quinta-feira, 25 de maio de 2017

Anton Tchekhov / Varka

Niña dormida
Camilo Minero
Anton Tchekhov
VARKA



Anoitece. Varka balança com o pé um berço onde chora uma criança, cantarolando monotonamente:
— Bain bainscki bain…
Uma lâmpada verde brilha diante de uma imagem de santo. Um par de grandes calças negras pende de uma corda. A lâmpada projeta uma mancha verde sobre as coisas e as calças fazem dançar sombras na parede e no berço. A chama vacila como tocada pelo vendo. O ar é sufocante, impregnado de um odor de sapatos, de couro, de tinta.
O menino chora. Não cessa de chorar e de gemer; está extenuado, sua vozinha tornou-se rouca; mas ele chora ainda, sem parar.
Varka tem sono. Seus olhos fecham-se, sua cabeça inclina-se para o peito. Mal pode abrir os olhos tanto lhe pesam as pálpebras.
— Bain bainscki bain… — murmura com voz extinta, — bain bain…
Um grilo estridula numa frincha do chão. No aposento vizinho, ouve-se a máquina do sapateiro.
O berço range lamentosamente. Varka cantarola, e tudo se confunde num doce murmúrio que convida ao sono. Mas não se deve dormir! Varka resiste ao torpor que a invade, porque, se por desgraça adormecer, o patrão bater-lhe-ia. A chama da lâmpada vacila. A mancha verde e a sombra negra dançam diante dos olhos fixos que Varka se esforça por conservar abertos. Sonhos indistintos vagam no seu cérebro amodorrado. Ela vê nuvens negras que se perseguem, gritando com voz infantil. As nuvens se desfazem e Varka divisa uma estrada, longa, negra e lamacenta. Filas de carros avançam lentamente; homens caminham vagarosamente, sombras se agitam aqui e acolá! Através de uma névoa cinzenta e fria ela entrevê os albergues, dos dois lados da estrada. As sombras se alongam, os viajantes perdem-se na estrada lamacenta.
— Por quê? — pergunta Varka.
— Para dormir, para dormir…
E dormem um sono de chumbo, profundamente, enquanto sobre os fios telegráficos corvos gritam, com voz infantil, para acordar aqueles homens…
— Bain bainscki bain… — canta Varka, e, súbito, acha-se numa mísera isba negra, acanhada e sufocante. Não é aquele seu pai, Efim Stepanov, que ali jaz por terra e se estorce em sofrimentos atrozes? Ela vê, mas não ouve os gemidos. É a sua hérnia que o atormenta. A dor é tão forte que ele não pode falar; respira penosamente, com um gargarejo contínuo:
— Groo… groo… groo…
Eis a mulher, Pelágia, que se precipita para fora da isba, para dizer ao patrão que Efim é moribundo. Quando voltará? Saiu já há muito tempo e Varka espera-a. Varka está acordada perto do fogão, mas não dorme e escuta o ofegar do moribundo:
— Groo… groo… groo…
Finalmente, um rumor de rodas que se dirige para a isba. Um médico vem visitar o doente. Entra no quarto. A escuridão é tanta que Varka não o vê, mas ouve a sua voz.
— Dê-me uma luz! — exclama ela.
A mãe acende uma vela. Efim sufoca.
— Que tem? pergunta o médico curvando-se sobre ele.
— Que tenho? Morro. Está acabado.
— Ainda não. Salvar-te-emos. Havemos de curar-te.
— Se vossa senhoria acha, agradeço-lhe muito. Mas se a morte está aqui, paciência.
O médico examinava o doente. Os minutos corriam.
— Não posso fazer nada — disse —, é preciso mandá-lo para o hospital para ser operado; mas isto depressa, sem perder um minuto. É tarde, e no hospital devem todos estar recolhidos, mas eu darei um bilhete de recomendação para o diretor. Compreendeu?
— Mas ele não pode andar, senhor! Nós não temos cavalo! — gemeu a mãe.
— Mandarei buscá-lo — disse o médico, e foi-se, e a vela apagou-se e Varka ouve novamente:
— Groo… groo… groo…
Alguns instantes depois pára um carro à porta. Recebe Efim e parte…
É dia. O tempo está alegre. A mãe vai ao hospital saber notícias. E volta. Entrando na isba, faz o sinal-da-cruz e chora.
— Operaram-no, e a princípio estava melhor, mas depois, pela madrugada, morreu. Que Deus o tenha em sua paz. Disseram que era muito tarde, que deveríamos tê-lo mandado mais cedo para o hospital.
Eis Varka no meio do bosque. Caminha ao lado da mãe, e chora, chora amargamente.
De repente ela recebe uma pancada na cabeça, tão violenta que cai e bate com a cabeça numa árvore. Abre os olhos e vê o patrão, o sapateiro:
