quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Por que David Bowie foi tão necessário para esta galáxia?



Por que David Bowie foi tão necessário para esta galáxia?

Fomos perguntar aos seus principais cúmplices: o produtor Tony Visconti e o fotógrafo Mick Rock


Guillermo Arenas
11 JAN 2016 - 12:03 COT
No universo de David Bowie não há respostas, só interpretações. Foi assim desde 10 de fevereiro de 1972, data em que Ziggy Stardust se mostrou pela primeira vez na Terra. Antes, já tinha sido mod e hippie, mas suas seguintes personalidades e sua habilidade para detectar a estética e os sons adequados a cada momento se tornaram mais afiadas, gerando um impacto difícil de igualar. Nenhum outro músico viu sua influência se estender de tal forma a passarelas, salas de cinema, museus, karaokês e até à Estação Espacial Internacional, onde o astronauta Chris Hadfield entoou Space Oddity alguns anos atrás.


Sobre nenhum outro artista pop se pode dizer que se antecipou tanto à fluidez entre gêneros, algo de que tanto se fala nos últimos meses. Bowie, em seus últimos meses, permaneceu em silêncio e preferiu aparecer como um pregador lunático e febril no clipe de apresentação de Blackstar, seu 26º álbum, como se tivesse a intenção de rir da sua imagem de visionário. Já que nunca obteremos respostas da sua boca, as buscamos – ainda antes da sua morte – junto às pessoas que mais o conheceram e mais tempo passaram tentando decifrar o mito.
“David e eu vamos completar 50 anos de amizade”, contou o produtor Tony Visconti semanas atrás. Ninguém trabalhou por mais tempo com Bowie, nem esteve presente em tantas de suas etapas. “A primeira vez que estive cara a cara com ele e vi esses olhos estranhos soube que estava diante de uma estrela”, recorda. Visconti o conheceu antes de Bowie virar Ziggy, e permaneceu ao seu lado em discos como Young AmericansLow e Heroes. Foi a ele que o artista recorreu em 2013 para romper um jejum discográfico de uma década, com The Next Day. Desde então, adotou o papel de seu porta-voz extraoficial. Ele explica por que a relação extrapolou o lado musical. “Bom, ele é muito, muito inteligente. Sempre mantém seus receptores abertos. E é um grande comunicador”, afirmou. “Não se enxerga apenas como um astro do rock, Não limita sua arte a esse contexto. Assim, é capaz de pensar muito além.”
Will Brooker não trocou uma palavra com ele em sua vida, mas passou os últimos meses tentando pensar como Bowie, se vestir como Bowie e experimentar tudo o que Bowie experimentou. Esse professor de estudos culturais da Universidade Kingston, em Londres, decidiu fazer uma imersão total no mundo dele, a tal ponto que poderia parecer a obra de um transtornado. Mas seu discurso demonstra outra coisa. “David Bowie é uma construção fictícia”, explica. “Bowie é uma invenção de David Jones, o indivíduo que desfruta da vida privada dele. Bowie é a figura pública criada por ele. É um personagem, uma performance. Como outros fenômenos culturais fictícios, assumiu diversas formas e se valeu de uma dinâmica complexa com seu contexto social.” Essas mudanças constantes forjaram a ideia de Bowie como um enviado do futuro, potencializada por ele mesmo no filme O Homem que Caiu na Terra (1976), em que ele interpreta um extraterrestre que se infiltra na Terra.


David Bowie em seu novo videoclip, 'Lazarus'

“Ele se antecipou às tendências em várias ocasiões”, argumenta Brooker, “mas tendemos a esquecer outros momentos, talvez até mais frequentes, em que não foi assim. Seu uso do drum’n’bass em Earthling (1997) foi uma tentativa tardia de aderir a uma subcultura, por exemplo”. Independentemente das vezes em que se antecipou (ou não) ao que estava por vir, Bowie sempre soube desempenhar esse papel.


