terça-feira, 21 de março de 2017

Os cães entendem o que dizemos e como dizemos



Os cães entendem o que dizemos e como dizemos

Novo estudo sugere que aprendizagem do vocabulário não é exclusividade humana


Os cães compreendem tanto as palavras como a entonación. EL PAÍS VÍDEO
Os cachorros possuem a capacidade de diferenciar as palavras, assim como a nossa entonação, quando nos dirigimos a eles. É o que sugere um novo estudo publicado na revista Science. Além disso, utilizam áreas do cérebro semelhantes às utilizadas por nós, o que leva os pesquisadores à conclusão de que a capacidade de aprendizagem de vocabulário não é uma exclusividade humana. Para realizar o estudo, os cientistas colocaram treze cães de diferentes raças em um aparelho de ressonância magnética funcional para estudar as suas reações à linguagem. Os resultados revelaram que os cachorros reconheceram todas as palavras de forma diferente umas das outras, independentemente da entonação, e o fizeram utilizando o lado esquerdo do cérebro, como fazem os seres humanos.
Os cachorros reconheceram todas as palavras como sendo coisas diferentes e o fizeram usando o hemisfério esquerdo do cérebro, como os humanos
“Este estudo é o primeiro passo para entendermos como os cães interpretam a fala humana, e pode ajudar no entendimento de como funciona a comunicação entre os cachorros e as pessoas, para torna-la mais eficiente”, explica Attila Andics, principal autor do trabalho e professor da Universidade de Loránd, em Budapeste (Hungria).
As palavras são o principal elemento da linguagem e da comunicação. A entonação é uma outra forma de transmitir a informação. “Os seres humanos entendem a fala por meio do vocabulário e da entonação”, diz Andics. O objetivo dos pesquisadores era comprovar se esses dois mecanismos também funcionam com os cachorros separadamente e como isso ocorre. Para tanto, os animais ouviram gravações com as vozes de seus instrutores que combinavam diferentes palavras elogiosas ou neutras com diversos tipos de entonação. Enquanto isso, os pesquisadores monitoravam as reações em seus cérebros.
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Um dos cães junto a uma das pesquisadoras durante o estudo. ENIKÓ KUBINYI
A equipe comprovou que os cachorros distinguiram tanto o significado das palavras quanto a entonação com que elas haviam sido ditas, e que o fizeram com o hemisfério esquerdo do cérebro. Além disso, os animais processam a entonação de forma separada do vocabulário, como fazem os humanos. A partir daí Andics e sua equipe concluíram que os cães não só diferenciam aquilo que falamos e como o falamos, mas também conseguem combinar os dois elementos para interpretar corretamente o significado das palavras. “É muito semelhante ao que o cérebro humano faz”, acrescenta.
Os resultados, porém, não dizem respeito apenas à compreensão da linguagem humana pelos cães. Deles se podem tirar importantes conclusões sobre o próprio ser humano. Andics afirma que o seu estudo lança uma nova luz sobre o surgimento das palavras ao longo da evolução da linguagem.
Os cientistas afirmam que sua pesquisa lança uma nova luz sobre o surgimento das palavras ao longo da evolução da linguagem
Para explicar a compreensão da fala por parte dos cães, os autores assinalam que a domesticação desses animais pode ter tido uma influência no surgimento de uma estrutura cerebral que lhes permite possuir essa capacidade. Afirmam, no entanto, que é pouco provável que os animais desenvolvam as capacidades necessárias relacionadas à fala. “Os seres humanos continuam sendo os únicos que tem a possibilidade de inventar palavras”, conclui Andics.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Como falar com seu cão, segundo a ciência




Como falar com seu cão, segundo a ciência

As pesquisas realizadas nas duas últimas décadas demonstram que esses animais são capazes de entender a comunicação humana como nenhuma outra espécie



THE CONVERSATION
JULIANE KAMINSKI
18 JAN 2017 - 06:55 COT
Os cães são especiais. Qualquer pessoa que tem um como animal de companhiasabe disso. Além disso, a maioria dos donos tem a sensação de que seu cachorro entende tudo o que eles dizem e qualquer gesto que fazem. As pesquisas realizadas nas últimas duas décadas demonstram que os cães são capazes de entender a comunicação humana como nenhuma outra espécie. E agora um novo estudo confirma que, se alguém quer adestrar um filhote e ter o máximo de possibilidade para que o animal faça o que se pede dele, é preciso falar com ele de uma determinada maneira.