— Que fazes, preguiçosa?! — grita ele. — O menino chora e tu dormes?
E puxa-lhe as orelhas; ela recomeça a balançar o berço, cantarolando:
— Bain bainscki bain…
A mancha verde e a grande sombra negra dançam na parede, e o cérebro dela se entorpece. Ei-la novamente na grande estrada lamacenta. Os viajantes dormem profundamente. Varka tem sono também, tem tanto sono e seria tão feliz se pudesse dormir… Mas sua mãe caminha sempre e arrasta-a pela mão. Dirigem-se à cidade em busca de trabalho.
— Uma esmola, pelo amor de Deus! — mendiga a mãe durante todo o caminho. — Tende piedade…
— Depressa, dá-me o menino! — responde uma voz tonitruante — dá-me o menino! Tu dormes, canalha! — grita a voz irritada e rude.
Varka levanta-se, estremunhada. Sim, compreende: não mais a longa estrada, os viajantes, a imagem da mãe. É a patroa que aparece no meio do quarto, que vem aleitar o menino. Aquele era o passado de Varka, visto em sonho; este é o presente.
Enquanto a gorda patroa aleita o menino, procurando adormecê-lo, Varka, de pé, lança os olhos pela janela. O céu empalidece, a sombra e a mancha verde estão quase desvanecidas: dentro em pouco será dia.
— Toma, segura o menino! — ordena a patroa, abotoando a camisa no peito. — Ele chora sempre. Tu com certeza o maltrataste!
Varka torna a deitar o menino e recomeça a embalá-lo. Que sono terrível! Os olhos se fecham, a cabeça pesa-lhe como chumbo.
— Varka, é tempo de acender o fogão — brada a voz do patrão.
É preciso levantar-se e trabalhar. Varka larga o berço e vai buscar a lenha. Está contente de poder mover-se, andar, espantar aquele sono tremendo. Está pronto o fogo. Suas idéias aclaram-se, seu rosto distende-se.
— Varka! o samovar! depressa! — grita a patroa.
Varka apronta o samovar e recebe nova ordem.
— Varka, vai limpar as botas do patrão!
E ela acocora-se para limpar as botas. Ah! como seria bom meter a cabeça dentro de uma daquelas botas e dormir! Varka escancara os olhos e sacode-se vigorosamente.
— Varka, vai lavar a sala! Está que é uma vergonha! E os fregueses não tardam!
Varka lava rapidamente o chão, varre tudo, limpa tudo, acende o outro fogão! O tempo urge: não há um momento a perder.
O dia passa. Varka vê com alegria a noite que chega. O ar fresco da noite promete-lhe um longo e profundo sono. Mas, quando a noite chega, chegam visitas.
— Varka! — grita a patroa — depressa, o samovar!
O samovar é pouco, e Varka deve ferver mais água, enquanto os patrões e os visitantes abancam-se em torno da mesa.
— Varka corre a buscar três garrafas de cerveja! Varka, os copos! Varka!
Vão-se finalmente os visitantes. Apaga-se a luz; os patrões vão deitar-se.
— Varka! vai embalar o menino! — dizem eles.
O grilo canta, a mancha verde e a sombra negra agitam-se novamente ante os olhos sonolentos e entorpecem-lhe o cérebro.
— Bain bainscki bain…
O menino grita… Varka revê a estrada lamacenta, os viajantes, a sua mãe Pelágia, seu pai Efim… Reconhece-os perfeitamente, mas não pode ver o monstro que a tortura, que a tem amarrada de pés e mãos, que a sufoca, que a impede de viver.
Volve a cabeça de todos os lados e procura aquele inimigo infernal, para libertar-se. Em um esforço supremo, abre os olhos, vê a mancha verde, a sombra negra que se agita, quando, de súbito, um grito do menino fere-lhe os ouvidos.
Finalmente! Varka encontrou o inimigo que a impede de viver. É aquele menino o seu inimigo impiedoso! E ela ri, espantada de o não haver descoberto antes. Que estúpida! A mancha, a sombra, o grilo, tudo ri com ela, tão estúpidos como ela. Uma idéia luminosa passa-lhe no cérebro pesado. Levanta-se vagarosamente do escabelo em que está sentada, com um claro sorriso no rosto embrutecido, e dá alguns passos. A idéia de libertar-se do menino aparece-lhe mais viva. Libertar-se daquele que a impede de viver! Precisa matá-lo, e depois dormir, dormir, dormir…
Sorrindo, rindo e piscando os olhos para a mancha verde, Varka avizinha-se do berço, curva-se sobre o menino: e sufoca-o. Depois estende-se rapidamente no chão, sorrindo de alegria ao pensamento de que finalmente poderá dormir. E adormece logo.
Varka dorme um sono profundo e pesado como a morte.