O fotógrafo Mick Rock acompanhou sua transformação em Ziggy Stardust, viajando com ele em 1972 e 1973. Algumas das imagens mais famosas do artista nós devemos ao “fotógrafo dos anos setenta”, que agora reúne muitas delas em um luxuoso livro intitulado Mick Rock. The Rise of David Bowie. “Era fascinante, hipnotizante”, recorda. Desse período aprendeu a importância da imagem na criação de uma estrela. “Ziggy Stardust era uma projeção. Quando o lançou, não era famoso. Tinha seguidores, sim, mas esse disco era sua maneira de dizer: ‘Posso me transformar em uma estrela’. Seus olhos sempre estavam no futuro. Teve um impacto enorme, sobretudo na feminização da atitude masculina. E tinha a capacidade de mudar sempre. Agora é normal ver como os artistas procuram uma atração visual. Não tenho nem ideia de como Nicki Minaj sonha, mas sei muito bem qual é o seu aspecto. David alterou esse patrão.” O próprio Bowie dizia, numa entrevista de 1972: “Sou um colecionador de personalidades”.
Masayoshi Sukita é o único fotógrafo que trabalhou com ele ao longo de 40 anos, sendo testemunha da sua metamorfose. “Para um artista, há muitas maneiras de se expressar”, reflete. “Para ele, sua maneira é adotar outras personalidades.” Para Brooker, “’pós-moderno’ é um termo muito apto para defini-lo. Podemos ver sua influência na moda contemporânea e em astros como Lady Gaga”. Bowie viu o futuro do pop, mas este não tinha forma de canção ou de som, e sim de imagem. Ele descobriu isso, e o resto do mundo o seguiu depois. Em outras ocasiões exerceu o papel de visionário de maneira literal. Em 2002 fez várias previsões sobre a indústria musical ao The New York Times. Certamente passou do ponto ao afirmar que “o copyright não existirá dentro de 10 anos”, mas outras foram mais certeiras. “A música será como a eletricidade e a água corrente”, antecipou. “Os músicos precisam se preparar para fazer turnês, será a única opção que restará.” Ele, obviamente, pôde se dar ao luxo de ignorar o seu próprio conselho. “Quantos shows ele já fez? 10.000? Por que iria querer fazer mais?”, pergunta-se Visconti sobre o fato de Bowie ter se aposentado dos palcos em 2006. “Por que quereria fazer mais?”


Bowie em um fotograma do filme 'The man who fell to Earth' (1976)
Bowie em um fotograma do filme 'The man who fell to Earth' (1976)


Mas ele atrevia a antecipar que Blackstar não seria a última coisa que ouviríamos de Bowie, que fez coincidir o lançamento deste disco com o dia de seu 69º. aniversário, em 8 de janeiro. “Com certeza ele continuará fazendo música e a apresentará de distintas maneiras. Sua peça teatral Lazarus é um exemplo”, opinou, antes da morte do artista, sobre o musical estreado há algumas semanas no off-Broadway. A última encarnação de Bowie, parecia ser a de um senhor maduro que passeia por Manhattan, vê exposições e, quando sente o impulso criativo, liga para o seu amigo Tony para gravar. Will Brooker tem sua própria teoria: “Com a idade, encontrou a segurança, um senso estável de quem ele é. Assim ele pôde criar sem a necessidade de alterar sua imagem”. Talvez esta última fase não tenha sido tão revolucionária como um alienígena pansexual ou o frio duque branco, mas… Que mais se poderia pedir a alguém que retornou tantas vezes do futuro?


Bowie com Duncan Zowie Jones (futuro diretor de filmes como 'Moon' e 'Código fonte') fruto de sua relação com Angela Bowie, em Amsterdã em 1974
Bowie com Duncan Zowie Jones (futuro diretor de filmes como 'Moon' e 'Código fonte') fruto de sua relação com Angela Bowie, em Amsterdã em 1974
EL PAÍS



terça-feira, 22 de agosto de 2017

Vargas Llosa / Sangue derramado


Ojo
Barcelona, 2017
Foto de Triunfo Arciniegas

Mario Vargas Llosa

Sangue derramado

Os fanáticos nunca vencerão a guerra. A matança de inocentes será uma poda, e as velhas Ramblas continuarão atraindo a mesma multifacetada humanidade