Quando lhes falamos, utilizamos o que se denomina a “linguagem dirigida aos cães”

As pesquisas já trouxeram uma boa quantidade de evidências de que a forma como nos comunicamos com os cães é diferente de como fazemos isso com os seres humanos. Quando falamos com um cachorro utilizamos o que se denomina “linguagem dirigida aos cães”. Isso quer dizer que mudamos a estrutura das frases, encurtando-as e simplificando-as. Também costumamos adotar um tom de voz mais agudo. Fazemos o mesmo quando não estamos certos de que alguém nos entende ou quando nos dirigimos a crianças pequenas.
O novo estudo descobriu que, quando falamos com um filhote de cachorro, empregamos um tom ainda mais agudo, e que essa tática, de fato, ajuda os animais a prestar mais atenção. O estudo, publicado na revista Proceedings of the Royal Society B, mostrou que quando se fala com filhotes usando a linguagem dirigida aos cães, eles reagem e atendem melhor o instrutor humano do que quando se utiliza a linguagem normal.



A análise das gravações mostrou que os voluntários mudavam a forma com que falavam com cães de diferentes idades

Para comprovar isso, os pesquisadores utilizaram os chamados experimentos em playback. Gravaram pessoas dizendo a frase “Olá! Olá, meu querido! Quem é bonzinho? Vem cá! Muito bem! Bom menino! Isso! Vem cá, meu amor! Que menino bonzinho!” várias vezes. A cada vez, uma pessoa olhava fotos de filhotes, de cães adultos e de cães idosos, ou que não olhassem para foto alguma. A análise das gravações mostrou que os voluntários mudavam a forma com que falavam aos cães de diferentes idades.
Em seguida, os pesquisadores reproduziram as gravações a vários filhotes e cães adultos e registraram o comportamento de resposta. Notaram que os filhotes reagiam mais intensamente às gravações feitas enquanto os voluntários olhavam imagens de cães adultos (a linguagem dirigida aos cães).
O estudo não comprovou o mesmo efeito quando se tratava dos cachorros adultos escutando as mesmas gravações. Mas outras pesquisas que registraram a reação dos animais em interações humanas cara a cara, incluindo o que foi feito na minha própria pesquisa, indicam que a linguagem dirigida aos cães pode ser útil para se comunicar com esses animais, qualquer que seja sua idade.

Seguir um dedo que aponta

Também foi demonstrado que podemos nos comunicar com esses animais através de gestos. Desde que são filhotes, os cães reagem a gestos humanos, como o de apontar, de uma maneira que outras espécies não conseguem. A experiência é muito simples. Coloque diante de seu cão duas vasilhas idênticas cobrindo pequenas porções de comida, e certifique-se de que o animal não pode enxergar o alimento e não tem nenhum tipo de informação sobre o conteúdo das vasilhas. Em seguida, aponte com o dedo para um dos recipientes enquanto estabelece contato visual com o cachorro. Ele seguirá seu gesto até a vasilha para a qual está apontando e a examinará na esperança de encontrar algo sob ela.



Os filhotes reagiam mais intensamente às gravações feitas enquanto os voluntários olhavam imagens de cães adultos

Isso ocorre porque o cão entende que a ação do dono é uma tentativa de se comunicar. Trata-se de algo fascinante porque aparentemente nem chimpanzés, que são nossos parentes vivos mais próximos, entendem a intenção de comunicação dos humanos nessa situação. Nem mesmo os lobos – os parentes vivos mais próximos dos cães -, mesmo quando foram criados em um entorno humano.
Isso levou cientistas a pensarem que, na realidade, as habilidades e o comportamento dos cães nesse terreno são adaptações ao ambiente humano. Ou seja, viver em estreito contato com os seres humanos durante mais de 30.000 anos fez com que os cachorros desenvolvessem aptidões comunicativas praticamente iguais às das crianças.
No entanto, existem diferenças significativas entre a maneira com que os cães percebem nossa comunicação e como a realizam as crianças. Segundo a teoria, diferentemente das crianças, os cães entendem o gesto de apontar como uma espécie de ordem suave que lhes indica para onde se dirigir, mais do que uma forma de transmitir informação. Por outro lado, quando esse gesto é feito para uma criança ela pensa que estamos informando-a sobre algo.



