sexta-feira, 20 de abril de 2018

Veneza / Uma cidade que naufraga com seus turistas


Navio entrando em Veneza  GETTY


Veneza, uma cidade que naufraga com seus turistas

Cidade italiana está ameaçada de perder o título de patrimônio da humanidade por causa de cruzeiros


DANIEL VERDÚ
20 NOV 2017 - 15:51 COT

Veneza é um parque temático de luxo em que a pessoa paga, olha e fica calada. Esse é mais ou menos o resumo feito na semana passada por seu prefeito, Luigi Brugnaro, para justificar que um restaurante próximo da praça São Marcos cobrasse a uma família de três pessoas que não falava italiano 526,50 euros (2.010 reais). Os turistas, indignados porque lhes tinham trazido pratos que não haviam pedido, pagaram a conta e escreveram uma carta ao prefeito porque essas coisas “podem arruinar a reputação de Veneza”. Não queriam reembolso, disseram. Só lamentar o ocorrido. A resposta de Brugnaro em uma entrevista à Sky 24 foi ainda mais surpreendente: “A pessoa come e bebe, e depois diz não saber italiano. Se você vem à Itália, aprenda a língua, e até um pouco de veneziano. Comeram uma lagosta e nem sequer deixaram gorjeta”. Uma explicação, em suma, que fala de todo um modelo.
A superexploração turística de Veneza, a cidade do mundo mais afetada por este setor (55.000 habitantes para 24 milhões de visitantes por ano) se aprofundou com a chegada dos navios de cruzeiro. Este ano desembarcaram 2,5 milhões de passageiros e o encanto de sua laguna voltou a se transformar em um grotesco postal com barcos gigantes a poucos metros do Palácio Ducal. Por isso, o Governo aprovou, para entrar em vigor em janeiro de 2018, a redução gradual no tráfego dessas megaembarcações. Por ora, o acesso ficará aberto aos com menos de 55.000 toneladas; os que superem esse peso serão desviados à passagem de Malamocco e atracarão no porto de Marghera, em Mestre.
Isto será suficiente? A medida responde a uma das condições impostas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) para evitar que Veneza fosse eliminada da lista de cidades patrimônio da humanidade. Um plano para que o frágil ecossistema urbano de 455 pontes que unem as 118 ilhas da cidade não fique à deriva. Mas o projeto anunciado pelo Ministério da Infraestrutura e Transportes italiano não convenceu as organizações, que recolheram 18.000 assinaturas em defesa da remoção completa dos navios de cruzeiro da Laguna e seu desvio para Trieste. No momento todos os dias continuam atracando até seis cruzeiros com 4.000 pessoas a bordo.
A verdade é que Veneza se converte rapidamente em um belo cenário cada vez mais vazio. Sua população se reduziu em dois terços desde meados do século passado, também pelos estragos causados pela aqua alta – as marés que inundam os pontos mais baixos da cidade. Hoje continua a cair a um ritmo de 1.000 pessoas por ano, enquanto no mesmo período chegam mais turistas que destroem o tecido comercial e residencial. Em 12 de julho, o chefe da polícia restringiu o número de participantes e barcos na festa do Redentore. Em seguida se falou em frear o fluxo em toda a cidade, colocando obstáculos ou cobrando entrada: a caixa de pandora definitiva para a picaretagem. Mas não seria estranho, levando-se em conta que os italianos têm que pagar para ter acesso à maioria das praias.



