitida na literatura é mentir”, disse em mais de uma ocasião –, sua produção febril. São 28 livros. E ainda há coisa inédita. Prova disso é que em 1966, com pouco mais de 30 anos, abandonou o círculo social e cultural de São Paulo e se mudou para a Casa do Sol, sua chácara em Campinas, onde viveu até o fim da vida e onde hoje está todo seu acervo. “O espaço foi desenhado todo como se fosse um convento, com a única intenção de estimular a literatura e a escrita”, diz Aguiar. Lá, Hilst, às vezes com mais de uma dezena de cachorros, levou uma vida afastada dos círculos literários da capital paulista, mas permaneceu de portas abertas para receber amigos e aspirantes a escritores.
No começo dos anos 1990, deu uma guinada e passou a escrever textos que foram tachados, muitas vezes, de pornografia. Críticos que sempre apoiaram seu trabalho, como Leo Gilson Ribeiro – “Hilda é a mais perfeita escritora viva em língua portuguesa”, “Há vários anos representa a mais abissal e deslumbrante prosa poética do Brasil posterior à genialidade de Guimarães Rosa” –, foram pegos de surpresa com a virada. À imprensa ela declarava: “Eu não vou escrever mais nada, a não ser grandes e, espero, adoráveis bandalheiras”. Assim, por exemplo, saiu o satírico Caderno Rosa de Lori Lamby, o diário de uma menina que, com apenas oito anos e incentivada por sua mãe, passa a se prostituir.
“Toda essa discussão sobre nudez na TV e coisas assim parecem coisa vitoriana. Penso sempre em Theodor Schroeder, que diz que não existe um quadro ou livro pornográfico, existe é um olhar diante daquilo. Todo mundo tem medo de nomear o corpo humano da cintura para baixo, isso é um absurdo”, disse em entrevista ao amigo Caio Fernando Abreu ao comentar as críticas que recebeu quando mudou o tom de sua obra. Segundo Aguiar, com Hilda nada é literal e, por isso, esse é o melhor momento do país para que ela seja homenageada. “Com ela, as coisas são complexas, menos delicadas, nunca óbvias, e não trazem respostas prontas”.

FINANCIAMENTO DA FLIP

A última edição da Flip foi marcada por uma diminuição de seu orçamento e, por isso, muita coisa mudou durante o evento. A principal mudança, foi espacial. Antes, as mesas de discussão entre os escritores acontecia em uma tenda externa, criada especialmente para o evento. Desta vez, tudo aconteceu dentro da Igreja da cidade, o que acabou por criar uma aproximação entre autores e público. Agora, a Flip busca novas formas de financiamento e, para isso, criou um Programa de Patronos às pessoas físicas interessadas em contribuir com o evento. Mais informações podem ser lidas aqui.





segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Vargas Llosa / O passado imperfeito

O passado imperfeito
Fernando Vicente

MARIO VARGAS LLOSA

O passado imperfeito

Os grandes anais da inteligência no Paris após a II Guerra eram mais os estertores da figura do intelectual e os últimos instantes de uma cultura derramada na rua