EL PAÍS
19 AGO 2017

O terrorismo sempre fascinou Albert Camus, que, além de uma obra de teatro sobre o tema, dedicou bom número de páginas de seu ensaio sobre o absurdo, O Mito de Sísifo, a refletir sobre este insensato costume dos seres humanos de achar que assassinando os adversários políticos ou religiosos se resolvem os problemas. A verdade é que salvo casos excepcionais, em que o extermínio de um sátrapa atenuou ou pôs fim a um regime despótico –os dedos de uma das mãos dão e sobram para contá-los- esses crimes costumam piorar as coisas que querem melhorar, multiplicando as repressões, perseguições e abusos. Mas é verdade que, em alguns raríssimos casos, como o dos narodniki russos citados por Camus, que pagavam com sua vida a morte dos que eles matavam pela “causa”, havia, em alguns dos terroristas que se sacrificavam atentando contra um verdugo ou um explorador, certa grandeza moral.
Não é o caso, com certeza, de quem, como acaba de ocorrer em Cambrils e nas Ramblas de Barcelona, investe ao volante de uma van contra indefesos transeuntes –crianças, idosos, pedintes, jovens, turistas, moradores- tentando atropelar, ferir e mutilar o maior número de pessoas. O que querem conseguir, demonstrar, com semelhantes operações de selvageria pura, de crueldade inaudita, como fazer explodir uma bomba num show, num café ou numa danceteria? As vítimas costumam ser, na maioria dos casos, pessoas comuns, muitas delas com preocupações econômicas, problemas familiares, tragédias, ou jovens desempregados, angustiados por um futuro incerto neste mundo em que conseguir um posto de trabalho se tornou um privilégio. Trata-se de demonstrar o desprezo que nutrem por uma cultura que, de seu ponto de vista, está moralmente aviltada porque é obscena, sensual e corrompe as mulheres outorgando-lhes os mesmos direitos que aos homens? Só que isso não tem sentido, porque a verdade é que o podre Ocidente atrai, como o mel faz com as abelhas, milhões de muçulmanos que estão dispostos a morrer afogados para entrar neste suposto inferno.
Também não parece muito convincente que os terroristas do Estado Islâmico ou da Al-Qaeda sejam homens desesperados pela marginalização e discriminação de que padecem nas cidades europeias. A verdade é que bom número dos terroristas nasceu nelas e lá recebeu sua educação, e se integrou mais ou menos às sociedades nas quais seus pais ou avós escolheram viver. Sua frustração não pode ser pior que a dos milhões de homens e mulheres que vivem na pobreza (alguns na miséria) e não se dedicam por isso a estripar seus próximos.
A explicação está pura e simplesmente no fanatismo, aquela forma de cegueira ideológica e depravação moral que fez correr tanto sangue e injustiça ao longo da história. É verdade que nenhuma religião nem ideologia extremista se livrou dessa forma extrema de obsessão que faz algumas pessoas acreditarem que têm direito de matar seus semelhantes para lhes impor seus próprios costumes, crenças e convicções.
O terrorismo islâmico é hoje o pior inimigo da civilização. Está por trás dos piores crimes dos últimos anos na Europa, esses cometidos às cegas, sem alvos específicos, a granel, em que se tenta ferir e matar não pessoas específicas, mas o maior número de pessoas anônimas, porque, para aquela obnubilada e perversa mentalidade todos os que não são os meus –essa pequena tribo na qual me sinto seguro e solidário- são culpados e devem ser aniquilados.









Para mim as Ramblas são um local mítico, a cidade começou a se libertar antes do resto da Espanha