segunda-feira, 22 de maio de 2017

Elizabeth Bishop / Poeta, lésbica, modernista e brasileira de adoção


Elizabeth Bishop

Poeta, lésbica, modernista e brasileira de adoção: como o mundo está redescobrindo Elizabeth Bishop

Uma biografia e uma peça de teatro recuperam a figura da poeta norte-americana, que construiu parte de sua obra no Rio


MARTA REBÓN
9 ABR 2017 - 19:18 COT



Elizabeth Bishop, fotografada aos 43 anos na fazenda Samambaia.
Elizabeth Bishop, fotografada aos 43 anos na fazenda Samambaia.

Em 1951, aos 40 anos, a poeta norte-americana Elizabeth Bishop parte de Nova York em um cargueiro com o desejo de dar a volta ao mundo. Não é uma simples turista em busca de prazeres e inspiração. Ao se expatriar, deseja soltar lastro, escapar de um pesado fardo cheio de episódios de depressão e alcoolismo, alternados com fortes ataques de asma e surtos de eczemas, que ameaçam truncar sua carreira como escritora. A competitiva cena literária nova-iorquina, somada à solidão que ali a invade, choca-se com seu extremado acanhamento e fragilidade emocional, marcados pela ausência de um pai que, morto prematuramente, não chegou a presenciar seu primeiro aniversário, e de uma mãe que, afundada pela dor, não tardou a ser internada num manicômio e a desaparecer por completo da sua vida.


Anotações que mostram o rigor com que Bishop tratava seus poemas.
Anotações que mostram o rigor com que Bishop tratava seus poemas.