Os cães entendem o gesto de apontar como uma espécie de ordem suave que lhes indica para onde se dirigir

Essa capacidade dos cães de reconhecer as “diretrizes espaciais” poderia ser a adaptação perfeita à vida com os humanos. Por exemplo, durante milhares de anos esses animais foram usados como uma espécie de “ferramenta social” para ajudar no pastoreio e na caça. Nessas ocasiões era necessário conduzi-los por longas distâncias mediante instruções gestuais. As últimas pesquisas confirmam a ideia de que os cães não só desenvolveram a capacidade de reconhecer gestos como também uma sensibilidade especial para a voz humana, o que os ajuda a distinguir quando têm que responder ao que lhes é dito.
Juliane Kaminski é professora de Psicologia na Universidade de Portsmouth, no Reino Unido, e consultora da Dognition.
Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site The Conversation.






Recordar a lista de compras sem esquecer nada é possível com a ajuda de algumas técnicas GETTY

Conta Cícero em sua obra dedicada à oratória que o precursor da mnemotécnica, Simônides de Ceos, sobreviveu ao desabamento de uma casa onde participava de um banquete porque havia se ausentado brevemente. Simônides foi o único capaz de identificar os corpos dos comensais, porque se recordava do lugar que cada um ocupava durante a festa. Percebeu que, associando cada pessoa a um espaço concreto, poderia se lembrar dos seus nomes, criando o método chamado loci (lugares, em latim), sobre o qual falaremos mais adiante.
Naquela época (em torno do ano 500 a.C.) não só não havia celulares nem computadores como também eram pouquíssimos os que sabiam escrever, razão pela qual a memória era um aliado muito valioso. Hoje, entretanto, é provável que muitos não déssemos uma dentro diante de uma tragédia como a que Simônides presenciou.

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sábado, 11 de março de 2017

Quanto mais grupos de WhatsApp, mais chances de divórcio



Quanto mais grupos de WhatsApp, mais chances de divórcio

Fenômeno ‘phubbing’ provoca cada vez mais discussões entre casais. Mas é possível evitá-las


A cena com certeza vai lhe soar familiar. Pode ser inclusive que já a tenha vivido em primeira pessoa. Um casal divide uma mesa em um restaurante ou está sentado lado a lado no sofá de casa. Uma das partes quer conversar, tenta manter o contato visual... mas do outro lado se produz o silêncio, poucas palavras, o olhar para baixo... O motivo? Seu interlocutor está –para desespero e raiva do acompanhante– vidrado na tela do celular.
Estamos diante de um claro caso de phubbing (acrônimo de phone snubbing, que significa ignorar com o celular). Trata-se de um fenômeno que tem aumentando e que descreve com perfeição um dos grandes males dos nossos dias: quando alguém que está ao nosso lado nos ignora porque está prestando mais atenção ao que acontece em uma tela de celular.
A questão não é fútil. Um estudo conduzido pelo professor James A. Roberts, da Universidade Baylor, nos EUA, descobriu que 46,3% dos 453 adultos entrevistados tinham sofrido phubbing por parte de seu parceiro; e 22,6% declararam que essa prática era fonte de conflito.
Há dois motivos fundamentais, concluiu o especialista, para que o phubbing tenha impacto negativo nas relações de casais. Primeiro, porque o tempo que passamos conectados a nossos dispositivos não estamos empregando para fazer algo significativo que de verdade nos una como casal. E, segundo, porque o mal-estar que gera esse hábito leva, irremediavelmente, a discussões e a uma deterioração da relação. Além disso, as pessoas que disseram ter sido ignoradas por causa do celular por parte de seu cônjuge eram mais propensas a se sentirem deprimidas (na verdade, 36,6% tinham experimentado esse sentimento pelo menos em um ocasião).