Nunca vencerão a guerra que declararam, é óbvio. A mesma cegueira mental que mostram em seus atos os condena a ser uma minoria que pouco a pouco –como todos os terrorismos da história- irá sendo derrotada pela civilização com a qual querem acabar. Mas é claro que ainda podem provocar muito dano e que continuarão morrendo inocentes em toda a Europa, como os 14 cadáveres (e os 120 feridos) das Ramblas de Barcelona e sendo semeado o horror e o desespero em incontáveis famílias.
Talvez o maior perigo desses crimes monstruosos seja que o melhor que o Ocidente tem –sua democracia, sua liberdade, sua legalidade, a igualdade de direitos para homens e mulheres, seu respeito pelas minorias religiosas, políticas e sexuais- se veja de pronto empobrecido no combate contra este inimigo insidioso e ignóbil, que não mostra a cara, que está encistado na sociedade e, claro, alimenta os preconceitos sociais, religiosos e raciais de todos e leva os governos democráticos, impulsionados pelo medo e pela cólera que os pressionam, a fazer concessões cada vez mais amplas nos direitos humanos em busca da eficácia. Na América Latina aconteceu; a febre revolucionária dos anos sessenta e setenta fortaleceu (e às vezes criou) as ditaduras militares, e, em vez de trazer o paraíso à Terra, pariu o comandante Chávez e o socialismo do século XXI na Venezuela da morte lenta de nossos dias.
Para mim, as Ramblas de Barcelona são um lugar mítico. Nos cinco anos em que vivi nessa querida cidade, duas ou três vezes por semana íamos passear por elas, comprar o Le Monde e livros proibidos em seus quiosques abertos até depois da meia-noite, e, por exemplo, os irmãos Goytisolo conheciam melhor que ninguém os segredos escabrosos do bairro chinês, que estava a suas margens, e Jaime Gil de Biedma, que depois de jantar no Amaya sempre conseguia escapulir e desaparecer em algum desses becos escuros. Mas, talvez, o maior conhecedor do mundo das Ramblas barcelonesas fosse um madrilenho que aparecia nessa cidade com pontualidade astral: Juan García Hortelano, uma das melhores pessoas que conheci. Ele me levou uma noite para ver numa vitrine que só se iluminava ao escurecer uma grotesca coleção de preservativos com cristas de galo, capelos e tiaras pontifícias. O mais pitoresco de todos era Carlos Barral, editor, poeta e estilista, que, rodando sua capa negra, sua bengala medieval e com seu eterno cigarro nos lábios, recitava aos gritos, depois de uns gins, o poeta Bocángel. Aqueles anos eram os dos últimos suspiros da ditadura franquista. Barcelona começou a se libertar da censura e do regime antes que o restante da Espanha. Essa era a sensação que tínhamos passeando pelas Ramblas, que já aquilo era Europa, porque ali reinava a liberdade de palavra, e também de obra, porque todos os amigos que estavam lá atuavam, falavam e escreviam como se a Espanha já fosse um país livre e aberto, onde todas as línguas e culturas estavam representadas na dissimilar fauna que povoava esse caminho pelo qual, conforme se baixava, cheirava-se (e às vezes até se ouvia) a presença do mar. Lá sonhávamos: a libertação era iminente, e a cultura seria a grande protagonista da Espanha nova que já estava surgindo em Barcelona.
Era exatamente esse símbolo o que os terroristas islâmicos queriam destruir derramando o sangue dessas dezenas de inocentes que aquela van apocalíptica –a nova moda- foi deixando espalhados nas Ramblas? Esse recanto de modernidade e liberdade, de fraterna coexistência de todas as raças, idiomas, crenças e costumes, esse espaço onde ninguém é estrangeiro, porque todos o são, e onde os quiosques, cafés, lojas, mercados e vendas diversas têm mercadorias e serviços para todos os gostos do mundo? Claro que não conseguirão. A matança dos inocentes foi uma poda, e as velhas Ramblas continuarão atraindo a mesma variada humanidade, como antes e como hoje, quando o aquelarre [sabá] terrorista for apenas uma lembrança apagada dos velhos, e as novas gerações se perguntarem do que falam, o que e como foi aquilo.


EL PAÍS



PESSOA

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Julio Cortázar / Casa tomada



Júlio Cortázar

Casa tomada




Entramos nos quarenta anos com a inexprimível idéia de que o nosso, simples e silencioso matrimônio de irmãos, era o fim necessário da genealogia fundada por nossos bisavós em nossa casa. Morreríamos ali em algum dia, vagos e distantes primos ficariam com a casa, e a demoliriam para enriquecerem com o terreno e os tijolos; ou melhor, nós mesmos a derrubaríamos, inflexivelmente, antes que fosse demasiado tarde.
Gostávamos da casa porque, além de espaçosa e antiga (hoje que as casas antigas sucumbem à mais vantajosa liquidação de seus materiais), guardava as recordações de nossos bisavós, o avô paterno, nossos pais e toda a infância.

Habituamo-nos, Irene e eu, a permanecer nela sozinhos, o que era uma loucura, pois nessa casa podiam viver oito pessoas sem se molestarem. Fazíamos a limpeza pela manhã, levantando-nos às sete, e pelas onze eu deixava a Irene as últimas peças por repassar e ia à cozinha. Almoçávamos ao meio-dia, sempre pontuais; então não ficava nada por fazer além de uns poucos pratos sujos. Era para nós agradável almoçar pensando na casa ampla e silenciosa e em como nos bastávamos para mantê-la limpa. Às vezes chegamos a pensar que foi ela que não nos deixou casar. Irene recusou dois pretendentes sem motivo maior, eu vi morrer Maria Ester antes que chegássemos a nos comprometer. Entramos nos quarenta anos com a inexprimível idéia de que o nosso, simples e silencioso matrimônio de irmãos, era o fim necessário da genealogia fundada por nossos bisavós em nossa casa. Morreríamos ali em algum dia, vagos e distantes primos ficariam com a casa, e a demoliriam para enriquecerem com o terreno e os tijolos; ou melhor, nós mesmos a derrubaríamos, inflexivelmente, antes que fosse demasiado tarde.