A partir de então, Elizabeth ficará às vezes sob os cuidados da família paterna, e às vezes da materna, sem chegar a encontrar o calor de um verdadeiro lar. Na verdade, quando vive com as irmãs de sua mãe, seu “sádico” tio a submete a abusos que só confessará, décadas mais tarde, ao seu psiquiatra, como revela a recente biografia Miracle for Breakfast (“milagre no café da manhã”), de Megan Marshall. Não é de estranhar que, numa entrevista à The Paris Review, Bishop tenha confessado que quando menina se sentia como uma convidada. “Acho que sempre me senti assim”, dizia. Marshall, ex-aspirante a jovem poeta e ex-aluna dela em Harvard em 1976, conta por email que Bishop “não acreditava que se pudesse ensinar a escrever, e dizia que os poemas, no seu caso, começavam como um mistério e uma surpresa, e que os concluía à base um de grande esforço e de árduo trabalho”.
O navio SS Bowplate, cujo destino era a Terra do Fogo, faz sua primeira escala no porto de Santos, e a escritora a aproveita para visitar, no Rio do Janeiro, um compatriota dela e sua mulher, Maria Carlota Costallat de Macedo Soares, a quem havia conhecido quatro anos antes em Manhattan. A viagem toma então uma direção imprevista: obrigada a passar semanas de cama por causa de uma intoxicação virulenta, acabará por permanecer mais de quinze anos no Brasil. Sua anfitriã, a quem todos chamam de Lotta, nascera em Paris e era filha de um magnata da imprensa carioca.


Lotta de Macedo Soares, companheira de Elizabeth Bishop durante 14 anos.
Lotta de Macedo Soares, companheira de Elizabeth Bishop durante 14 anos.


Cosmopolita e envolvida na vida cultural e política do seu país, abre-lhe de par em par as portas da sua impressionante fazenda Samambaia, em Petrópolis, 70 quilômetros ao norte do Rio. Quando a relação entre ambas se estreita, Lotta, arquiteta e paisagista autodidata, manda construir um estúdio para a poeta. Suspenso no ar como um mirante de vidro, ergue-se de costas para a casa, alheio à azáfama doméstica e arrulhado pelas águas de um riacho.
O escritor Michael Sledge reconstrói em A Arte de Perder (Leya, 2011) a relação sentimental entre as duas mulheres. Uma história vivida com intensidade e com desenlace trágico: Lotta morreu de overdose – não se sabe se acidental – durante uma visita à sua já ex-amante em Nova York, em 1967. Durante os 14 anos de vida comum, a escritora cria memoráveis peças em prosa, nas quais recupera, por exemplo, os ecos da sua difícil infância na Nova Escócia (Canadá) e em Massachusetts; publica sua segunda coletânea poética, Uma Primavera Fria, prêmio Pulitzer em 1956, e concebe um terceiro, Questões de Viagem (1965), no qual lança a pergunta: “É falta de imaginação o que nos obriga a vir / a lugares imaginados, em vez de ficar em casa?”. A paisagista carioca, por sua vez, trabalha infatigável, durante os últimos anos do relacionamento, para dar à sua cidade o imponente Aterro do Flamengo: um projeto exaustivo, que cobrará um alto preço pessoal.


Parte da casa em que Bishop e Lotta de Macedo Soares viveram juntas.
Parte da casa em que Bishop e Lotta de Macedo Soares viveram juntas.


Tudo o que Lotta tem de expansiva e segura, Bishop tem de tímida e introspectiva, mas da combinação desses polos opostos surge um vínculo que transformará a vida e a obra de ambas. Para Bishop, isso representou fincar raízes pela primeira vez em um lugar e se permitir ser merecedora do amor de alguém: "Às vezes, parece que só as pessoas inteligentes são estúpidas o suficiente para se apaixonar, e que só as estúpidas são inteligentes o suficiente para se permitirem ser amadas", escreveu em um caderno. Quando seus caminhos se cruzam -- Bishop já havia publicado um primeiro livro de poemas, Norte e Sul. Sledge observa que sua "escrita era um trabalho tão rigoroso que deixar um poema em um ponto aceitável podia levar anos".
Mais do que criar um mundo, como fazem muitos poetas, Bishop descreve com sobriedade o que vê, sem nunca ceder ao sentimentalismo, que detestava, e parece encorajar sossegadamente o leitor ao observá-lo mais de perto. Sua poesia é de percepção, na qual as palavras transmitem uma verdade transitória, nunca absoluta, sem entrar em detalhes em confissões ou verter frases categóricas. Em sua obra convergem, estranhamente, o impessoal com o íntimo. Bishop evitava os rótulos, quaisquer fossem eles: mulher, lésbica, modernista ou norte-americana. Sua dúzia de histórias e quatro livros de poemas, um por década desde seu começo, são um bom exemplo da exigência com a qual enfrentava cada composição.