quarta-feira, 18 de abril de 2018

Veneza não esquece Casanova, seu libertino universal



Veneza não esquece Casanova, seu libertino universal

A cidade inaugura o primeiro museu do mundo dedicado ao escritor e aventureiro


ÁLEX VICENTE
Veneza 15 ABR 2018 - 17:12 COT

Quando Carlo Parodi se mudou para Veneza, há alguns anos, se pôs a seguir o rastro de seu herói da infância, Giacomo Casanova, que nasceu na cidade italiana em 1725. O empresário lombardo descobriu que havia um único local para recordar sua memória. E que não estava necessariamente à altura de tão lendário personagem: uma simples placa comemorativa instalada na rua Malipiero, discreta travessa ao lado do Grande Canal, onde Casanova nasceu e cresceu. Toda vez que passava por ali, descobria turistas amontoados em frente à inscrição, imortalizando o momento com uma selfie. “Pensei comigo que não era possível que essa fosse sua única marca em toda Veneza. Precisava fazer algo para resolver isso”, explica Parodi, que se dedica à importação de prosecco no Reino Unido.
Decidiu criar um museu, o primeiro dedicado ao escritor e aventureiro em todo o planeta, que abriu as portas semana passada, coincidindo com o 220º aniversário da morte de Casanova. Situado em um palacete dos anos 1400 no bairro de Cannaregio, o chamado Casanova Museum and Experience é mais experiência que museu.
Casanova é como um iceberg: só conhecemos uma parte minúscula dele
Parodi fez uma aposta diferente da de um museu tradicional. Para começar, sua coleção se limita a alguns livros e objetos. Que ninguém espere uma rigorosa orientação científica, ainda que os textos sejam abundantes e bem documentados. Mas seu perfil é sem dúvida lúdico. Ao cruzar a porta, o visitante coloca óculos de realidade virtual e com isso consegue transformar-se em Casanova e viver as mesmas andanças que o personagem protagonizou na cidade de onde teve de escapar três vezes, ao ver-se perseguido por seus costumes libertinos. “Não é um artista que pintou quadros que agora possamos contemplar. Na verdade, creio que é sua vida que é uma obra de arte”, afirma Parodi. “Por isso era conveniente encarnar o personagem e assim entender quem foi.” O designer Roberto Frasca, encarregado dos aspectos tecnológicos, completa: “Este é um museu da experiência, onde o visitante deve ser o protagonista e não um ser passivo que observa atrás de uma vitrine”.
Retrato de Casanova
Retrato de Casanova GETTY
Ao longo de seis salas, o museu explora todas as facetas de sua biografia. Diferentes hologramas e vídeos evocam sua vida e sua obra, entre vestidos de época e projeções de quadros do Canaletto, e até um quarto onde o visitante é testemunha de seus rituais de acasalamento. Apesar de tudo, a principal obsessão de Parodi foi a de destacar-se do mito do qual Casanova acabou sendo vítima. “Foi um grande sedutor, mas também um grande literato, músico, cientista, diplomata e agente secreto”, afirma o fundador do museu. “Casanova é como um iceberg: só conhecemos uma parte minúscula dele. Quis lhe devolver sua complexidade e ecletismo.” O novo museu recorda que conviveu com personagens como Rousseau, Voltaire e Mozart. Um aplicativo para celular completa a visita e permite percorrer vários pontos da cidade vinculados a Casanova, como o Sottoportego dei Do Mori ou o Caffé Florian, onde Casanova encontrava suas conquistas. “É uma ideia importante recuperar esse personagem histórico e voltar a situá-lo neste belo lugar. Se Casanova é um veneziano por excelência, é porque esta não é a cidade de quem nasce aqui, mas de quem decide retornar a ela”, explicou o prefeito de Veneza, Luigi Brugnaro, durante a inauguração.
Casanova morreu na Boêmia, onde trabalhou como bibliotecário depois de cair no esquecimento e na miséria
Este é o primeiro museu Casanova, mas não será o último. No fim de 2018, Parodi abrirá outro centro idêntico em Praga, recordando que o aventureiro faleceu na Boêmia, onde trabalhou como bibliotecário a serviço do conde de Waldstein, depois de cair no esquecimento e na miséria. Também está finalizando uma versão itinerante da exposição que passará por algumas das cidades onde viveu: São Petersburgo, Paris, Londres e “uma cidade espanhola”, ainda a ser determinada. Em seu tempo, Casanova passou por Madri, Barcelona, Valência e Zaragoza entre 1767 e 1768, depois de expulso de Paris por seus indecorosos costumes. Fugiu depois de ser perseguido pela Inquisição e expulso da capital catalã, onde passou seis semanas em sua Ciudadela. Mais de dois séculos depois de sua morte, Casanova voltará a percorrer a geografia europeia.

FASCÍNIO PERMANENTE

Desde que suas exaustivas memórias de 3.500 páginas, História de minha vida, foram reeditadas nos anos 1960, depois de terem sobrevivido a um bombardeio dos aliados em Leipzig, Casanova voltou a se tornar objeto de fascínio. No fim do percurso, o museu veneziano passa em revista os filmes que se inspiraram em sua vida, dirigidos por todo tipo de cineastas, de Federico Fellini a Albert Serra. Numerosas biografias tentaram decifrar a chave de sua existência. Uma delas, assinada pela psicanalista Lydia Flem nos anos noventa, considerou-o um personagem pré-feminista e abrangeu sua sexualidade fluida e suas experiências com homens e mulheres. Outra mais recente, publicada em 2016, por Laurence Bergreen, destaca as carências afetivas que teriam sido provocadas pelo abandono de sua mãe, atriz que o deixou a cargo de sua avó e nunca lhe deu o amor de que necessitava. A Biblioteca Nacional da França adquiriu o manuscrito de História de minha vida em 2010 por 7 milhões de euros (cerca de 21 milhões de reais) o que o transformou na peça mais cara de sua coleção.
EL PAÌS



sábado, 31 de março de 2018

Daniela Vega, a atriz transexual que fez história no Oscar


Vega, durante a cerimônia 

Daniela Vega, a atriz transexual que fez história no Oscar

Atriz de ‘Uma Mulher Fantástica’, ganhador de melhor filme estrangeiro, tem uma biografia sofrida