Irene era uma moça nascida para não fazer mal a ninguém. Fora sua atividade matinal, passava o resto do dia tricotando no sofá de seu quarto. Não sei por que tricotava tanto. Acho que as mulheres tricotam quando encontram nesse trabalho o grande pretexto para não fazer nada. Irene não era assim, tricotava coisas sempre necessárias, camisolas para o inverno, meias para mim, cachenês e coletes para ela. Às vezes tricotava um colete e depois o desfazia rapidamente, porque alguma coisa não lhe agradava; era engraçado ver, na cestinha, o montão de lã encrespada, recusando-se a perder a forma de algumas horas antes. Aos sábados, eu ia ao centro lhe comprar lã; Irene tinha confiança no meu gosto, aprovava as cores e nunca precisei devolver uma só meada. Aproveitava essas saídas para dar uma volta pelas livrarias e perguntar inutilmente se havia novidades em literatura francesa. Desde 1939 nada de importante chegava à Argentina.

É da casa, porém, que me interessa falar, da casa e de Irene, porque eu não tenho importância. Pergunto-me o que teria feito Irene sem tricotar. Uma pessoa pode reler um livro, mas quando um pulôver está pronto não é possível repeti-lo sem provocar admiração. Um dia encontrei a última gaveta da cômoda de cânfora cheia de echarpes brancas, vermelhas, lilases. Estavam com naftalina, empilhadas como em uma loja; não tive coragem de perguntar a Irene o que pensava fazer com elas. Não precisávamos ganhar a vida, todos os meses chegava a renda dos campos, e o dinheiro aumentava. Mas Irene só se entretinha tricotando, mostrava uma destreza maravilhosa, e eu passava as horas vendo suas mãos como ouriços prateados, agulhas indo e vindo, e uma ou duas cestinhas no chão, onde constantemente se agitavam os novelos. Era uma beleza.

Lembro-me bem da divisão da casa. A sala de jantar, uma peça com gobelinos, a biblioteca e três quartos grandes ficavam na parte mais afastada, a que dá frente para a Rodríguez Peña. Um único corredor, com sua maciça porta de carvalho, separava essa parte da ala dianteira, onde havia um banheiro, a cozinha, nossos quartos de dormir e o living central, com o qual se comunicavam os quartos e o corredor. Entrava-se na casa por um saguão de azulejos, e a porta principal dava para o living. De maneira que a gente entrava por esse saguão, abria a porta e já estava no living; tinha, dos lados, as portas dos nossos quartos e, à frente, o corredor que levava à parte mais afastada; seguindo pelo corredor, ultrapassava-se a porta de carvalho e, mais adiante, começava o outro lado da casa, ou então se podia virar à esquerda, justamente antes da porta, e seguir por um corredor mais estreito, que levava à cozinha e ao banheiro. Quando a porta estava aberta, dava para ver que a casa era muito grande; caso contrário, tinha-se a impressão de um desses apartamentos que se constroem agora, onde uma pessoa mal pode se mexer. Irene e eu vivíamos sempre nesta parte da casa, quase nunca íamos além da porta de carvalho, salvo para fazer a limpeza, pois é incrível como junta poeira nos móveis. Buenos Aires pode ser uma cidade limpa, mas isso ela deve a seus habitantes e não a outra coisa. Há demasiada poeira nos mármores dos consolos e entre os buracos das toalhas de macramé; dá trabalho tirá-lo completamente só com o espanador, voa e se suspende no ar, um momento depois se deposita de novo nos móveis e no piano.