26 JUL 2014 - 17:22 COT

Acaba de ser reeditado nos Estados Unidos um livro de Tony Judt que apareceu pela primeira vez em 1992 e que eu não conhecia: Past Imperfect: French Intellectuals, 1944-1956. Impressionou-me muito porque eu vivi na França por cerca de sete anos, em um período - 1959-1966 - ainda impregnado pela atmosfera e pelos preconceitos, acrobacias e desvarios ideológicos que o grande ensaísta britânico descreve em seu ensaio com tanta severidade e erudição.
O livro pretende responder a esta pergunta: por que, nos anos do pós-guerra europeu e até meados da década de setenta, os intelectuais franceses, de Louis Aragon a Sartre, de Emmanuel Mounier a Paul Éluard, de Julien Benda a Simone de Beauvoir, de Claude Bourdet a Jean-Marie Doménach, de Maurice Merleau-Ponty a Pierre Emmanuel etc., foram pró-soviéticos, marxistas e companheiros de viagem do comunismo? Por que escritores e pensadores europeus acabaram sendo os últimos a reconhecer a existência do Gulag, da brutal injustiça dos julgamentos stalinistas em Praga, Budapeste, Varsóvia e Moscou que mandaram revolucionários comprovados para o paredão? Houve exceções ilustres, com Albert Camus, Raymond Aron, François Mauriac e André Breton entre eles, mas foram escassas e pouco influentes em um meio cultural no qual as opiniões e os posicionamentos dos primeiros prevaleciam de maneira esmagadora.
Judt pinta um quadro de grande rigor e leveza do renascer da vida cultural na França após a libertação, uma época em que o debate político impregna todo o movimento filosófico, literário e artístico e permeia os meios acadêmicos, os cafés literários e revistas como Les Temps ModernesEspritLes Lettres Françaises e Témoignage Chrétien, que passam de mão em mão e alcançam tiragens notáveis. Comunistas e socialistas, existencialistas e cristãos de esquerda, seus colaboradores divergem sobre muitas coisas, mas o denominador comum é um anti-americanismo sistemático, a convicção de que entre Washington e Moscou a primeira representa a incultura, a injustiça, o imperialismo e a exploração, e a última o progresso, a igualdade, o fim da luta de classes e a verdadeira fraternidade. Não chegam todos aos extremos de um Sartre, que, em 1954, após sua primeira viagem à União Soviética, afirma, sem o menor pudor: “O cidadão soviético é completamente livre para criticar o sistema”.
Nem sempre se trata de uma cegueira involuntária, derivada da ignorância ou da mera ingenuidade. Tony Judt mostra como ser um aliado dos comunistas era a melhor maneira de limpar um passado contaminado pela colaboração com o regime de Vichy. É o caso, por exemplo, do filósofo cristão Emmanuel Mounier e de alguns de seus colaboradores na Esprit, que, no início da ocupação, tinham sido seduzidos pela chamada experiência de nacionalismo cultural Uriage, patrocinado pelo governo, até que, advertidos de que era manipulada pelas forças nazistas da ocupação, se distanciaram. E eu me recordo que, no princípio dos anos setenta, diante de alguns manifestantes universitários que queriam impedi-lo de falar e citavam Sartre, André Malraux respondeu a eles: “Sartre? Eu o conheço. Fazia suas peças de teatro serem representadas em Paris, aprovadas pela censura alemã, enquanto a Gestapo me torturava”.
Tony Judt diz que, além da necessidade de fazer esquecer um passado politicamente impuro, por trás do esquerdismo dogmático desses intelectuais havia um complexo de inferioridade do meio cultural, pela facilidade com que a França se rendeu aos nazistas e aceitou o regime fantoche do Marechal Pétain, e foi libertada de maneira decisiva pelas forças aliadas lideradas pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha. Ainda que tenha existido, sem dúvidas, uma resistência local e uma participação militar (gaullista e comunista) na luta contra o nazismo, a França jamais teria conquistado sozinha sua própria libertação. Isso, somado à substancial ajuda que recebia dos Estados Unidos para seus trabalhos de reconstrução, através do Plano Marshall, teria disseminado um ressentimento que pode explicar, segundo Judt, essa doença infantil do esquerdismo pró-stalinista que marcou sua vida intelectual entre 1945 e os anos sessenta.
No polo oposto, destaca-se a figura de Albert Camus. Nos anos cinquenta, não era necessária apenas lucidez para condenar os campos soviéticos de extermínio e os julgamentos duvidosos; também era preciso uma grande coragem para enfrentar uma opinião pública tendenciosa, a demonização de uma esquerda que tinha o controle da vida cultural e uma ruptura com seus antigos companheiros de resistência. Mas o autor de O Homem Revoltado não hesitou, afirmando, contra tudo e contra todos, que dissociar a moral da ideologia, como fazia Sartre, era abrir as portas da vida política ao crime e às piores injustiças. O tempo lhe deu razão e por isso as novas gerações continuam lendo suas obras, enquanto a maior parte dos que então eram os mestres da vida intelectual francesa foi engolida pelo esquecimento.




Sartre assegurou, sem vergonha, que na URSS havia completa liberdade para criticar o sistema

Um caso muito interessante, que Tony Judt analisa detalhadamente, é o de François Mauriac. Resistente desde o primeiro momento contra os nazistas e Vichy, suas credenciais democráticas eram impecáveis na época da libertação. Isso o permitiu enfrentar, com argumentos sólidos, a maré pró-stalinista e, sobretudo, como católico, os progressistas da Esprit e da Témoignage Chrétien, que em muitas ocasiões, como durante as polêmicas sobre o Gulag desatadas pelos testemunhos de Viktor Kravchenko e de David Rousset, serviram de meros porta-vozes das mentiras inventadas pelo Partido Comunista francês. Por outro lado, tanto em suas memórias quanto em seus ensaios e colunas jornalísticas, ele se adiantou a todos os seus colegas ao iniciar uma profunda autocrítica dos delírios de grandeza da cultura francesa, em uma época na qual – ainda que muitos poucos além dele tenham percebido na ocasião – ela entrava justamente em um declínio do qual até hoje não conseguiu sair. Nunca gostei dos romances de Mauriac e por isso descartei seus ensaios; mas este livro Past Imperfect de Judt me convenceu de que cometi um erro.
No entanto, nem tudo é convincente no livro. É imperdoável que, além de Camus, Aron e outros, a obra não faça menção a Jean-François Revel, que, desde o fim dos anos cinquenta, travava também uma batalha bastante intensa contra os símbolos do stalinismo. Ou que não ressalte suficientemente a denúncia do colonialismo e o apoio às lutas do Terceiro Mundo para se livrar das ditaduras e da exploração imperial, que foi um dos cavalos de batalha e talvez o aporte mais positivo de Sartre e de muitos de seus seguidores na época.
Por outro lado, ainda que a dura crítica de Tony Judt ao que chama de “anestesia moral coletiva” dos intelectuais franceses seja, feitos os cálculos, justa, ele omite algo que nós que de alguma maneira vivemos aqueles anos dificilmente poderemos esquecer: a vigência das ideias, a crença – por vezes exagerada – de que a cultura em geral, e a literatura em particular, desempenhariam um papel de primeiro plano na construção daquela futura sociedade na qual a liberdade e a justiça finalmente se uniriam de maneira indissolúvel. As polêmicas, as conferências, as mesas redondas no auditório lotado da Mutualité, o público ávido, principalmente de jovens, que acompanhava tudo aquilo com fervor e prolongava os debates nos bistrôs do Quartier Latin e de Saint Germain: impossível lembrar-se de tudo isso sem nostalgia. Mas é verdade que foi bastante efêmero, menos relevante do que acreditávamos, e que o que então nos pareciam ser os grandes anais da inteligência eram mais os estertores da figura do intelectual e os últimos instantes de uma cultura de ideias e palavras, não limitada aos seminários do meio acadêmico, mas sim derramada sobre os homens e as mulheres das ruas.