U.O.K
Chile 6 MAR 2018 - 12:51 COT

A chilena Daniela Vega se tornou neste domingo a primeira atriz transexual a participar da apresentação da cerimônia do Oscar. A protagonista de Uma Mulher Fantástica, ganhador do Oscar de melhor filme em língua não inglesa, apresentou o cantor Sufjan Stevens, que interpretaria Mistery of Love, parte da trilha de Me Chame Por Seu Nome. “Quero convidar vocês a abrirem seus corações e seus sentimentos e sentirem a realidade. Vocês conseguem?” disse ela, emocionada.
Muito antes da noite deste domingo, e inclusive muito antes de subir a um palco, Vega, de 28 anos, chegou ao fundo do poço. Aos 14, sua vida se dividiu em um antes e um depois. Deixou seu corpo de homem e fez a transição para o de mulher. Mas, ao assumir sua figura feminina, Vega não via a luz nem sabia que caminho seguir – se seria cantora ou atriz –, e tampouco tinha a possibilidade de entrar para o mundo artístico.
“Da dor se aprende e se cresce”, contava ela em fevereiro ao EL PAÍS, em Madri, horas antes da vitória do filme na categoria de melhor filme ibero-americano do prêmio Goya. “Os transexuais são seres marginais. Sofre-se muito na transição. E essa dor nos torna fortes, duros, e inclusive nos leva a ter mau caráter”, afirmava, enquanto Juan de Dios Larraín, produtor do filme junto com seu irmão, o cineasta Pablo Larraín, se aproximava para lhe oferecer uma cervejinha. Daniela rompeu esquemas para assumir sua transexualidade com o apoio da família. “Eu tenho muita esperança nas futuras gerações no Chile, atualmente há muita abertura”, enfatizava a atriz.
Antes de encarnar Marina, uma transexual que perde inesperadamente o seu namorado, a atriz trabalhava como cabeleireira em um salão de beleza. Foi um golpe de sorte, o destino, ou o acaso, que levou a diretor até ela, quando ele começava a estudar as personagens de Uma Mulher Fantástica e sondava o universo transexual de Santiago. Em princípio, ela prestaria uma consultoria à produção, mas acabou sendo a estrela de um filme exaltado pela forma como retrata a dor, a perda e o medo do desconhecido.
As artes no moralista Chile
A atriz tinha apenas um ano quando o ditador Augusto Pinochet deixou o poder no Chile, em 1990. A sociedade vivia com medo. Ainda estava fresca a lembrança dos campos de torturas, da trágica morte do cantor Víctor Jara, dos militares com metralhadoras nas ruas, dos guanacos (caminhões que lançavam água suja nos manifestantes nas ruas).
Os transexuais somos seres marginais. Sofre-se muito na transição. E essa dor nos torna fortes
Os gays e os transexuais eram parte do underground, vidas conhecidas apenas através dos livros de Pedro Lemebel, um autor que retratou magistralmente seres marginais, como ele mesmo. O Chile era uma sociedade bicéfala. Duas caras que se manifestavam ao mesmo tempo. Uma, a que rompia regras, com a antipoesia do recém-falecido Nicanor Parra e a transgressão de Alejandro Jodorowsky; a outra, marcada pelo conservadorismo, o respeito e o medo da lei, da autoridade, do estabelecido.