Recordarei sempre nitidamente porque foi simples e sem circunstâncias inúteis. Irene estava tricotando em seu quarto, eram oito da noite e, de repente, eu me lembrei de levar a chaleira do mate ao fogo. Fui pelo corredor até chegar à porta de carvalho, que estava entreaberta, e dava a volta ao cotovelo que levava à cozinha quando ouvi alguma coisa na sala de jantar ou na biblioteca. O som vinha impreciso e surdo, como o tombar de uma cadeira sobre o tapete ou um abafado murmúrio de conversação. E o ouvi, também, ao mesmo tempo ou um segundo depois, no fundo do corredor que vinha daquelas peças até a porta. Atirei-me contra a porta antes que fosse demasiado tarde, fechei-a violentamente, apoiando meu corpo; felizmente a chave estava do nosso lado e, além disso, passei nessa porta o grande ferrolho para maior segurança.

Fui então à cozinha, fervi a água da chaleira e, quando voltei com a bandeja do mate, disse a Irene:

 —  Tive que fechar a porta do corredor. Tomaram a parte dos fundos.

Deixou cair o tricô e me olhou com os seus graves olhos cansados.

 —  Você tem certeza?

Disse que sim.

 —  Então – disse, recolhendo as agulhas – teremos que viver neste lado.

Eu cevava o mate com muito cuidado, mas ela demorou um instante em recomeçar o trabalho. Lembro-me de que tricotava um colete cinzento; achava bonito esse colete.

Os primeiros dias nos pareceram penosos porque ambos tínhamos deixado muitas coisas que amávamos na parte tomada. Meus livros de leitura francesa, por exemplo, estavam todos na biblioteca. Irene sentia falta de umas toalhas, um par de chinelas que a abrigavam muito no inverno. Eu lamentava o meu cachimbo de zimbro e acho que Irene pensou em uma garrafa de Hesperidina de muitos anos. Com freqüência (mas isto só aconteceu nos primeiros dias) fechávamos alguma gaveta das cômodas e nos olhávamos com tristeza.

 —  Não está aqui.

E era mais uma das coisas de tudo o que tínhamos perdido no outro lado da casa.

Mas também tivemos vantagens. A limpeza ficou tão simplificada que mesmo nos levantando muito tarde, às nove e meia, por exemplo, não eram onze e já estávamos de braços cruzados. Irene se acostumou a ir comigo à cozinha e me ajudava a preparar o almoço. Pensamos bem, e decidimos isto enquanto eu fazia o almoço, Irene prepararia pratos frios para a noite. Alegramo-nos porque sempre se torna incômodo ter que abandonar os quartos ao entardecer e se pôr a cozinhar. Agora nos bastavam a mesa no quarto de Irene e as travessas de comida fria.

Irene estava contente porque lhe sobrava mais tempo para tricotar. Eu andava um pouco desorientado por causa dos livros, mas, para não afligir minha irmã, comecei a examinar a coleção de selos de papai, e isso me serviu para matar o tempo. Nós nos divertíamos muito, cada qual em suas coisas, que era mais confortável. Às vezes Irene dizia:

 — Olhe só este ponto que inventei. Não se parece com um trevo?

Um instante depois era eu que lhe punha diante dos olhos um quadradinho de papel para que visse o valor de algum selo de Eupen e Malmédy. Passávamos bem, e pouco a pouco começávamos a não pensar. Pode-se viver sem pensar.

(Quando Irene sonhava em voz alta, eu acordava imediatamente. Nunca pude me habituar a essa voz de estátua ou papagaio, voz que vem dos sonhos e não da garganta. Irene dizia que meus sonhos eram grandes sacudidelas que, às vezes, faziam cair o cobertor. Nossos quartos tinham um living separando-os, mas, de noite, se escutava qualquer coisa na casa. Nós nos ouvíamos respirar, tossir, pressentíamos o gesto que conduz ao interruptor do abajur, as mútuas e freqüentes insônias.

Fora disso, tudo estava silencioso na casa. De dia, eram os rumores domésticos, o roçar metálico das agulhas de tricô, um crepitar de folhas viradas de álbum filatélico. A porta de carvalho, creio tê-lo dito, era maciça. Na cozinha e no banheiro, próximos à parte tomada, ficávamos falando em voz mais alta, ou Irene cantava canções de ninar. Em uma cozinha há demasiado ruído de louça e vidros para que outros sons a invadam. Muito poucas vezes permitíamos ali o silêncio, mas, quando voltávamos aos quartos e ao living, então a casa ficava silenciosa e, à meia-luz, até pisávamos mais vagarosamente para não nos incomodar. Acho que era por isso que, de noite, quando Irene começava a sonhar em voz alta, eu a acordava imediatamente.)