La poeta, à esquerda, com o arquiteto Harold Leeds, o diretor Wheaton Galentine e Lotta de Macedo Soares.
La poeta, à esquerda, com o arquiteto Harold Leeds, o diretor Wheaton Galentine e Lotta de Macedo Soares.


Megan Marshall, sua biógrafa, acredita que a popularidade da escritora continuará aumentando e menciona, entre outros exemplos, a recente obra de teatro de Sarah Ruhl, Dear Elizabeth, que condensa 800 páginas de relacionamento epistolar entre Bishop e o também poeta Robert Lowell. Em um de seus melhores poemas, Bishop nos lembra de algo muito simples, embora essencial, que viver é aprender a conjugar o verbo perder: "Perca um pouco a cada dia. / Aceite austero, a chave perdida, a hora gasta bestamente. / A arte de perder não é nenhum mistério".


A poetisa com a cozinheira e escritora culinária Rosemary Manell.
A poetisa com a cozinheira e escritora culinária Rosemary Manell.


Marshall aponta que Bishop nos "mostra que a perda é uma experiência universal, e, ao escrever tão bem sobre esse tema, consegue criar, paradoxalmente, algo que perdura". Acrescenta que a poeta era amante do espanhol, idioma que aprendeu quando adulta e ao qual se sentia unida "já que passou vários meses durante a Segunda Guerra Mundial no México, onde conheceu Pablo Neruda, e foi então que deve ter sabido da existência do poeta Miguel Hernández, cuja Elegia tentou traduzir em 1970, e que certamente influenciou a composição de seu imortal Uma Arte, sua elegia".


sexta-feira, 19 de maio de 2017

Margaret Atwood / Maldita profecía


Margaret Atwood

Margaret Atwood: Maldita profecia

Autora canadense escreve novo prefácio para 'O Conto da Aia', sobre uma ditadura anti-feminista

Texto é base de série com mesmo nome original, 'The Handmaid's Tale', que ainda não estreou no Brasil



Na primavera de 1984 comecei a escrever um romance que inicialmente não ia se chamar O Conto da Aia. Escrevi à mão, quase sempre em uns cadernos amarelos com pauta, e depois transcrevia meus rabiscos quase ilegíveis com uma gigantesca máquina de escrever alugada, com teclado alemão.
Estava há um ou dois anos evitando enfrentar esse livro. Parecia um empreendimento arriscado. Tinha lido a fundo muita ficção científica, ficção especulativa, utopias e distopias, desde o tempo da escola, lá pelos anos cinquenta, mas nunca tinha escrito um livro desse tipo. Seria capaz?

Em 1984, a premissa principal parecia um tanto excessiva, mesmo para mim. Convenceria os leitores de que nos Estados Unidos tinha ocorrido um golpe de Estado que transformou a democracia liberal até então existente em uma ditadura teocrática que levava tudo ao pé da letra? No livro, a Constituição e o Congresso não existem mais; a República de Gilead se levanta sobre os fundamentos das raízes do puritanismo do século XVII, que sempre estiveram sob a América moderna que pensávamos conhecer.
No livro, a população está em declínio por causa da poluição ambiental e diminui a capacidade de ter filhos. Como nos regimes totalitários – ou em qualquer sociedade radicalmente hierarquizada –, a classe dominante monopoliza tudo que tem algum valor e a elite do regime consegue dividir entre si as fêmeas férteis como Aias. Isso tem um precedente bíblico na história de Jacó, suas duas esposas, Raquel e Lia, e as duas empregadas delas. Um homem, quatro mulheres e doze descendentes que as criadas não podiam reivindicar. Pertenciam às esposas.
Ao longo dos anos, O Conto da Aia adotou muitas formas diferentes. Foi traduzido a 40 línguas, ou talvez mais. Em 1989, foi adaptada ao cinema. Foi uma ópera e um balé. Está sendo feita uma graphic novel. E logo vai estrear uma série de televisão.
Participei nas filmagens desta última com uma pequena participação. É uma cena na qual as Aias recém-contratadas são submetidas a uma lavagem cerebral, no estilo praticado pelos Guardas Vermelhos. Devem aprender a renunciar a suas antigas identidades, a assimilar o lugar e as obrigações que correspondem, a entender que não têm nenhum direito real, mas que vão obter proteção, até certo ponto, desde que sejam capazes de se conformar e ter baixa estima para aceitar o destino que lhes é atribuído sem se rebelar ou fugir.