Quando o filme estreou no Chile, há um ano, foi recebido com muito entusiasmo. Daniela peregrinou pelos principais canais de TV, olhava fixamente para a câmera e se soltava: “Goste de você, ame-se, respeite-se da maneira mais digna. Todos os nossos corpos transitam; eu transicionei pelo gênero, outros fazem isso envelhecendo”. A atriz, que começou sua caminhada artística como cantora lírica, foi a primeira transexual a aparecer nas capas das revistas no Chile, tornando-se um marco cultural.
Nicolas Saavedra e Daniela Vega sobem ao palco
Nicolas Saavedra e Daniela Vega sobem ao palco  ©GTRESONLINE
Vega está escrevendo um livro para a editora Planeta e prepara, além disso, duas personagens, uma para o cinema e outra para o teatro em Santiago, de onde não tem a intenção de se mudar.
Em Hollywood há um grupo de cinéfilos a quem cativou. Algo que nem o diretor do filme, Sebastián Lelio, nem os produtores anteviram.“Houve uma espécie de espiral virtuosa na apreciação do filme, nos temas que aborda, no momento histórico, cultural, social que estamos passando. Abriu-se uma caixa da Pandora no feminino, com uma explosão de temas trans. Tudo isso ocorreu enquanto escrevíamos o filme. E,enquanto o realizávamos, o mundo deu um guinada de 180 graus, com o Brexit e Trump”, argumentava o cineasta em Madri.
A boa relação entre o diretor e a artista é patente. Eles trocam olhares cúmplices. Lelio enxerga Daniela como uma personagem de outra época. “É como uma estrela moderna, e ao mesmo tempo uma diva dos anos quarenta. Acompanhei com muita admiração como ela tem carregado toda essa responsabilidade, e tem feito isso com muita graça”, diz.
Qual foi a chave do seu sucesso? “A poesia foi minha porta de entrada neste mundo”, afirma o cineasta. “Para todo adolescente chileno, é como dar o primeiro beijo, ir para a cama pela primeira vez; escrever poesia é parte do ritual de ser chileno”, ressaltou Lelio, que estreou na lírica lendo Vicente Huidobro. O verso é o embrião do seu cinema, e com esse estímulo ele gesta os seus filmes.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Atriz de 'A festa de Babette', Stéphane Audran morre aos 85 anos



Atriz de 'A festa de Babette', Stéphane Audran morre aos 85 anos

Ela estava doente, foi internada, voltou para casa e morreu no domingo, na França 

Por Com agências internacionais
27/03/2018 16:14 / Atualizado 27/03/2018 18:59



SÃO PAULO - O público brasileiro vai lembrar dela em "A festa de Babette" (1987), de Grabriel Axel, no papel-título de uma francesa que prepara um banquete para os moradores de uma pequena e conservadora vila dinamarquesa do século XIX. Os cinéfilos mais dedicados vão identificá-la como um dos seis comensais de "O discreto charme da burguesia" (1972), de Luis Buñuel, filme no qual um jantar nunca começa devido a interrupções as mais absurdas. No entanto, a atriz francesa Stéphane Audran, morta nesta terça, aos 85 anos, conquistou sua fama sob a direção de um de seus maridos, Claude Chabrol (1930-2010), com quem ela trabalhou em 23 filmes, frequentemente interpretando mulheres burguesas adúlteras ou traídas - sempre chamadas Hélène.

- Minha mãe estava doente há algum tempo. Ela foi hospitalizada há dez dias e voltou para casa. Ela partiu pacificamente esta noite por volta das duas da manhã - disse o filho dela, Thomas Chabrol, à agência francesa AFP.

O chamado "ciclo Hélène" começa com "A mulher infiel" (1969), no qual Stéphane interpreta a mulher de um executivo que passa a ser investigada. O tema da infidelidade e da traição sempre esteve no radar de Chabrol. Sob a direção dele, ela recebeu o Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim por "As Corças" (1968), o BAFTA de melhor atriz por "Just avant la nuit" (1971) e o César de melhor atriz coadjuvante por "Violette" (1978).

- Stéphane era uma atriz muito boa. Era ótima para interpretar mulheres livres e independentes, como era na vida - reagiu o diretor francês Jean-Pierre Mocky, que dirigiu a atriz em "Les Saisons du plaisir" (1988).

Nascida Colette Suzanne Dacheville, em Versalhes (Yvelines), a 8 de novembro de 1932, Stèphane foi casada primeiro com Jean-Louis Trintignant, que conheceu antes de iniciar a carreira, em um curso de interpretação. A relação foi rápida. Depois, Trintignant se casaria com Brigitte Bardot.

A atriz conheceria Chabrol em 1959, durante as filmagens de "O signo do leão" (1962), primeiro longa-metragem de Eric Rohmer. Em seguida, o futuro marido a escalaria para o elenco de "Os primos" (1959), em um papel coadjuvante. Foi o início de uma colaboração prolífica, com até quatro filmes por ano. Ambos se casaram em 1964, depois de terem um filho, Thomas. Eles se separaram em 1980, mas a colaboração artística continuou por algum tempo.