É quase repetir a mesma coisa, exceto nas conseqüências. De noite sinto sede, e antes de nos deitar disse a Irene que ia à cozinha buscar um copo com água. Da porta do quarto (ela tricotava) ouvi ruído na cozinha, talvez no banheiro, porque o cotovelo do corredor diminuía o som. Minha maneira brusca de parar chamou a atenção de Irene, que veio para o meu lado sem dizer palavra. Ficamos ouvindo os ruídos, notando claramente que eram deste lado da porta de carvalho, na cozinha e no banheiro, ou mesmo no corredor, onde começava o cotovelo quase ao nosso lado.

Nem sequer nos olhamos. Apertei o braço de Irene e a fiz correr comigo até a porta, sem olhar para trás. Os ruídos ficavam mais fortes, mas sempre abafados, às nossas costas. Fechei de um golpe a porta e ficamos no saguão. Não se ouvia na agora.

 — Tomaram esta parte – disse Irene. O tricô descia de suas mãos e os fios iam até a porta e se perdiam por debaixo dela. Quando viu que os novelos tinham ficado do outro lado, ela largou o tricô sem ao menos olhá-lo.

 —  Você teve tempo de trazer alguma coisa? – perguntei-lhe inutilmente.

 —  Não, nada.

Estávamos com o que tínhamos no corpo. Lembrei-me dos quinze mil pesos no guarda-roupa do meu quarto. Agora era tarde.

Como me sobrava o relógio de pulso, vi que eram onze horas da noite. Cingi com meu braço a cintura de Irene (eu acho que ela estava chorando) e saímos assim à rua. Antes de nos afastarmos senti tristeza, fechei bem a porta de entrada e joguei a chave no bueiro. Não fosse algum pobre-diabo resolver roubar e entrasse na casa, a essa hora e com a casa tomada. 