O controle das mulheres e seus descendentes foi a base de todo regime repressivo.

As Aias estão sentadas em círculo, enquanto as Tias, equipadas com suas varas elétricas, forçam todas a participar no que agora – não em 1984 – é chamado de “a desonra das vagabundas” contra uma delas, Jeanine, que é obrigada a relatar o estupro grupal que sofreu na adolescência. “Foi culpa dela, ela provocou”, gritam as outras Aias.
Embora seja apenas uma série de TV, a cena me produziu um choque horrível. Era muito parecido, demais, com a história. Sim, as mulheres se unem para atacar outras mulheres. Sim, acusam as outras para se livrarem delas: vemos com absoluta transparência na era das redes sociais, que tanto favorecem a formação de enxames. Sim, aceitam encantadas situações que lhes dão poder sobre outras mulheres, mesmo – e talvez especialmente – em sistemas que no geral concedem escasso poder às mulheres: no entanto, todo poder é relativo e em tempos difíceis é evidente que ter pouco é melhor do que não ter nenhum. Algumas das Tias que exercem o controle são verdadeiras crentes e acham que estão fazendo um favor às Aias: pelo menos não foram enviadas para limpar resíduos tóxicos; pelo menos, neste mundo novo feliz, ninguém vai violá-las, ou não exatamente, ou pelo menos quem as violar não é um desconhecido. Entre as Tias algumas são sádicas. Outras são oportunistas. E serve para elas pegar algumas das reivindicações favoritas do feminismo de 1984 – como as campanhas contra a pornografia e a exigência de maior segurança contra os ataques sexuais – e usá-los em benefício próprio. Como dizia: a vida real.
O que me leva às três perguntas que me fazem com frequência. A primeira: O Conto da Aia é um romance feminista? Se isso significa que é um tratado ideológica no qual todas as mulheres são anjos ou estão vitimizadas e, portanto, perderam a capacidade de escolher moralmente, não. Se quer dizer que é um romance no qual as mulheres são seres humanos e além disso são interessantes e importantes, e o que acontece com elas é crucial para o tema, a estrutura e o enredo do livro... Então, sim. Nesse sentido, muitos livros são “feministas”.




Ilustração de Anna e Elena Balbusso para a edição de 'O Conto da Aia' da The Folio Society.
Ilustração de Anna e Elena Balbusso para a edição de 'O Conto da Aia' da The Folio Society.