Casais em terapia com o celular debaixo do braço

“Na realidade o problema acontece quando existe uma descoordenação no casal e uma das partes sente falta de atenção. Existem outros casos nos quais ambos utilizam muito o celular em companhia do outro, ou que só se comunicam pelo WhatsApp, mas não sentem culpa alguma porque estão em igualdade. Existe um consenso”, explica o psicólogo Enrique García Huete, diretor da Quality Psicólogos e professor da Universidade Cisneros (Madri).
García, que tratou em sua clínica de pessoas que desenvolveram um vício de celular, destaca que o phubbing é um problema cada vez mais recorrente quando um casal com problemas busca terapia. “Reclamam bastante que o outro está sempre agarrado no telefone e não presta atenção no cônjuge. Curiosamente, costumam ser mais os homens que fazem isso, mas não poderia dizer que é um problema em si para se recorrer à terapia. É mais um fator que influencia, mas não é o único".
O escritor e doutor em Filosofia Enric Puig Punye, que acaba de abordar esse assunto em seu livro O Grande Vício. Como Sobreviver Sem Internet e Não se Isolar do Mundo?, aponta outro fator que contribui para gerar mal-entendidos: o fato de que a conexão ao mundo virtual se faz quase sempre a partir de dispositivos individuais e não é uma experiência compartilhada. “Queira ou não, nos concentrarmos cada um em nossos smartphones ou tablets produz uma sensação de secretismo que não ajuda. Ao contrário, desperta suspeitas”, afirma Puig. “Essa separação não seria tão drástica se, por exemplo, todos os membros da família utilizassem apenas um computador comum”.
Por sua parte, o doutor García Huete recorda que "quando nos comunicamos, é tão importante o verbal como o gestual". "Se não nos sentimos atendidos, a sensação de frustração pode ser muito forte. Ao nos centrarmos no virtual, vai se extinguindo uma marca da comunicação muito importante, que só se produz pessoalmente, cara a cara". Em caso de discrepância de opiniões no casal por causa desse assunto, o psicólogo recomenda “acertar em consenso os momentos de uso”. A negociação é muito importante. “Esse processo não servirá de nada se não tivermos consciência de que existe um problema e se não existir uma vontade real de mudança”, afirma García, “porque essas duas coisas nem sempre estão unidas”.

Como desconectar em um mundo hiperconectado (e não morrer na tentativa)

Quando Enric Puig Punyet se propôs a abordar em um livro a forma como a hiperconectividade está afetando as nossas relações, não quis fazê-lo através do depoimento de neo-rurais: pessoas que optaram por se retirar ao campo fugindo do barulho e da agitação do mundo nas cidades. Em vez disso, se propôs a entrevistar pessoas que, sendo nativos digitais, se desconectaram sem renunciar a seu trabalho ou a sua vida social na cidade. E as encontrou: desde um vendedor desempregado que acabou fechando seu perfil no LinkedIn a uma jovem que organiza festas nas quais não se pode tirar nem publicar fotos nas redes sociais.
Nenhuma dessas pessoas tomou a decisão de se desconectar por motivos culturais, mas suas razões tinham relação com preservar a saúde mental e a qualidade de vida. “As pessoas com as quais falei concordam que em determinado momento tiveram uma espécie de revelação”, afirma. E o mais interessante é que ao sair desse turbilhão “se reconectaram com o mundo real, com ações e sensações que estavam esquecidas”.
Puig Punyet, que há anos pesquisa as mudanças provocadas pelas novas tecnologias na estrutura social, relembra que o novo modelo de negócio impulsionado pelo Google e pelos smartphones nos obriga a uma hiperconexão que acaba cobrando seu preço. “Na maioria dos casos representa uma perda de tempo e concentração tremenda. Esse dogma da multitarefa que nos vendem –e acreditamos– é algo que não existe. E então se está na grande dependência que se gera pela ansiedade de ter que estar sempre disponível”.
O psicólogo García Huete explica que no momento em que houver uma dependência do celular ou do tablet “temos que tratá-la como se estivéssemos enfrentando uma substância viciante, porque produz a mesma sensação gratificante a curto prazo e inquietação, ansiedade e síndrome de abstinência quando nos falta”. Entre as pautas básicas para se evitar o vício com as telas estão “reforçar nossos mecanismos de controle das emoções, planejar horários limitados e, se o problema se deriva do trabalho, utilizar dois celulares: um exclusivo para o âmbito de trabalho e outro para socializar”.
Por sua experiência, Puig Punyet acredita que a desconexão parcial será uma tendência em alta e que chegará das mãos dos jovens: “As novas gerações estão se dando conta do excesso e estão renunciando a estar hiperconectadas. Por conta de ter escrito o livro me chegaram muitos mais casos”, diz. “Há adolescentes que vão comer na rua com os amigos e estão deixando o celular em casa”.
É quase inevitável que em algum momento pontual todos nós utilizemos o celular em frente a um terceiro. Mas se o problema passa a ficar sério e nada do que foi dito antes funcionar, é possível formalizar um contrato proposto na internet, chamado Stop Phubbing. Cada um pode adaptá-lo a quem desejar: amigos, família ou cônjuge.