Vargas Llosa / A morte de Aurora Bernárdez 





domingo, 20 de agosto de 2017

Cortázar / O velho cronópio


Julio Cortázar

O velho cronópio

Em entrevista à CULT, o tradutor Eric Nepomuceno retoma a obra e o método do escritor Julio Cortázar, falecido há 30 anos
Patrícia Homsi
“E era muito natural eu atravessar a rua, subir as escadas da ponte, dar mais alguns passos e aproximar-me da Maga, que sorria sempre, sem surpresa, convencida, como eu, de que um encontro casual era o menos casual em nossas vidas e de que as pessoas que marcam encontros exatos são as mesmas que precisam de papel pautado para escrever ou que começam a apertar pela parte de baixo o tubo de pasta dentifrícia”, disse Horacio Oliveira, o protagonista de Rayuela, ou O jogo da amarelinha, do argentino Julio Cortázar.
Cortázar, como sua personagem, de fato não precisava de papel pautado para escrever. Escrevia e reescrevia, e revisava até o fim de sua vida, em 12 de fevereiro de 1984, há exatos 30 anos. Tradutor de Edgar Allan Poe (reconhecidamente, sua melhor tradução ao espanhol) e crítico compulsivo das próprias obras, Cortázar produziu tanto que, mesmo após sua morte, ainda havia um grande número de textos não publicados, contos e “entrevistas em frente ao espelho”, organizados no livro Papéis Inesperados (Civilização Brasileira, 2010). Em um dos textos, por exemplo, o autor revela sua surpresa em observar a identificação dos jovens comRayuela. Cortázar compara o desejo dos jovens com o arremesso da pedra – destinada aos quadrados de giz da amarelinha desenhada no chão – ao céu. “E este céu, e isto é o que nos une, eles e eu chamamos de revolução.”
Cortázar foi casado com Aurora Bernárdez, uma tradutora argentina com quem viveu em Paris – cenário de O jogo da amarelinha – e com Carol Dunlop, falecida antes do escritor, que morreria dois anos mais tarde em decorrência de uma leucemia. Julio Cortázar foi enterrado junto à esposa, no Cemitério de Montparnasse, em Paris, onde também estão Samuel Beckett, Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, Serge Gainsbourg e Charles Baudelaire. Acima de sua lápide há um poético e pomposo Cronópio – criatura alegre e sonhadora idealizada e almejada pelo escritor.
Em 2014, além de relembrar a morte do autor, a literatura argentina comemora seu centenário, no próximo mês de agosto. De hoje ao aniversário de nascimento de Cortázar (26 de agosto), haverá eventos em Buenos Aires e Chivilcoy, província argentina em que morou na época em que dava aulas de literatura.
Junto ao centenário de Cortázar, sua obra de maior expressão, Rayuela, comemora 50 anos. A exposição Rayuela, 50 años fica em cartaz até julho em Buenos Aires e traz mais de 30 primeiras edições de Julio Cortázar preservadas pela Biblioteca Nacional.
Aqui no Brasil, a editora Civilização Brasileira relançou Bestiário e prepara para este semestre uma nova tradução de O jogo da amarelinha.
CULT conversou com Eric Nepomuceno, tradutor de algumas obras de Cortázar, sobre os métodos e influências do autor:
CULT – Qual foi a maior dificuldade na tradução da obra de Cortázar para o português?
Eric Nepomuceno – Traduzi As armas secretas e estou terminando a nova tradução deRayuela, ou seja, O jogo da amarelinha. Toda e qualquer tradução tem suas dificuldades, e não é possível comparar as de um autor às de outro. No caso de Cortázar, tanto nos contos como neste romance, o primeiro desafio é manter o ritmo da sua escrita. Depois, a construção das frases. Especialmente em Rayuela, essa arquitetura é especialmente intrincada, inventiva, com um aspecto lúdico muito complexo e, ao mesmo tempo, com muita carga poética. Impossível dizer qual a maior dificuldade. Melhor seria dizer das muitas dificuldades, mas que acabam resultando num desafio irresistível.
Apesar de ter começado a escrever muito cedo, Julio Cortázar publicou seu primeiro livro depois dos quarenta anos. Em sua opinião, isso afetou na qualidade e na técnica do autor?
Nunca pensei nesse aspecto, para falar a verdade. Cortázar domina uma técnica muito pessoal, extremamente difícil, justamente pela simplicidade da escrita. É um contista formidável, sua prosa é sempre impregnada da fala, do ritmo, da textura, da respiração de Buenos Aires. Mesmo nos contos fantásticos, de grande inventividade, está sempre permanente o humor e a melancolia da cidade. Claro que, como em todo autor, seus textos de iniciantes não têm a consistência do que veio depois. Acho que a partir de Bestiário ele assume o controle absoluto da escrita, que dominou até seus textos derradeiros. Enfim, ele sempre foi extremamente zeloso pelo acabamento de seus textos, mas não creio que se tivesse publicado, digamos, aos 30, teria sido menos exigente.
O senhor considera que a paixão de Cortázar pelo jazz influenciou seu ritmo de escrita?
Sem dúvida. Conto uma coisa: só consigo entrar no ritmo da escrita dele se ouvir música enquanto traduzo. Em minhas jornadas de traduzir Rayuela, ouço muito Gil Evans, Miles Davis, Egberto Gismonti e, principalmente, Astor Piazzolla.
O próprio Cortázar foi considerado o melhor tradutor de Edgar Allan Poe para a língua espanhola. O senhor acredita que seu ofício como tradutor era beneficiado por seu estilo na literatura?
Sempre – sempre – que um escritor traduz outro escritor, a relação será beneficiada. Um tradutor que não seja ficcionista (e há muitos deles que são tradutores formidáveis) jamais terá a mesma cumplicidade com a palavra escrita. Veja bem: não falo do estilo de Cortázar na hora de traduzir Poe ou qualquer um dos muitos outros autores que ele traduziu. Falo da sua cumplicidade.
O senhor pode me contar sobre a influência do momento em que Cortázar foge do governo Perón e se muda para Paris em sua obra?
É um tema muito complexo. O Cortázar que abandona a Argentina nos tempos finais da primeira etapa de Perón (1947-1955) é um homem muito pouco informado, pouco politizado. A partir da Revolução Cubana ele passa a ver a realidade latino-americana com outros olhos. E é esse Cortázar politizado, solidário e ativo militante, um homem progressista e íntegro, o que vale.
Por serem conterrâneos, Cortázar e Jorge Luis Borges são muito frequentemente relacionados, pelo menos, aqui no Brasil. Em que pontos a literatura destes argentinos se encontra ou se afasta?
Borges escrevia com o cérebro. Cortázar, com a alma. Essa a principal diferença. Um era humano. O outro, nem tanto… Mestres os dois, é claro. Mas apenas com um deles eu e meus amigos compartilhamos alegrias, tristezas, esperanças, desesperanças, pão, vinho e vida.

CULT