Por que são interessantes e importantes? Porque na vida real as mulheres são interessantes e importantes. Não são um subproduto da natureza, não representam um papel secundário no destino da humanidade, e todas as sociedades souberam disso. Sem mulheres capazes de dar à luz, a população humana seria extinta. Por isso as violações em massa e o assassinato de mulheres, garotas e meninas foi uma característica comum das guerras genocidas, ou de qualquer ação destinada a subjugar e explorar uma população. O controle das mulheres e seus descendentes foi a base de todo regime repressivo do planeta. Napoleão e sua “bucha de canhão”, a escravidão e a mercadoria humana, uma prática eternamente renovada: ambos se encaixam aqui. Teríamos que perguntar àqueles que promovem a maternidade forçada: Cui bono? Quem se beneficia? Às vezes um setor, às vezes, outro. Nunca ninguém.
A segunda: O Conto da Aia é um romance contra a religião? Mais uma vez, depende do que se quer dizer. É verdade, um grupo de homens autoritários assume o controle e tenta estabelecer uma versão extrema do patriarcado no qual as mulheres (como os escravos americanos no século XIX) estão proibidos de ler. Mais ainda, não podem ter nenhum controle sobre o dinheiro ou trabalhar fora de casa. O regime usa símbolos bíblicos, como, sem dúvida, faria qualquer regime autoritário que quisesse dominar os Estados Unidos.
As roupas recatadas das mulheres em Gilead vêm da iconografia religiosa ocidental: as Esposas usam o azul da pureza, da Virgem Maria; as Aias usam vermelho pelo sangue do parto, mas também por Maria Madalena. Além disso, o vermelho é mais fácil de ver se você quiser fugir. Muitos regimes totalitários recorreram à roupa – tanto proibindo alguns itens, como obrigando a usar outros – para identificar e controlar as pessoas – pensemos nas estrelas amarelas, e no roxo dos romanos –, e em muitos casos se esconderam atrás da religião para governar. Assim é muito mais fácil apontar os hereges.
No livro, a religião dominante se ocupa de conseguir o controle doutrinário e consegue aniquilar as denominações religiosas que são familiares. Como os bolcheviques destruíram os mencheviques para eliminar a concorrência política, e as várias facções dos Guardas Vermelhos lutaram entre si até a morte, católicos e batistas se transformam em objeto de identificação e aniquilação. Os quakers passaram para a clandestinidade e montaram uma rota de fuga para o Canadá. Então, o livro não é contra a religião. É contra o uso da religião como uma fachada para a tirania: são coisas muito diferentes.
O Conto da Aia é uma previsão? É a terceira pergunta que costumam me fazer com mais frequência, à medida que certas forças da sociedade norte-americana ocupam o poder e aprovam decretos incorporando o que sempre tinham dito que queriam fazer, mesmo em 1984, quando comecei a escrever o romance. Não, não é. Digamos que é uma antiprevisão: se este futuro pode ser descrito em detalhe, talvez não chegue a ocorrer. Mas não podemos confiar muito nessa ideia bem-intencionada.
O Conto da Aia baseou-se em muitas facetas diferentes: execuções grupais, leis suntuosas, queima de livros, o programa Lebensborn da SS e o roubo de crianças na Argentina pelos generais, a história da escravidão, a história da poligamia nos Estados Unidos... A lista é longa.
Mas falta uma forma literária à qual não mencionei: a literatura testemunhal. Offread registra sua história apenas como pode; depois, esconde-a com a confiança de que, com o passar dos anos, será descoberta por algum ser livre, capaz de entender e compartilhar. É um ato de esperança: toda história pressupõe um futuro leitor. Robinson Crusoé mantinha um diário. Também Samuel Pepys, Roméo Dallaire e Anne Frank.
Depois das recentes eleições nos Estados Unidos, proliferam medos e ansiedades. Dá a impressão de que as liberdades civis básicas estão em perigo, também muitos dos direitos conquistados pelas mulheres nas últimas décadas, mesmo ao longo dos séculos passados. Neste clima de divisão, em que parece estar crescendo a projeção de ódio contra muitos grupos e extremistas de toda denominação expressam seu desprezo às instituições democráticas, temos a certeza de que, em algum lugar, alguém – muitas pessoas, ouso dizer – está anotando tudo o que acontece a partir de sua própria experiência. Ou talvez recordem e escrevam mais tarde, se puderem.
Suas mensagens ficarão escondidas e reprimidas? Vão aparecer, séculos mais tarde, em uma casa velha, dentro de uma parede Vamos manter a esperança de que não chegaremos a isso. Eu confio que isso não vai acontecer.